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Velho para sidequests

Por: André Pereira
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e for preciso, consigo desencantar artigos com citações de filmes e o deste mês deve-se a Arma Mortífera. Danny Glover diz constantemente que está demasiado velho para aquela caca (não digo asneiras que ainda podem aparecer crianças por aqui). E, tal como o Danny, também eu estou. Também nós estamos.

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A reacção do Danny Glover ao título do artigo.

Velhos e sem paciência para algumas chatices ou mecânicas de jogos, mas neste caso, para sidequests ou missões secundárias. Não me interpretem mal, gosto de jogos longos. Consigo estoirar 80 e mais horas num modo de história e se as missões secundárias valerem a pena, passo mais tempo naquele mundo. No entanto, há bom conteúdo e há o encher chouriços.

Como não sou tendencioso, vou começar por um dos jogos do meu coração, The Legend of Zelda: Wind Waker. Adoro os visuais, a banda sonora, a jogabilidade e a história. A História!, mas se há algo que detesto no jogo são as missões secundárias. Às tantas, podemos navegar livremente à procura de tesouros que são quase sempre baús com rupees. Diversão ou sadismo, fica ao critério de cada um, mas não consigo passar horas a deambular só para apanhar dinheiro virtual. Dinheiro que acaba por nem servir para nada porque a história dá-nos o que precisamos para acabar o jogo. Não existe um sentido de evolução ou missão cumprida, apenas uma validação ao transtorno obsessivo compulsivo de riscar uma lista digital; Breath of the Wild “convida-nos” a apanhar 900 Koroks sem nenhuma recompensa digna desse nome. Spoiler: recebem literalmente uma poia gigante. Se foi uma crítica ao que escrevi em cima, perfeito, tiro-lhes o meu gorro verde pela chapada de luva branca; Super Mario Odyssey tem 999 luas para coleccionar e aqui já dou o braço a torcer. Tanto pode ser entulho para depois da história ou uma expansão desta. Muitas das luas permitem ao jogador explorar os níveis em detalhe, desbloquear novas áreas ou testar as suas habilidades. Ataquei o desafio, fui terminando os mundos e fiquei orgulhoso quando apanhava aquela lua mais escondida ou inacessível, seja por mérito próprio ou por pensar fora da caixa. Saltar à corda 100 vezes? Nope.

Consigo ver algum valor neste tipo de conteúdo adicional: missões secundárias com algum impacto no mundo ou… inimigos secretos! Ah, lembram-se das Weapons em alguns Final Fantasy? Dos Dark Aeons em X? De Sephiroth em Kingdom Hearts? Quase todos, senão todos, eram mais difíceis que o boss final. E a razão é porque não faziam parte do enredo principal e, como tal, não podiam frustrar ou impedir que o jogador acabasse o jogo. Esses inimigos secretos implicavam horas de dedicação a treinar, melhorar equipamento e adquirir habilidades; a conhecê-los e às suas fraquezas. Tínhamos de ser mesmo bons nos tempos em que não havia sistemas de conquistas, apenas a nossa gabarolice. Em Kingdom Hearts, quando venci o Sephiroth suava em bica, mas caramba se não ria que nem maníaco! Está feito e está! Claro que para apanhar a Ultima Weapon tínhamos de perder horas a derrotar inimigos na vã esperança de nos darem um item super raro para sintetizar. Epá, não. E a Zodiac Spear, em Final Fantasy XII? Só os entendedores entenderão.

Isso é quando um jogo passa aquela linha da falta de respeito para com o jogador. Ter conteúdo adicional para expandir aquele universo é bonito e mostra trabalho, mas quando um jogo tranca esse conteúdo por detrás do “factor sorte” é simplesmente parvo. Xenoblade Chronicles 2 é um bom exemplo que me veio agora à cabeça. História bonita, personagens bonitas, muita coisa bonita, mas as sidequests? Não basta o menu destas ser péssimo e nada intuitivo, o que me fez ignorá-las de imediato, como as que estão ligadas às Blades só surgem se as tivermos e para as conseguirmos precisamos de as ganhar. E isso é aleatório, porque tanto calha uma Blade genérica como a mais rara de todas nas primeiras horas de jogo. Demasiado esforço, pouca recompensa.

The Witcher 3 é tido como um dos melhores jogos no que toca ao tratamento das sidequests. Tirando uma ou outra, elas têm impacto naquele mundo e são pedaços de história que expandem a mitologia da série. Aliás, a profissão da personagem adequa-se às missões de caçar monstros. Não é perfeito porque também tem fetch quests, as infinitas caches em Skellige ou as cartas de Gwent, mas está lá quase. A minha aflição surge quando vejo o mapa cheio de ícones e outros pontos de interesse. Meto na cabeça que tenho de limpar tudo ou não aproveitei o jogo ao máximo. Os estúdios acabam por topar isso e não é raro vermos jogos medíocres a surfar a onda dos mundos abertos com mapas cobertos de coisas para apanhar. Se antes, quando a oferta era pouca ou na altura dos dois jogos por ano (ver artigo anterior) havia interesse em jogar até ao tutano porque não sabia quando ia ter um jogo novo, agora não.

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Uma fetch quest interessante…

Podia apontar o dedo a várias séries, mas enfia a carapuça quem quiser; podia cascar nas quests infinitas de Skyrim; nos modos de zombies que estão na moda. Além de quererem as nossas carteiras, todos querem um pedaço do nosso tempo.

Tomei esta decisão há algum tempo: vou aceitar todas as sidequests e completá-las à medida que avanço no jogo. Se tropeçar na sua conclusão, óptimo! Esta mentalidade ajudou-me a enriquecer a minha experiência de jogo. Um exemplo tolo: estava a jogar Yakuza Kiwami e a seguir uma mancha de sangue, mas fui ao Karaoke só porque sim. A pessoa bem que podia morrer, mas eu queria era cantar e beber as minhas mágoas. Eu adoro que Yakuza cambaleie entre o enredo dramático e as missões secundárias mais fora deste planeta que podem levar o jogador a treinar dominatrixes tímidas, gerir cabarets, ajudar crianças a apanhar cartas, sei lá. É um jogo excelente com a sua quota de palha. Decidi que fazia as coisas se tropeçassem no meu caminho e algumas fazem-no literalmente.

Estou demasiado velho para esta caca, pessoal. A vida já nos obriga a sair do caminho principal várias vezes sem grandes recompensas e o tempo é dinheiro! Dêem-me uma boa história e fico satisfeito. Se houver pratos secundários de qualidade, lá estarei para provar. Se não, também não há problema, posso repetir o prato principal, tanto que estou na terceira volta do Detroit: Becomes Human porque a história e as personagens são daqui, ó – toquei na ponta da orelha. Não viram, deixem lá.

Eu também, Connor. Eu também!

Bons jogos!

2 thoughts on “Velho para sidequests Deixe um comentário

  1. Sem dúvida que com o tempo, as sidequest roubam demasiado do pouco tempo que já temos para isto. Acabei ontem o Shadow of the Tomb Raider e muito sinceramente, fiz o que foi aparecendo na zona mas as side quests mal toquei, uma ou outra apenas para testar. Conteúdo chouriço no geral, tal como disseram e também costumo dizer. ^^ Siga para o próximo até porque para quem faz análises, isto é sempre a andar xD As sidequests de Witcher ainda fiz quase todas porque na altura tinha tempo. Isto do main game porque dos dlcs já foi outra conversa. Hoje em dia também prefiro uma boa história a uma carrada de missões secundárias só porque sim. Nos dias que correm, há mais jogos que nunca a sair e há sempre algo à espreita para ser jogado, muitos até por um preço bastante acessível. Bom, no Yakuza costumo fazer porque adoro o franchise da verdade mas mesmo esse, já vai ficando para trás, até porque aquilo tem conteúdo que nunca mais acaba também. Em Suma, no geral, os tempos das secundárias já eram para mim também.

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    • Eu tenho uma relação muito estranha com as sidequests e no geral, acabo quase sempre por me fartar. Os colecionáveis são, para mim, o pior, especialmente em jogos como Shadow of the Tomb Raider! E é verdade, há cada vez mais jogos a sair, até jogos independentes, mas o problema é que os estúdios AAA querem títulos como serviços onde ficamos agarrados a um jogo enquanto ele é atualizado constantemente com DLC. Em que ponto ficamos? Parece que estão todos a lutar pelo nosso tempo!

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