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A Vida em Caixas

Eu até ia voltar aos artigos anteriores, mas como dizia Al Pacino, em O Padrinho III, quando penso que estou safo, eles arrastam-me de volta.

E aqui a culpa é do João com o excelente artigo de como terminar relações com o coleccionismo. Admito que gostei, fiquei triste e algo salgado por me rever na situação – quer dizer, mais ou menos. Prometi-lhe que respondia no próximo artigo e cá estamos!

Entristece-me quando penso numa realidade alternativa onde deixei de jogar por este ou aquele motivo; quando escrevem que vão abandonar o que lhes deu prazer porque vão casar e há prioridades ou porque vão ter filhos e precisam do espaço. Às vezes a vida muda de direcção e temos de ceder. Até pode ser uma fase e arrependerem-se mais tarde, mas o passo mental já está dado. O artigo do João ressoou comigo porque revi-me naquelas palavras e não queria admitir a mim mesmo que o fim estava a chegar – o fim já tinha chegado há algum tempo. Foi preciso lê-lo para ver que não estava sozinho.

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“I know that feel, bro”.

Apenas para situar: as nossas situações de vida eram muito semelhantes. Quando arranjei emprego também comecei a investir na colecção mais a sério. Queria focar-me nos RPG e nos jogos de terror e, em pouco tempo, os meus dois jogos por ano (Natal e Aniversário) passaram para várias prateleiras, para um móvel e para um quarto. Também não ganhava muito, mas aprendi a ser inteligente na hora de comprar: conheci as lojas de usados, as feiras da bagageira e os grupos de Facebook; aprendi a regatear e a topar tretas à légua. Era fantástico! Comecei a gostar mais do acto de comprar do que coleccionar e jogar. Caçar aquele jogo raro, esperar pelo fim do leilão e licitar rés-vés Campo de Ourique, regatear aquele preço com alguém teimoso e manter-me firme – a adrenalina da caça! Perdi-me. A colecção lá aumentava, mas… Quando olhei para ela, muitos jogos não me diziam nada. Olhar para trás é importante e bonito, mas se a vista estiver obstruída por uma parede de jogos maus não vale muito a pena.

Com casa própria, convenci-me que ia ter uma Gaming Room para expor os jogos, as consolas e as demais merchandise. Não se concretizou. Os jogos estão numa caixa e as consolas numa caixa estão. Ia lá quando quisesse jogar algo, mas de resto, longe da vista, longe do coração. São demasiados jogos que não deverei jogar ou gostar; demasiados jogos para expor (a quem?); e as edições de coleccionador que estão lá porque eram bonitas? Se por um lado tenho jogos até à idade da reforma, por outro tenho demasiadas coisas!

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To sit on my throne as the Prince of Bel-Air?

Pensem comigo: se uma árvore cair e ninguém estiver por perto, será que faz barulho? Se gastei dinheiro em jogos, mas estão ali parados, será que valem alguma coisa? Acredito que dependa da pessoa e do motivo pelo qual estão a coleccionar, mas percebi que eu dou mais valor às memórias que acabo por associar a cada jogo. O meu primeiro Final Fantasy (VIII) foi comprado na altura dos “dois jogos por ano” e quis ir para jogos de longa duração. Eu pedi Abe’s Oddysee e sugeri ao meu irmão pedir FF VIII; Final Fantasy VI (o meu favorito) foi trocado às três pancadas por um Tony Hawk’s 3 nos escuteiros; Metal Gear Solid demorou meses a chegar àquela loja da Singer, na Terceira, mas jogava a demo com o meu vizinho vezes sem conta; Link’s Awakening foi jogado numa torre de vigia à noite, em Gondomar, em plena floresta e com uma lanterna. Podia ficar aqui a contar histórias, não podia? Hoje, por mais que vá jogando por jogar, tão cedo não vou sentir o mesmo e a culpa nem é dos jogos (alguma…), mas das circunstâncias da vida. Talvez quando estiver com alguém especial possa sentir aquele calor da descoberta e do deslumbramento.

Isto até roça o filosófico, mas é mesmo uma questão de nostalgia e saber largar o passado. Tomei uma decisão: fui para a frente da estante e comecei a tirar jogos à toa para experimentar. Se gostasse, ficavam. Se não gostasse, iam para a pilha. Consegui separar muito trigo do joio e como não estava interessado em lucrar, fui dando a amigos e a associações porque eu queria era espaço e paz de espírito. Livrei-me da gordura extra e consegui uma colecção mais modesta e concentrada. O amor aos RPG continuou forte e mantive aqueles de terror mais raros, olá Rule of Rose! Custa-me imenso largar, mas estava mesmo na hora do adeus.

OK, não é um fim definitivo! Eu vivo e estou aqui pelos jogos, não tivesse ido chatear este pessoal para escrever no GLITCH. Irei continuar a coleccionar, mas com moderação. Não preciso de comprar tudo o que o Sol ilumina e penso duas a três vezes; não preciso de ter os mesmos jogos em várias versões; ter ou não ter manual é indiferente e edições de coleccionador? Não me parece. Com o dinheiro poupado pude assentar os pés no chão e focar-me no que é mais importante. Olhar para o futuro tem agora outro gozo e se tivermos rebentos e quisermos mostrar aquele jogo do coração, não temos de estar a tirar de cabos e de televisões do tempo avó, com naperons, basta ligar a consola actual e pimba, toca a criar novas memórias e partilhar histórias!

E sabem a “piada” destes artigos? É tudo muito bonito quando estamos a escrever de jogos, mas isto aplica-se a todos os aspectos da vida. Respirar, dar o primeiro passo, largar o passado, sofrer um bocadito, respirar mais, andar mais e construir algo novo. Até à próxima!

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“Bye! Have a beautiful time!”

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