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O Adeus ao Colecionismo

Nunca pensei escrever este texto e devo admitir que me arrepia um pouco, não fosse este um cenário impensável em quase 10 anos de colecionismo, mas depois de tantas compras, de tanto dinheiro gasto e de tantas consolas e jogos adquiridos, que se espalham por caixas e prateleiras, hoje digo oficialmente adeus à minha curta carreira de colecionador. Foram bons tempos, mas acabou-se.

Quando finalizei a licenciatura e encontrei trabalho, senti pela primeira vez a independência que apenas o dinheiro nos consegue dar. Ganhava pouco, mas para mim, era uma fortuna e uma porta de entrada para algo que ambicionava fazer desde novo: colecionar videojogos. Olhando para trás, talvez não tenha começado com esse propósito, mas sim alimentado esta ideia que cresceu dentro de mim após as primeiras compras. Foi a adrenalina da compra que me convenceu a seguir em frente.

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“É a adrenalina da compra!”, “Por favor, largue a minha mão”.

Tudo começou quando comprei a GameCube de um amigo meu. A PS3 já estava nas lojas, mas ainda longe de ser apelativa o suficiente para dar mais de 400€ pelo seu catálogo limitado. Se a geração mais recente não me tinha (ainda) convencido, foquei-me nas anteriores e decidi fazer uma proposta pela consola da Nintendo e pelos seus jogos. O meu amigo aceitou e em menos de uma semana, tinha a minha GameCube e títulos como Skies of Arcadia, Phantasy Star Online I & II e Ikaruga. Fiquei viciado.

Em poucos meses, adicionei a Dreamcast e a Xbox original à coleção, juntamente com vários jogos para cada. Passava horas em leilões e em sites de compra e venda à procura dos melhores negócios, e enquanto não encontrasse os jogos que queria, não descansava. Todos os meses, encomendava vários títulos através da Amazon UK, sem parar. Acabei por comprar uma Nintendo 64 e uma Mega Drive, usadas, mas funcionais e deparei-me com um enorme gosto em adquirir jogos selados e completos. A satisfação de ter algo antigo, intocado e num estado perfeito de conservação era enorme, algo que me levou a comprar a versão de The Legend of Zelda: Twilight Princess ainda selada. Custou-me 50€ no final de 2008 e hoje em dia vale o triplo, senão mais.

E depois algo mudou.

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São como tesouros perdidos e que sobreviveram inacreditavelmente ao tempo.

Durante vários anos, tive a minha coleção exposta e senti orgulho em olhar para todos os jogos que tinha comprado. Cheguei a ter jogos muito raros e incomuns, mas com o passar do tempo, comecei a sentir um desinteresse enorme pelo colecionismo. Deixei de comprar títulos para as consolas mais antigas, os preços começaram a pesar mais nas minhas decisões e decidi focar-me em concluir coleções específicas em vez de colecionar para cada plataforma. De todas as coleções que queria acabar, apenas consegui colecionar a série Silent Hill, do primeiro ao último, excluindo os spin-offs. Nem Resident Evil, que deixei a meio, ou Final Fantasy, que me despertou esta vontade, consegui chegar ao fim. Algo tinha mesmo mudado e o gosto por colecionar foi apenas substituído pela vontade de jogar algo novo e atual. O passado já não me atraía tanto.

Este adeus ao colecionismo tem sido adiado há anos, mas agora é inevitável. O ponto final chegou durante o ano passado quando olhei uma última vez para a minha coleção e me apercebi que não existia qualquer tipo de satisfação em ter todos aqueles jogos. Nunca mais os ia jogar e serviam apenas de objetos de exposição que continuavam a ganhar pó. Por mais que me tentasse convencer do contrário, a verdade é que serviam apenas para serem olhados e admirados, não sei por quem, e não para serem usados. Esse é o objetivo de uma coleção e eu sei disso, mas para mim, a ideia que me levou a gastar tanto dinheiro em jogos foi a que iria sempre jogar e respeitar todos os jogos da minha coleção. Isso não acontece e com esta descoberta, decidi afastar-me completamente do colecionismo e livrar-me dos jogos que tinha comprado.

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Na imagem: Presidente PlayStation 2 e a Primeira Dama preparam-se para entrar no avião e protagonizar numa piada muito foleira por parte do autor.

Olhando para trás, percebo que não se trata apenas de uma perda de interesse, mas sim de um exorcismo à nostalgia. Se seguem o GLITCH, já devem ter percebido que me foco muito no passado, seja nas histórias que me acompanham enquanto jogador ou nos jogos que marcaram a minha infância e adolescência. Agora com 30 anos, e a menos de um mês de fazer 31, apercebi-me que estava na hora de me afastar desta prisão nostálgica em que vivia. A coleção era como uma âncora que precisava de afastar de mim. E assim foi.

Sempre pensei que o processo fosse mais difícil e que iria resistir do principio ao fim, mas quando comecei a vender e a separar-me dos meus jogos, um a um, aconteceu o contrário – adorei a sensação. Senti-me livre, completamente desapegado de uma coleção que se tinha transformado num enorme peso nas costas e na consciência. Foi o fim de uma era que precisava de acabar e agora sinto-me livre. Conseguir entrar numa loja e não andar freneticamente à procura de bons negócios é uma dádiva que nunca pensei receber de braços abertos, mas aqui estou eu, com menos jogos, mas em paz.

Adeus, colecionismo. Foi bom enquanto durou, mas este é o único final possível. A coleção está no final e ficam apenas os jogos que são especiais e que merecem um lugar na prateleira – como Silent Hill, novíssimo, ou Final Fantasy VI, na PlayStation, e ainda  Rocket Knight Adventures e Castlevania: The New Generation para a Mega Drive. Com as vendas, pude comprar uma Nintendo Switch, algo que não teria feito se me mantivesse preso ao passado. Existe sempre um lado positivo! Talvez seja raro um colecionador chegar a este ponto de mudança, mas ainda bem que aconteceu. Fim de cena.

João Canelo Ver todos

Guionista de dia, crítico e homem das larachas de tarde e um bom rapaz à noite, sou o perito em RPG japoneses e jogos de terror do grupo. Sentem-se, estejam à vontade!

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