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Critters for Sale – SNAKE

Novembro, 2033. Na mesa de cabeceira, o telefone toca. O rrrr irritante entra-me pelos ouvidos. É uma mensagem: “vem ter comigo ao Limelight às 3 horas”. O remetente é Michael Jackson. Tento processar o conteúdo da mensagem enquanto desperto e concluo que só poderá ser uma piada de mau gosto, mas a curiosidade é real. Restam-me duas possibilidades: ou FICO EM CASA, ou aceito o desafio deste estranho e vou até ao bar Limelight.

Aceito sair, sem pensar nas consequências desta decisão. Estarei assim tão desesperado por atenção e estímulos para sair de casa a esta hora? Quando me apercebo, estou a ser banhado pelo frio das ruas de Nova Iorque, em direção ao bar. Apesar da confusão, sinto-me guiado. Como a UI de um videojogo, consigo ter acesso constante às informações importantes, como o meu nome, a temperatura e o dia. Tudo é bastante visível e coerente. Paro para pensar: mas o que raio estou eu a dizer?

O bar Limelight destaca-se nas ruas nova-iorquinas. As luzes são tão fortes que sinto que estou a vê-lo pela primeira vez, como se o edifício se tivesse construído entre noites, imponente, incontornável e magnânimo. Mas existe uma plasticidade na sua apresentação, como se estivesse perante uma fotografia estática a preto e branco. No tabuleiro, “Limelight” brilha numa ondulação monocromática, indicando-me o caminho. Talvez seja este o sinal que me guia pelo bar.

Abro as portas e sou recebido pelo rececionista. O nome é confirmado: alguém espera por mim. Paro por momentos na receção, absorvo o que está à minha volta e sinto vontade em inspecionar tudo. A música enaltece esta vontade em permanecer neste mundo e pelo que já li nos jornais, VRTLHVN é o responsável pela música no bar. É a primeira vez que visito o bar e quero ver todos os seus segredos, mas vejo-me limitado. Por mais que olhe, não me consigo focar em nada. É a ilusão da liberdade, concluo.

No entanto, a minha atenção recai sobre a estátua em cima do balcão. Não resisto e toco-lhe uma vez. Depois mais uma. Por fim, a estátua parte-se. No interior, uma chave escondida. Sinto que é importante, mas não consigo depreender qual possa ser o seu destino. O rececionista não reage, como se eu não existisse desde que confirmei o meu nome. O silêncio é cortante e decido seguir em frente.

Algo destaca-se na receção: onde estão as ondulações? Como sei que o é interativo ou não? Devia ter compreendido este facto antes de criticar a falta de tato no bar. Afinal é apenas uma questão de aceitar o mundo tal como ele é. Afasto esta noção da mente e continuo o meu caminho. Um corredor de portas constrói-se à minha frente, como se a luz delineasse a assimetria deste retângulo de carpetes e candeeiros fora de estilo. Mais uma vez, não resisto. As minhas mãos movem-se e tenta abrir todas as fechaduras que se escondem nas portas de madeira. Uma a uma, as fechaduras vencem. A chave entra, mas não consigo rodá-la.

Num dos corredores, encontro um quadro. São as pirâmides de Giza, mas algo chama a minha atenção. Tenho vontade de inspecionar o quadro, mas o meu anfitrião espera por mim.

FICO ou continuo em frente?

Não posso parar agora. No final do corredor, quando a música dissipa-se, uma das portas dá-me uma resposta diferente. “Só comedores de cobras podem entrar”, oiço na minha mente. Será uma referência a algo? Não há sequer fechadura para tentar a minha sorte. Continuo a minha viagem, de chave na mão, sem destino.

No salão, os meus sentidos são atacados. As luzes piscam, cujas cores não consigo ver neste mundo monocromático, mas sou capaz de reconhecer tudo à minha volta. A iluminação da sala cria silhuetas, como espetros, cujas linhas de luz traçam os seus perfis. A música irrompe por todos os poros das colunas, sem parar, e ataca-me de tal forma que cedo. Começo a dançar. Procuro pelo misterioso “Michael Jackson”, mas sou abordado por outras personagens, entre elas, um estranho homem que me fala sobre o sabor de mosquitos e de cobras. Para a minha surpresa, digo-lhe que já provei carne de cobra, algo que nem sabia sobre mim, mas que sinto ser agora uma verdade universal. Se já provei o sabor de cobra, se calhar já posso entrar na porta que encontrei no corredor. Será que vale a pena voltar atrás? Nada me prende a uma única escolha, mas decido ignorar e seguir em frente.

Na multidão, encontro uma figura esguia e de mala na mão, que me cumprimenta com um enorme sorriso. É Michael Jackson. O cantor, o fenómeno e a lenda musical que conquistou a imortalidade através do seu próprio talento. Tento perceber, enquanto me fala em profecias, se se trata de uma máscara, mas não: é mesmo ele. A sua cara molda-se através de várias fotografias icónicas, como se ele existisse em todos os tempos em simultâneo.

Questiono Jackson sobre a sua chamada e pergunto como me conhece. “Nós ainda não nos conhecemos, mas vamos conhecer”, responde. Fala-me sobre acontecimentos futuros, que ainda não existem — ou será que existem? — e garante-me que seremos os melhores amigos do mundo. “Nós vimos coisas que mais ninguém viu”, diz Michael enquanto sorri, mas sinto melancolia. Queria fazer mais perguntas e perceber o que se passa, mas estou a ser encaminhado por acontecimentos que não controlo. Não tenho sequer a hipótese de tecer uma única dúvida, o que contrasta com a experiência que pensava que ia ter. Decidi aventurar-me pelo bar em busca de respostas, mas nada. É esta a natureza da minha aventura e aceito isso.

Jackson despede-se de mim depois de dançar no palco e avisa-me que nos reencontraremos no futuro, no segundo aniversário da minha filha. Sorri pela última vez. A sua cabeça explode. Não pude fazer nada, não existiu sequer a possibilidade de o salvar ou de chamar alguém. Para que serviria a chave? Do fundo do salão, surgem os Noid Men. Recordo-me finalmente do passado e de quem sou. A mente apaga-se.

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