ESPECIAIS

Um adeus a Ennio Morricone

Uma despedida ao mestre e compositor, e um olhar sobre a sua relação à distância com o mundo dos videojogos.

O mundo ainda está a processar o desaparecimento de Ennio Morricone, falecido no dia 6 deste mês, e o vazio que deixa tanto no cinema, como no mundo da música. O famoso compositor italiano, que contou com uma carreira com mais de 70 anos, trouxe-nos alguns dos trabalhos mais marcantes e memoráveis da sétima arte, colaborando com realizadores como Sergio Leone – com quem criou algumas das suas composições mais inesquecíveis  –, Bernardo Bertolucci, Roman Polanski, Roland Joffé e Quentin Tarantino. Morricone será recordado como um dos maiores da sua arte, uma força única e de um estilo que irá continuar a influenciar criadores e criativos por todo o mundo.

Encontrei-o muito tarde. Apesar de reconhecer o seu trabalho em O Bom, O Mau e O Vilão, de Sergio Leone (1967), desde muito cedo, só me embrenhei no género e nas suas composições durante a minha passagem pela faculdade de cinema (ESTC). Foi lá que vi a filmografia de Sergio Leone e descobri a beleza e intensidade dos westerns italianos que Morricone ajudou a caraterizar desde muito cedo. É impossível esquecer o seu trabalho em Aconteceu no Oeste (1968)  – um dos meus filmes favoritos e, na minha honesta opinião, o western perfeito –, Aguenta-te, Canalha! (1971)  – um dos seus trabalhos injustamente esquecidos  – e na trilogia do Homem Sem Nome.

Morricone não se ficou exclusivamente pelos westerns, o seu estilo era muito mais versátil e rico do que a memória teima em insistir  – apresentando um equilíbrio entre as composições clássicas da Hollywood do Studio System com as influências de jazz, rock e um certo tom quase jocoso, brincalhão, jovial e nostálgico  –, mas foram as suas colaborações com Leone que mais me influenciaram. Durante anos, esta dupla foi uma companhia constante, moldando a minha escrita, os meus gostos cinematográficos e levando-me a descobrir mais sobre as produções italianas que desconhecia até ali. Escrevi muito sobre westerns, criei, inclusivamente, uma curta para a escola, que não posso (por políticas da faculdade) mostrar, e ainda hoje sonho em desenvolver um projeto que consiga captar a intensidade do olhar cinematográfico de Leone com a emoção e versatilidade da música de Morricone.

Não é, portanto, de estranhar as suas influências no mundo dos videojogos. Apesar de nunca ter composto uma banda sonora original, Morricone está desde muito cedo ligado aos videojogos, dando origem ao incontornável trabalho da Rockstar na série Red Dead Redemption (e Revolver), mas também Gun, The Thing e Alter Echo. As suas influências continuarão a fazer-se sentir décadas, talvez até mais intensamente, mas é curioso pensar como Morricone poderia ter marcado a indústria com um trabalho original. O que temos, no entanto, são presenças pontuais de algumas das suas composições em títulos de destaque, como a série Metal Gear Solid, com a soberba Here’s to You, cantada por Joan Baez (Sacco e Vanzetti, realizado por Giuliano Montaldo em 1971), que marca de forma exímia os temas de Phantom Pain, Ground Zeroes e Guns of the Patroits. Uma força que só poderia ter sido transmitida por alguém como Morricone.

A indústria dos videojogos vive fascinada pelo tema d’ O Bom, O Mau e O Vilão, marcando presença em Darkwatch e The Crazed Chicken, mas também The Ecstasy of Gold, do mesmo filme, que fez parte da banda sonora de Blur. Por fim, destaco Nella Fantasia, uma doce música, novamente acompanhada por voz, que esteve presente em Endless Ocean: Blue World, e a sua primeira aparição no mundo dos videojogos, de forma não oficial, em Cogan’s Run, onde conseguimos ouvir Man With a Harmonica Theme, de Aconteceu no Oeste.

É impossível quantificar, num texto tão curto, a importância e versatilidade da sua obra, onde posso ainda mencionar o inesquecível Cinema Paraíso (1988), realizado por Giuseppe Tornatore. Há muito para falar e analisar na obra do maestro, inclusivamente a sua passagem pelo mundo dos videojogos, e é isso que apelo: falem-me das vossas memórias com as composições de Morricone, como o descobriram e quando. Vamos celebrar esta voz que se apaga, mas que nunca perderá a sua força, de tão presente que continuará. Um adeus, mestre.

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