MediEvil | GLITCH REVIEW

Em 1998, recordo-me de passar tardes inteiras as jogar com o meu primo. Foi com ele que joguei pela primeira vez na PlayStation original e descobri alguns dos seus maiores exclusivos. Como já trabalhava, o meu primo acabava por adquirir quase todas as novidades, numa coleção que eu invejava com todas as minhas forças. Se fosse um jogo de ação ou um jogo popular, ele tinha. Aquelas tardes eram mágicas, quase surreais, onde conseguia fugir ao meu catálogo limitado de jogos, que só crescia nos aniversários e natais, e deliciar-me com os mais recentes lançamentos. Numa dessas tardes, o meu primo mostrou-me a capa de MediEvil e disse-me: “acho que vais adorar este”. E sabem que mais? Ele estava certo.

Vinte anos depois, Sir Daniel Fortesque regressa às origens. Depois de uma sequela algo esquecida e de um remake pouco consistente para a PlayStation Portable, o cavaleiro mais medroso de Gallowmere tem o regresso tão cobiçado pelos fãs, chegando à PS4 numa versão praticamente inalterada quando comparada com a original. Fora o trabalho exaustivo a nível gráfico, que dá aos cenários numa nova interatividade e profundidade, e algumas melhorias superficiais, que procuram dar aos jogadores uma experiência mais acessível, MediEvil é o mesmo jogo que nos chegou em 1998, com todas suas virtudes e problemas.

Como fã do original, sinto-me dividido com esta decisão. Por um lado, adoro revisitar MediEvil tal como sempre foi, mas com novos cenários, modelos mais animados e expressivos, e uma banda sonora retrabalhada que traz os temas clássicos para a nova geração. A experiência mantém-se imutável, altamente clássica e composta por todos os níveis e segredos do original, numa campanha repleta de conteúdos adicionais que nos farão repetir algumas das fases em busca de novas armas e equipamentos. Por outro lado, a nova versão mantém todos os problemas do original, chegando ao ponto de transpor o combate injusto da versão clássica e os seus saltos rígidos e difíceis de controlar para a estreia na PS4.

Este é um remake só para os fãs, é o que acabo por sentir. Apesar de adicionar uma câmara over the shoulder, que nos permite apontar mais eficazmente e dar-nos uma nova perspetiva sobre a ação do jogo, e acrescentar mais ajudas, representadas pelos livros que encontramos pelos cenários, para os novos jogadores, MediEvil continua a ser um jogo com vinte anos. Os seus problemas continuam presentes e se em 1998 eram compreensíveis, hoje em dia não terão a mesma sorte. É um jogo impróprio para jogadores impacientes que procuram um jogo de ação puro e duro. MediEvil é difícil, às vezes até injusto, e muito clássico, obrigando-nos a pensar e a repetir níveis em busca dos tão cobiçados cálices e dos restantes segredos.

Apesar de se agarrar com unhas e dentes às mecânicas do título original, o remake dá-nos uma transformação visual profunda, uma câmara mais dinâmica e uma maior sensação de escala.

Se, como eu, forem fãs do original, então preparem-se: está tudo aqui. E digo isto no melhor sentido possível. Ao contrário da versão PSP, temos finalmente a verdadeira experiência MediEvil em todo o seu esplendor sem novos trechos narrativos e outras distrações – tal como eu adoro. A campanha continua a ser dividida por níveis, apresentados através de um mapa-mundo onde poderemos escolher todas as fases, e podem contar com muitos segredos para descobrir. A aposta na exploração continua a ser um dos pontos de destaque do jogo e é impressionante ver como a Cambridge Studios, a produtora original, conseguiu criar uma campanha tão interligada e tão repleta de conteúdos num género onde reina a ação desenfreada. Em Medievil, somos incentivados a voltar atrás, a desbloquear novos caminhos e a descobrir novos níveis.

O jogo mantém o seu foco na descoberta dos cálices sagrados. Espalhados por todos os níveis, estes cálices, a que só temos acesso quando eliminamos (quase) todos os inimigos de cada fase, dão-nos acesso ao cobiçado Hall of Heroes, uma zona especial que é protagonizada por todos os heróis da história de Gallowmere. Com cada cálice conquistado, temos à nossa disposição uma nova arma, como martelos e lanças especiais, ou uma melhoria para a nossa vida, algo que se torna essencial à medida que avançamos no jogo. Com este incentivo sempre presente, vi-me a percorrer os níveis uma vez mais à procura do cálice e dos inimigos que necessitava derrotar, acabando por repetir alguns deles sem quaisquer problemas. Tal como em 1998, continuo a adorar a estrutura de MediEvil.

O combate continua a ser dividido entre ataques físicos e ataques à distância, com os últimos a serem auxiliados por uma mira automática que continua a não ser muito fidedigna por o jogo não disponibilizar a opção de nos focarmos num só inimigo.

Apesar dos níveis serem os mesmos, até no design, MediEvil foi totalmente revitalizado e esta é, na minha opinião, a sua versão definitiva. Os níveis têm todo um novo detalhe e tanto as paisagens como os modelos das personagens foram retrabalhados para esta nova versão. Os cenários são mais densos, coloridos, marcantes e apresentam uma nova profundidade de campo que transmite uma sensação de escala que não estava na versão original. Em alguns níveis, sentimos até uma certa claustrofobia à medida que exploramos cavernas ou ninhos de insectos e sentimos todo o seu tom gótico em primeira mão. O trabalho visual é acompanhado por uma câmara mais dinâmica e controlável, através do analógico direito, que nos dá uma maior sensação de controlo sobre a ação – ainda que não seja perfeita, ficando presa ocasionalmente nos cenários.

Infelizmente, MediEvil é vítima de más escolhas e desta recusa em evoluir. Se, por um lado, adoro todo este salto na piscina nostálgica, por outro vejo a oportunidade perdida em melhorar o combate do jogo. Apesar de não me afetar tanto como pensava, a verdade é que é um sistema pouco profundo e até injusto, na medida em que raramente conseguimos lutar sem sofrer dano. O jogo quer que consigamos manter sempre a distância, mas com a rapidez de certos inimigos e com a rigidez e imprecisão da mira automática, isso torna-se impossível. Depois temos a má deteção de colisão, com Fortesque a ficar constantemente preso em partes do cenário, o que quebra o ritmo do jogo. E por fim, a jogabilidade nunca é profunda o suficiente para o panorama atual. Se não forem fãs do original, irão perceber isso rapidamente e decidir que é um jogo datado, apesar de ter acabado de chegar às lojas.

É essencial encontrarem os cálices e desbloquear as novas armas. Sem elas, os bosses serão muito mais desafiante.

Com a demo, lançada recentemente, antevia o pior no que toca à performance de MediEvil, mas fui surpreendido pela positiva. No geral, o jogo comporta-se perfeitamente na PS4 original, sem grandes bugs visuais, quedas de frame rate, problemas no carregamento de texturas e animações inconsistentes. Senti que há um certo arrasto na ação, um pouco à semelhança do que encontrei em The Legend of Zelda: Link’s Awakening, mas nada que fosse capaz de me estragar a experiência.

MediEvil é um jogo estranho de vender, mas não consegui ficar indiferente à sua campanha clássica e à sua promessa de um verdadeiro regresso ao passado. As saudades foram apaziguadas e sinto que este é um remake perfeito para todos os fãs. A dedicação e respeito pelo original são palpáveis e é de louvar a sua decisão em transportar o conceito para a atual geração de consolas sem mudar um único aspeto da sua jogabilidade. Não é um jogo para todos e existirão aqueles que odiarão o que tem para oferecer, mas no que toca a este fã, posso-vos garantir que estou mais do que satisfeito com MediEvil. Agora quero o segundo – e depressa!

A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise foi cedido pela PlayStation Portugal.

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