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KID A MNESIA EXHIBITION – Numa Casa de Vidro

Vinte anos depois, dois dos mais conceituados álbuns dos Radiohead transformam-se numa exposição que procura quebrar barreiras.

Com OK Computer, Thom Yorke, Jonny Greenwood e companhia cimentaram o seu lugar na História. Paranoid Android tocava regularmente na rádio, mas também na televisão, protagonizando em canais como a VH1 e a MTV, mas também em canais nacionais e em programas como Top+. Era impossível escapar a Karma Police e a No Surprises, outros singles do excelente terceiro álbum da banda. O século XX encerrara de forma magnânima, como se tivéssemos atingido um auge aparentemente impossível na música alternativa e no rock britânico. Depois de OK Computer, para onde ir? O que fazer?

Não consigo precisar a reação a Kid A e a Amnesiac nas suas estreias. Estava longe de seguir a banda e deixar-me levar pelas suas músicas. Claro que conhecia músicas como Karma Police, era impossível não conhecer, mas não sabia o que esperar de uma banda que não tinha medo em ser camaleónica. A resposta a OK Computer, considerado até hoje como um dos melhores do seu género, foi a recusa de tudo o que simbolizava. Em Kid A nasceu a obsessão pela música eletrónica e experimental, que entrava em choque com o estilo da banda, e foi em Amnesiac que se deu o salto para o abismo, de onde a banda nunca voltaria igual. Estava iniciado o século XXI.

No secundário, um ano antes do lançamento de Hail to the Thief, um amigo meu, meses antes de ser um dos meus melhores amigos de escola, perguntou-me se conhecia Radiohead. Disse-lhe que sim, claro, após passar horas a olhar para o hipnotizante vídeo de Karma Police. Com um sorriso na cara, de quem encontrara um porto seguro, perguntou se já ouvi Amnesiac. Disse-lhe que não. O meu amigo mencionou a Pyramid Song e fez-se luz. “Sim, conheço, mas ainda não ouvi o álbum”. Da mala, retirou Amnesiac e passou-me o álbum para as mãos. “Queres ouvir?”, disse-me enquanto colocava o CD no Discman prateado. “Claro”.

A capa ficou gravada na minha mente. Não sabia quem era Stanley Donwood, na verdade, nem sabia quem era Thom Yorke, e estava longe de conhecer o seu trabalho plástico, mas a imagem avermelhada, com a figura central de mãos nos olhos, intrigou-me. As cores, os riscos, como se a imagem tivesse sido triturada ou encontrada no meio de destroços, hipnotizavam-me. No livrete, a arte expandiu-se. As colagens, as pinturas carregadas de tinta, as frases espalhadas por cenários apocalíticos e idílicos criavam o pano de fundo para um álbum marcado pela emoção, mas também pela estranheza das suas composições. Nunca tinha ouvido nada assim. Era um adolescente fechado na minha própria mente, viajando de álbum de metal putrefacto em álbum de metal baforento, ciente, na minha inocência, de que já tinha descoberto tudo o que havia para descobrir — senhor do seu mundo! De Amnesiac para Kid A e depois para OK Computer, The Bends e até Pablo Honey. Um ano depois, estreou-se Hail to the Thief. Tornei-me fã.

Esta nova obsessão expandiu-se como tentáculos pela minha vida. Não consigo dizer se a música e o fascínio pela banda eram as únicas forças condutoras para esta vontade em conhecer mais sobre o que acabara de ouvir, ou se era o mistério da arte e as suas conotações humanas e mergulhadas em cinismo. Com a minha estreia na internet, que desconhecia por completo — quase sem direção, não sabia para onde ir e o que ver —, deparei-me com músicas nunca antes lançadas e com EP como Com Lag: 2plus2isfive. Mais importante, encontrei o infame site dos Radiohead. Um site composto por várias páginas, aleatórias, que apresentavam algo novo sempre que entrávamos e fazíamos refresh. Estava novamente a ser banhado pela arte que me assoberbou e assustadou anos antes. As frases ficavam queimadas na minha mente, ao ponto de viver em torno da procura de novas imagens para usar como o fundo do computador e como fotos de perfil. Uma nova identidade e os desejos de um jovem em querer saber mais, mas sem saber para onde se dirigir.

Passaram 20 anos desde o lançamento de Kid A e Amnesiac. O mundo é um lugar estranho. Como profetas, os Radiohead adivinharam para onde caminhávamos: para a era digital, do cinismo, da ausência da apatia, onde grandes corporações controlam a nossa vida. A diferença é que os fios estavam escondidos há 20 anos, agora, ninguém quer saber. O controlo não é só mental, como físico. Estes temas, e muito mais, marcaram todo o trabalho de Stanley Donwood e Thom Yorke durante as sessões de Kid A e Amnesiac, que surgiu como uma ansiedade em estar-se vivo, e que ganha agora vida em novas reedições dos dois álbuns, mas também em entrevistas e projetos interativos.

KID A MNESIA EXHIBITION, atualmente disponível na PS5 e na Epic Store, é um voltar ao livrete que li em 2002/2003. É um revisitar do site que me assustou e deslumbrou quando me aventurei pela internet pré-redes sociais. A exposição virtual, que podem descarregar gratuitamente, banha-se na arte de Stanley Donwood e Thom Yorke para criar uma experiência abstrata sobre as temáticas de ambos os álbuns, recriando eficazmente algumas músicas através de verdadeiras peças artísticas e plásticas. Como produto interativo, KID A MNESIA EXHIBITION é assumidamente limitado, sublinhando que não se trata de um videojogo, mas de algo mais, onde podemos explorar as várias salas deste museu virtual sem a possibilidade de interagirmos com as suas peças artísticas. Podemos fazer zoom e até ativar códigos QR, mas as nossas funções resumem-se a explorar e a observar.

Estava preparado para a arte que ia encontrar na exposição, mas não para o seu trabalho musical. Através da representação visual, onde encontramos salas repletas de papéis e de pirâmides intimidantes , encontramos versões remisturadas e expandidas de algumas das músicas dos álbuns, repartidas e espalhadas pelas várias salas. Podemos, por exemplo, encontrar um corredor sem saída onde finalmente ouvimos a voz de Thom Yorke em Kid A ou a bateria e o baixo de The National Anthem quando entramos num retângulo iluminado. As músicas fundem-se entre corredores, constroem-se entre passos, mas nunca estão completas. Não são representações fidedignas das versões presentes nos álbuns, mas sim fantasmas. São memórias que utilizam algumas das sonoridades para criar a ideia do álbum e não o álbum em si.

Esta construção é controlada pelos jogadores e dá-nos a possibilidade de misturar as várias partes para criar algo novo. A arte está sempre presente, seja pelo logótipo da banda — dos olhos gigantes e do sorriso rasgado — ou das colagens abstratas de um futuro capitalista, mas a música une todas as suas partes e cimenta-se como o verdadeiro veículo condutor desta exposição. Existem momentos assombradores, mas que terão de procurar para os encontrar, como a voz de Yorke despida da instrumentalização de Packt Like Sardines In a Crushd Tin Box, ou a melodia de Kid A e as imagens que vemos a passar rapidamente e sem interrupção.

KID A MNESIA EXHIBITION não é o suprassumo das exposições virtuais, mas é uma experiência audiovisual que complementa perfeitamente o tom e o experimentalismo destes dois álbuns incontornáveis da discografia dos Radiohead. É uma viagem pessoal e que aconselho vivamente a conhecerem. Para mim, a exposição sabe a 20 anos, a uma caminhada que me trouxe desde a adolescência, onde ainda ouvíamos música em Discman, até à nona geração de consolas. Parabéns, Kid A e Amnesiac.

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