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Forza Horizon 5 | Diário de um Novato

O novo exclusivo da Xbox consegue surpreender até os que não são fãs do género — mas será o suficiente para se transformar num título obrigatório?

Passaram mais de vinte anos desde que me aventurei pelas pistas empoeiradas de Colin McRay Rally e V-Rally. No final da década de 90, a simulação ainda era um sonho distante, uma ambição que marcaria o género nas próximas décadas, mas que estava de longe de proporcionar uma experiência realista e completa. Existia, no entanto, uma vontade honesta em emular a verdadeira experiência de condução e Gran Turismo, lançado em 1997, já cimentara os alicerces para o futuro do género nos videojogos, mas ainda estávamos longe das suas entradas na PlayStation 2 e da chegada de Forza, Project Gotham Racing ou Project Cars. Nestes tempos mais inocentes, a experiência rally era composta por pistas curtas e por corridas contra o tempo, numa campanha tão arcade, como realista — no sentido em que seguia o esquema de uma prova do género. Mas eram tempos mais simples. Tempos que nunca mais regressaram.

Não sou fã de jogos de condução. Que fique claro. Não morro de amores por Gran Turismo, onde apenas consegui conquistar a carta B nas minhas tentativas de dominar a sua experiência supostamente mais realista; Dirt já parece um sonho distante e até a série Need for Speed transformou-se em algo que não consigo reconhecer por mais que serre os olhos. A culpa é minha. Se querem saber a minha experiência com o género, é simples: jogos arcade. É onde está o meu pequeno amor pelo género, em WipEout, Ridge Racer Type 4, Need for Speed Underground 2, F-Zero e até Extreme-G. Um gosto muito marcado pela minha incapacidade em dominar a direção, velocidade, controlo e manuseamento destes monstros de metais, cuja evolução levou a uma maior exigência na experiência realista de condução. Dinossauros, como eu, ficaram para trás e com toda a razão.

No entanto, este cenário apocalítico não é tão geral como o pinto. É uma opinião muito pessoal, pois continuam a existir videojogos que procuram ser mais acessíveis sem perderem o seu foco na simulação. É aqui que se encaixa Forza Horizon, a cargo da Playground Games, um spin-off que criou uma porta de entrada para os entusiastas do género, mas que não partilhavam do amor pelo controlo e emulação das corridas profissionais. Um meio-termo saudável, que se expandiu para uma experiência em mundo aberto e que agora conquista um lugar de peso no género, suplantando, ao nível de popularidade, a franquia principal devido a esta aposta na abertura e na acessibilidade.

Não é a primeira vez que entro no mundo de Forza Horizon. Na verdade, tentei a minha sorte em Forza Horizon 4, meses antes da estreia da sequela, numa tentativa de perceber se queria arriscar-me numa possível análise sobre o futuro da série. As introduções de ambos os jogos são quase idênticas e colocam-nos em controlo de vários carros numa montra eficaz sobre o que poderemos encontrar nos jogos no que toca a cenários, mas também ao controlo dos veículos. São introduções de peso, caótica, mas festivaleiras, enaltecendo a alma da série e criando nos jogadores uma proximidade que se mantém ao longo das primeiras horas. O objetivo é divertimo-nos em Forza Horizon, pelo menos numa primeira fase. É absorvermos os cenários, os seus conteúdos variados e almejarmos chegar mais longe à medida que dominamos os veículos, pistas, estradas, eventos e mudanças climatéricas nestas campanhas de dezenas de horas.

Mas eu não terminei Forza Horizon 4. Aliás, eu parei de jogar assim que terminei a introdução. Não consegui ficar colado ao que o jogo queria oferecer e não senti esta emoção que descrevi em cima. O relato que leram nasceu das horas que passei com Forza Horizon 5, onde finalmente compreendi o que torna a série tão especial. Foi nesta sequela, que me obriguei a jogar para escrever este texto, que senti esta ideia de celebração na série, no sentido em que Forza Horizon 5 jorra cor, boa disposição e uma sensação de camaradagem que se expande até aos outros jogadores e amigos. Estamos sempre acompanhados por caras e veículos familiares, com as placas dos nossos amigos a povoarem as estradas até mesmo quando não estamos em sessões competitivas e cooperativas: onde podemos jogar praticamente todas as corridas da campanha em companhia. Forza Horizon 5 é uma celebração.

E não existem dúvidas de que é um dos jogos mais marcantes na Xbox Series X.

Apesar deste ambiente de festa, ainda é cedo para determinar a longevidade de Forza Horizon 5, e consigo ver os mesmos problemas de qualquer outro mundo aberto nesta representação em 4K do México. O mapa é extenso, muito detalhado e variado — com algumas zonas habitacionais e outras de beleza natural, tal como um destaque a templos abandonados —, mas é povoado por pontos e tarefas repetitivas. As corridas são muito idênticas, como seria de esperar, e os tipos de provas tentam injetar alguma variedade que, infelizmente, se perde ao longo da campanha. A culpa não é de Forza Horizon 5, mas sim do formato em que se insere. No entanto, a Playground Games fez algumas escolhas interessantes na estrutura desta sequela e adicionou não só missões com diferentes fases, que se expandem ao longo de uma enorme corrida — culminando, por exemplo, na exploração de um templo perdido —, como enormes eventos onde corremos no interior de uma tempestade. Existe uma história e uma progressão que tentam adicionar uma camada mais personalizada e emocional às corridas infinitas de Horizon — onde podemos adicionar ainda as provas criadas pelos próprios jogadores —, mas o tempo é limitado e a diversão, esse El Dorado dos videojogos, é incapaz de resistir a inúmeras horas de repetição.

Relembro que estou a escrever do ponto de vista de um jogador que raramente se aventura por títulos de condução. Se pudesse, tinha ficado o mais longe possível de Forza Horizon 5, e se acho interessante termos um videojogo desta natureza num ambiente em mundo aberto — algo que apreciei em Burnout Paradise e Need for Speed Underground 2 —, sou incapaz de não ver os problemas de um modelo de design que raramente me satisfaz no final. Faz parte da sua natureza e faz parte do meu gosto. Dois mundos que foram obrigados a colidir num ambiente virtual. Mas a Playground Games já é mestre nestas andanças e devo admitir que adicionou alguns elementos estratégicos à experiência da série. Se calhar não é a primeira vez que o fazem em Horizon, mas adorei sentir que estava a ajudar o festival a construir-se nesta região do México.

A progressão de Forza Horizon 5 não se limita à conclusão de provas e de missões principais, mas também à expansão do festival no México. Como uma das caras do festival, nós temos a oportunidade de escolher os eventos que queremos expandir e construir, através de uma viagem pela região à procura do local indicado e garantir que se realiza, desbloqueando novas corridas e provas que continuam a expandir a campanha até à estratosfera. Mas a progressão não fica por aqui. Forza Horizon 5 apresenta um sistema de evolução por níveis e um sistema monetário que permitem a aquisição de novas casas, veículos e acessórios para personalizarmos a nossa personagem. Com accolades e desafios regulares, que se desbloqueiam organicamente ao longo da campanha, a Playground Games conseguiu criar a sensação de que desbloqueamos regularmente algo novo, ao ponto de ficarmos inebriados por esta sede de conquista. E não é necessário falar nos placards espalhados pelas estradas, que funcionam como colecionáveis, e no facto de termos a ambição de conquistarmos as estrelas máximas em todas as provas: já são garantias na série.

Não posso deixar de referir que existem épocas inteiras e que o mapa muda de acordo com a estação do ano. Estes são so pormenores que distanciam a série Forza das suas rivais.

E sabem porque a Playground Games é genial neste campo? Não é por trazer algo novo ao género, mas sim por conseguir disfarçar eficazmente uma mecânica presente em todos os jogos em mundo aberto: os outposts. Se jogaram Far Cry, sabem perfeitamente o que quero dizer. Em Forza Horizon 5, os eventos e a expansão do festival funcionam como estes postos de controlo da série da Ubisoft, no sentido em que desbloqueiam mais eventos e pontos de interesse no mapa, mas também avançam progressivamente a história deste jogo de condução. A sensação de festival, de camaradagem e festa é tão grande que quase desculpamos a Playground Games por estar a utilizar uma das táticas mais vistas e seguras do género. Funciona, não existem dúvidas, mas deixo uma questão: o que evoluiu desde Burnout Paradise? O esquema continua a ser o mesmo, onde temos corridas espalhadas pelo mapa, que podemos selecionar à medida que exploramos as cidades e regiões próximas em busca de colecionáveis. O que mudou? Aqui serão os fãs a pronunciar-se e a contra-argumentar este olhar cínico que partilho, mas acredito que seja mais uma questão de conforto na condução e de evolução visual que complementam a utilização deste formato cansado e familiar.

É difícil analisar a jogabilidade de Forza Horizon 5 quando não acompanhei a evolução do género e não tenho nenhum interesse em continuar a sua exploração. No entanto, como novato, posso dizer que é um dos jogos mais acessíveis e fáceis de jogar que encontrei nos simuladores de condução, ao ponto de divertir-me verdadeiramente com os vários veículos que experimentei. Seja no asfalto, nas estradas de terra batida ou nos trajetos pelo mato e a selva, Forza Horizon 5 controla-se muito bem e ensina-nos a escolher os melhores veículos para cada ocasião ao indicar quais são as opções seguras — mas nunca limitando a nossa escolha. As corridas, numa primeira fase, são bastante acessíveis e o jogo esforça-se para equilibrar os adversários ao limitar a qualidade dos seus veículos segundo a nossa. São pequenos toques que ajudam um jogador horrível, como eu, a conseguir retirar partido deste jogo de condução em mundo aberto.

Se chegaram até aqui, aproveitem para apreciar as fotografias tiradas pelo David. Ele tem mais aqui.

Ainda tenho saudades dos tempos simples. Tenho saudades das experiências arcade, de naves futuristas e das curvas impossíveis, através de loops e saltos irrealistas — e eu sei que estes jogos ainda existem, mas vinte anos foi há muito tempo, os ossos doem —, mas admito que Forza Horizon 5 foi uma das experiências mais divertidas e sólidas que tive com um simulador de condução. A campanha está bem estruturada, o tom é perfeito e a condução é capaz de conciliar a acessibilidade com o desafio sem nunca pender para um dos lados. É uma experiência para todos os jogadores e que eu aprecio muito nesta sequela há muito aguardada. Mas fiquei apaixonado e totalmente rendido à jogabilidade e aos gráficos realistas? De todo. Não sou o público alvo e sei-o bem. No entanto, pensemos assim. Forza Horizon 5 conseguiu aquecer este coração cínico durante umas boas horas. Querem melhor elogio do que este?

Código para análise cedido pela Xbox Portugal

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