PÔR OS PÍXEIS NOS I'S

Um mês com a PlayStation 5

A nova consola da Sony é um olhar para o futuro, mas também uma lição para o presente: nem sempre a inovação vem primeiro do que o utilizador.

A nona geração promete ser de mudança para a marca PlayStation. Depois do sucesso da PlayStation 4, que conquistou a geração passada com uma aposta sólida e muito focada em títulos exclusivos, tal como a parceria com estúdios AAA e, numa primeira fase, com produtores independentes, a Sony parece estar disposta a mudar a sua imagem. Muitos temem que a companhia perca o seu lado mais experimental e arrojado, especialmente com o aumento dos valores de produção e a aposta crescente no mercado ocidental — em detrimento do oriental —, mas é difícil contra-argumentar que a sua estratégia não tem sido fortuita. O furor em torno da marca, do que é “ser-se PlayStation” continua tão vivo como há 20 anos e a Sony sabe que lidera o mercado quando equiparada à sua rival mais direta: a Xbox.

Mas a guerra pelo topo é feita de riscos, de boas e más decisões, e a Sony, talvez deliberadamente, posicionou-se como uma possível vilã para a história desta nona geração, adotando medidas que nem sempre visam a experiência do jogador dentro e fora das suas consolas. É uma posição estranha para se adotar, mas que julgo ser temporária, pois a PlayStation 5, tal como se apresenta atualmente no mercado, é um poço de boas ideias e de potencial embrenhados numa máquina pensada para ser rápida, eficaz e fácil de utilizar. Basta a Sony aprender a não ser tão Sony.

Sou fã da marca, sempre fui. Depois de abandonar a SEGA, tal como a SEGA abandonou-me, saltei para a PlayStation e por lá fiquei. Existe um carinho pelas consolas PlayStation que tenho de deixar claro nesta introdução, pois não consigo, por mais que tente, colocar de parte a minha relação de décadas com a marca japonesa. Acredito que isto irá irritar alguns de vocês, esta “audácia” em afastar a objetividade com que um crítico, dizem as vozes — sejam quais forem —, se deve banhar diariamente, mas é necessário perceber a base dos elogios e das críticas que irei tecer. Não recebi uma consola por parte da PlayStation Portugal ou o convite para escrever sobre ela, mas tal como escrevi sobre a Xbox Series X, seria um desperdício não me focar na PlayStation 5. E aqui estamos.

A PlayStation 5 é tudo o que procuro num início de geração. É certo que ainda estamos longe de um catálogo empolgante e exclusivo que justifique a aquisição da consola, mas a sua aposta num design irreverente, na reestruturação do UI, no lançamento de um novo comando e de uma comunicação mais arrojada — onde podemos inserir maiores incentivos ao contacto entre jogadores e às partilhas nas redes sociais —, demonstram como a Sony não tem medo de deslumbrar. É uma aposta a longo prazo, ainda presa no marasmo de algumas más decisões — como a ausência de Quick Resume e Smart Delivery, que prejudica, por exemplo, a passagem de gravações entre consolas —, mas que cria os alicerces para melhores aplicações e melhorias de qualidade de vida que tornarão a PlayStation 5 numa das consolas mais acessíveis ao nível do utilizador.

O novo UI é um vislumbre. Acredito que seja uma questão de gosto pessoal, mas gosto do seu formato minimalista. É uma evolução inteligente do que vimos na PlayStation 4: mais versátil e dividida em três linhas de comandos, com a barra de atividades a ser totalmente personalizável. Compreendo que esta divisão em três partes possa ser um pouco confusa no início, mas habituei-me rapidamente à disposição dos ícones e aprecio que seja um sistema muito mais rápido e fácil de navegar. Ainda não é possível adicionar temas ao UI e alterar a disposição de alguns menus principais, mas a barra de atividades é totalmente personalizáveis graças à mais recente atualização. De qualquer forma, não sou o maior apreciador destas opções de personalização. É bom ter a opção, mas gosto do aspeto limpo, quase misterioso, do UI e devo admitir que fico feliz por existir uma melodia que acompanha todos os menus da consola. Um pormenor, muito descartável, mas nostálgico.

O processo de streaming, de criação de grupos e de partilha de conteúdos ficou muito mais acessível. Ainda necessita de algum trabalho, mas está no caminho certo.

Não consigo, mais uma vez, embrenhar-me nos aspetos técnicos da consola. Ainda não tirei o meu curso de engenheiro informático e não aprendi a ler as listas de especificações à prova de burro. O que posso dizer, tal como disse sobre a Xbox Series X, é que se trata de uma consola incrivelmente rápida e responsiva. Não encontrei grandes problemas nos menus ou a alterar entre videojogos, salvo o bloqueio do cursor ou o erro já relatado sobre o Sleep Mode — onde a consola não consegue retomar as suas funcionalidades —, mas sinto falta de uma opção como o Quick Resume. A PlayStation 5 tentar contornar esta ausência ao adicionar um menu que nos permite selecionar rapidamente os últimos três jogos acedidos: não é a mesma coisa. A PlayStation 5 é uma das consolas mais sólidas da Sony. Um colosso visual que se destaca na sala ou no vosso quarto e que corre maravilhosamente qualquer videojogo que escolham jogar. Seja PS4, PS5 ou jogos do PlayStation Now, a consola nunca demonstrou problemas graves, ainda que não seja tão silenciosa como gostava que fosse — especialmente quando iniciamos um jogo físico (e um ponto onde a Xbox Series X ganha facilmente).

Para a Sony, a ideia de geração continua a ser um ponto a favor. As mudanças entre consolas são significativas e há quase um recusar do passado que é tão empolgante, como assustador. Apesar de termos uma maior proximidade à PS4, devido à compatibilidade com os seus jogos, a nova consola é um monstro diferente. Não censuro totalmente a Sony pela sua abordagem, mas numa era digital, onde a uniformidade de sistemas começa a ser uma mais valia, a verdade é que a PlayStation 5 está mais interessada em destruir e reconstruir do que em manter a linguagem dentro e fora das suas consolas. Requer-se um maior investimento do utilizador, um novo período de habituação e de risco que a Microsoft tentou eliminar nesta geração: duas abordagens diferentes que respeito igualmente. No entanto, nada desculpa os sistemas arcaicos de passagem de dados, nomeadamente de gravações entre versões do mesmo jogo, implementados na PS5. Se a ideia é termos uma nova geração e uma aposta na nova consola, então a Sony deve assumir essa posição ou ajudar os jogadores a fazer a passagem: não este meio-termo insatisfatório. É preciso aprender com a concorrência e acredito que as melhorias estarão a caminho.

Esta aposta no salto geracional faz parte da filosofia da Sony e é no novo comando que sentimos esta determinação em inovar. O DualSense demonstra como a Sony está com os olhos postos no futuro e não apenas numa repetição do seu sucesso na geração passada. Se o design dos videojogos não muda, mantendo-se preso a modas e modelos que começam a ficar arcaicos — que o digam as suas experiências em mundo aberto —, a PlayStation 5 tenta combater esta rigidez de modelos ao tornar a experiência de jogar, de estar sentado de comando na mão, mais imersiva e para tal, o novo DualSense é um estandarte. A vibração, os sensores hápticos, a ergonomia do comando, a sua aposta em sons localizados que realçam as ações das personagens criam o cocktail perfeito para a nova geração.

Os botões são mais suaves e silenciosos, o que foi uma surpresa. O comando jorra qualidade, ainda não encontrei problemas, mas é preciso relembrar que o drift dos analógicos parece ser um problema. Resta compreender se será um problema presente em futuras revisões.

O problema? Até que ponto será suportado. E não falo na Sony, que fará os possíveis para enaltecer as funcionalidades do DualSense, mas sim dos estúdios third party que terão de programar uma experiência exclusiva a uma consola. Existirá sempre essa vontade? É um problema que poderá moldar-se no futuro, mas a verdade é que estes apontamentos, como sentirmos a chuva através do comando ou a tensão de um disparo, fazem a diferença quando jogamos. A experiência é mais imersiva, mesmo que a possamos a acusar de ser apenas mais um truque — como o HD Rumble da Nintendo Switch –, e mais natural. Seria ainda mais envolvente se o comando não fosse mais pesado do que os anteriores. Mesmo com as novas funcionalidades, o DualSense não se dissipa nas nossas mãos e agrava a sua presença há medida que as horas de jogo passam. O tamanho correto, mas acredito que novas revisões vão reduzir a sua pesagem para uma experiência ainda mais confortável e imersiva.

A Sony é experiente em desenvolver funcionalidades que chegam às consolas com uma data de validade injusta. Por vezes, esta vontade em inovar está presente nas consolas ou nos modelos de lançamentos, basta olhar para a PlayStation TV ou a PSP Go, mas esta constante falta de vontade e de direção no apoio aos seus próprios serviços são inevitáveis.A PlayStation 5 ainda não celebrou o seu primeiro aniversário, e eu sei que pronuncio uma morte demasiado prematura, mas vou já tecer a minha previsão como um Nostradamus de Loures: as atividades não vão sobreviver durante muito tempo.

As atividades foram um dos destaques da apresentação da PlayStation 5 e o seu conceito é muito interessante. Através do UI da consola, à distância do botão “Home”, podemos aceder a dicas, imagens e vídeos partilhados pela comunidade, tal como aceder a atividades específicas, que nos transportam diretamente para o videojogo que queremos continuar — será esta a verdadeira rival do Quick Resume? Se estivermos presos num videojogo, podemos aceder à barra de atividades e verificar se existe um vídeo ou ajuda que nos expliquem como superar o desafio ou ganhar o tão cobiçado troféu. Esta é a ideia e o conceito, repito, é interessante porque quer dar à PlayStation 5 uma maior sensação de comunidade, mas estas são as intenções e não a realidade. Por agora, vejo espaços vazios. A única vez que utilizei esta funcionalidade foi em Astro’s Playroom, um dos exclusivos da Sony, e rapidamente esqueci-me que existia. Os jogos da PS4, como seria de esperar, não usufruem desta opção e os estúdios third party também não parecem apoiar ou perceber a sua utilização. Ainda estamos no início da geração, muita coisa pode mudar, mas prevejo o som dos grilos a apoderar-se de mais uma boa ideia da Sony que não vai ser alimentada e melhorada como deveria.

A Sony é perita nos pormenores e nos efeitos visuais dos seus produtos mesmo que sejam descartáveis. É um investimento à marca e ao consumidor que podia ser redirecionado para outras funcionalidades da consola.

Se ainda não é claro, volto a repetir. Só tenho uma exigência para a Sony: algo semelhante ao Quick Resume. Não vou pedir um sistema semelhante ao Smart Delivery porque sei que não faz parte da filosofia da marca: quando muito irá inventar algo com outro nome e vendê-lo como a maior inovação do mundo. Com um UI tão centrado no futuro, no utilizador e na versatilidade (apesar de nem sempre se fazer sentir), é uma pena a PlayStation 5 não ter esta opção e depois de passar algum tempo com a Xbox Series X, a sua ausência fica ainda mais presente. Esperemos que a Sony adicione algo semelhante no futuro.

Ao contrário da Xbox Series X, a PlayStation 5 representa tudo o que um início de nova geração deve significar: espanto, glamour, novidades, riscos e ambição desmedida. A Sony trouxe-nos uma consola com um dos designs mais arrojados e divisórios das últimas gerações, mas fê-lo com gosto, amor e descaramento. E sim, eu gosto do design da PS5, aliás, adoro-o. Por agora, no que toca ao UI — salvo a passagem horrorosa entre gravações de jogo –, ao comando DualSense, ao design da consola, à sua aposta numa vertente mais social e na rapidez do seu processamento, a PlayStation 5 é um afirmar a pés juntos, enterrados na terra, de que estamos finalmente numa nova geração. E na minha opinião, como atual fã da marca, admiro alguma da fanfarra pomposa com que se apresenta, mas há sempre uma nuvenzinha por cima das suas cabeças, tal como na Xbox, e a sua relutância em aceitar o valor da retrocompatibilidade, em simplificar o software e a sua insistência em aumentar o preço dos jogos e das reedições — leia-se explorações — dos seus exclusivos, demonstram como a Sony tem um estado de mente cíclico entre a empresa amiga do consumidor e a maior vilã de um filme da Disney. Ainda está no centro, mas se o ciclo estiver correto, o branco e o preto da nova consola poderão significar que nos calhou a Cruella. E é a do novo filme. Deus nos ajude.

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