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NIGHTSLINK | GLITCH REVIEW

O horror da rotina e do isolamento numa experiência repetitiva, mas repleta de potencial.

Não considero que exista, de momento, uma atenção forte no género de terror por parte da produção portuguesa. De facto, posoo expandir este comentário a outras artes, já que, fora a presença em festivais como o Motelx e o Fantasporto, pouco se fala ou se conhece sobre filmes, histórias ou peças de horror em Portugal. No entanto, sinto que o silêncio é ainda mais ensurdecedor quando aplicado à produção de videojogos. Talvez seja um problema de exposição, de falta de informação e até de atenção por parte do público e dos críticos, mas as criações nacionais, no género de terror, parecem seguir uma espiral de produção que não escapam ao molde: anúncio, projeto demasiado ambicioso, silêncio e, por fim, cancelamento prematuro. E isto quando acontecem, à exceção de títulos como Those Who Remain, da produtora Camel 101.

Não quero alongar demasiado a minha introdução, mas é necessário algum contexto, pois NIGHTSLINK, da Noiseminded (Abel Neto), é um passo certeiro para o género em Portugal, ainda que longe — muito longe — do seu verdadeiro potencial, na medida em que conseguiu contornar os típicos problemas das produções nacionais — muita ambição, mas falta de criatividade ou meios de produção — para nos trazer uma experiência completa, condensada e, ainda assim, munida de uma certa visão de autor. NIGHTSLINK é curto, com menos de uma hora de duração se decidirem não procurar todos os segredos, mas é coeso e focado, fugindo à armadilha da imitação, que tanto prejudica as produções nacionais, para – se me permitem esta extrapolação — procurar o que poderá ser o significado e formato do género em Portugal. Falta-lhe mais garra, mas como introdução para uma nova carreira, cumpre o seu objetivo.

O facto de se tratar de uma experiência condensada, restrita a um conjunto limitado de sequências e locais, deu a Abel Neto a possibilidade de moldar a história deste estafeta de cassetes a um certo minimalismo. Ao terminar NIGHTSLINK , fiquei com a sensação de que existia a intenção de criar algo maior ou com mais ramificações narrativas e explicações sobre o mundo do jogo — quem seriam as pessoas detrás das portas, quem é o nosso estafeta e qual o material que grava, dentro da sua rotina, nas cassetes que depois entrega —, mas a decisão de retirar toda esta gordura narrativa deu origem a um projeto mais misterioso e peculiar que nem sempre funciona, mas cuja visão pessoal, aliada a um certo cunho cinematográfico — que é revelado pela planificação e trabalho de câmara —, lhe dá uma personalidade que muitas vezes está ausente das produções nacionais. É a diferença entre um projeto cujas influências são claras e uma cópia descarada de algo mais popular.

O que me atrai a NIGHTSLINK é a forma como trabalha a rotina e os efeitos progressivos no mundo do seu protagonista. As explicações são praticamente nulas, apesar de existirem pistas pontuais que injetam alguma construção de mundo na campanha, mas a repetição exaustiva da viagem deste estafeta, que se resume à gravação e entrega destas cassetes, cria um ‘loop’ perigoso e uma mensagem que considero ser gratuitamente lúdica, no sentido em que nos vemos entregues a uma rotina que não compreendemos, mas que repetimos sem tentarmos alterar o seu efeito final. Aceitamos a rotina, tal como o nosso estafeta, e não pensamos nas repercussões que uma simples ação poderá ter na vida de quem está à nossa volta, existindo ainda espaço para a análise de um mundo confinado, pós-pandémico, onde nos fechámos atrás de portas e longe de tudo e todos, mas entregues a novos vícios digitais (ou analógicos, neste caso) numa busca por contacto e um bem estar irrealistas.

A estética nostálgica transporta-nos para a era dos 32 bits e não me admiro que tenha sido inspirada por títulos como Echo Night e Hellnight.

Talvez esteja a ler demasiado, mas é por isso que considero NIGHTSLINK uma experiência interessante, pois dá ao jogador a missão de interligar os seus pontos narrativos e construtivos do mundo sem necessitar de explicações e exposição desmedidas — criando um ambiente onde até a minha interpretação mais exagerada sobre o mundo do jogo fazem sentido. É por esse motivo que não basta escrever uma história e depois desmembrá-la para contar uma narrativa mais visual, é preciso também saber como pontuá-la e expô-la ao jogador sem perder este equilíbrio entre as intenções do autor e as interpretações do público.

O grande problema de Nightslink é não conseguir esconder a sua repetição. Apesar da sua curta duração e da sua visão mais cinematográfica, a campanha torna-se longa devido à insistência nesta ideia de rotina e de uma certa normalidade dentro da campanha, que conseguem enublar a experiência de encontrarmos mais pistas e sentirmos os efeitos das alterações de dia para dia. É um problema inerente à estrutura do jogo e acredito que seja um risco que Abel aceitou acarretar ao moldar a história de Nightslink, mas faltou-lhe alguma destreza narrativa para conseguir colmatar o espectro da repetição. Mesmo com uma escrita sólida e com diálogos suficientemente surreais e até absurdistas para dar vida a este mundo confinado, Nightslink sabe sempre a pouco, fruto não da sua longevidade, mas da escala da estrutura narrativa,

No entanto, defendo esta decisão. E defendo esta decisão, apesar de não gostar da sua implementação, porque NIGHTSLINK tem, acima de tudo, uma visão pessoal e as opções narrativas e mecânicas demonstram esse cunho artístico que é, acima de tudo, o mais importante desta experiência de ambiente e horror.

A repetição podia ter sido ainda mais pontuada com a sucessão de mais ações fora da gravação das cassetes e do regresso ao prédio onde as entregamos.

Se Caim, produzido para o Mad Game Jam 2021, casava a narrativa com a repetição e o minimalismo dos seus cenários e momentos narrativos, NIGHTSLINK é uma evolução natural deste estilo e uma firmação forte por parte de Abel Neto como game e narrative designer, mas é um primeiro passo em direção a algo melhor, algo que, infelizmente, não está totalmente presente neste jogo de terror. As ideias são interessantes e adoro que Abel não tenha caído na asneira de contar mais e mostrar menos, deixando ao jogador a missão de interpretar as pontas soltas da sua história, mas estes são os alicerces para um futuro projeto.

E eu sei que me repito quando analiso projetos nacionais, no sentido de ainda não me satisfazer com estes primeiros lançamentos, mas a verdade é que antevejo o potencial para algo melhor; no entanto, é preciso apoiar e deixar estes criativos elevarem a sua própria fasquia. NIGHTSLINK é um projeto seguro, mas parece cair como uma pedra no charco, apoiado num estilo visual nostálgico — novamente demonstrando um trabalho muito completo no que toca à direção de arte e à utilização dos efeitos poligonais da PlayStation para criar um ambiente opressivo e sujo, quase como uma memória que não é nossa — e de uma vontade em contar uma história com influências mais contemporâneas. É um misto de sensações, tão fascinante, como desapontante, mas, tal como outros produtores nacionais — como a Not a Game Studio e até a Nerd Monkeys —, o primeiro passo está aqui: e agora?

A escala utilizada é de 1 a 10

Código cedido pela Noiseminded.

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