ESPECIAIS

A Conversa Contratualmente Obrigatória com o David

A única entrevista ao David que é movida pelo humor e vaidade do GLITCH.

David Fialho. Artista. Filho. Auteur, à francesa: assim é um dos membros fundadores do GLITCH Effect. Não podemos, no entanto, esquecemo-nos de uma outra faceta da sua arte: o amor pela fotografia. Através dos modos de fotografia, o David encontrou um novo mundo, iniciando-se pela edição de vídeos na série Forza e conquistando o Mundo, com M grande, na sua mais recente coleção de posters inspirados em Dune. Esta introdução pomposa e vaidosa serve dois propósitos: primeiro, o orgulho que sentimos no trabalho do David; e segundo, tentar evidenciar a parvoíce e vaidade de entrevistarmos um dos nossos. Mas não podíamos deixar passar a oportunidade de falarmos um pouco sobre fotografia, algo que, curiosamente, sempre fez parte do ADN do GLITCH e que quase todos os membros, melhor ou pior, tentaram abordar nestes seis anos de existência.

Todas as fotografias presentes no artigo são da autoria do David.

David, espero que gostes da introdução e te sintas ligeiramente envergonhado. Especialmente a última parte.

Para dar só um pouco de contexto, eu e o Canelo estamos a falar através do Google Docs. A certa altura pede-me “calma”, mas como posso ter eu calma, quando o vejo a chamar-me, em tempo real, todos os nomes que lhe vêm à mente? Ainda por cima, o sacana está a editar no momento em que estou a escrever isto. Mereço explicações.

E tinha mais nomes na calha, mas foquei-me nos mais exagerados e descontextualizados possíveis para marcar o tom desta entrevista. Mas tens razão, algum contexto. O David tem um carinho, se calhar até paixão, pela fotografia e já não é a primeira vez que se destaca a nível internacional com o seu trabalho. Depois de tantas entrevistas, sentimos que faltava a nossa, com um tom mais pessoal e descontraído, também para marcarmos o seu trabalho no GLITCH.

Sim, não vale a pena voltarmos a contar a história de origem. Deixemos essa repetição para a Warner Bros. com as mil e uma histórias do Batman.

Já trabalhamos juntos há seis anos. Conhecemo-nos através do GLITCH, algures numa tarde em que começámos a gravar o podcast, e posso dizer que te vi crescer nestas lides artísticas, mas ainda não consigo identificar bem o teu estilo — se é que sentes que tens um.

Hum, mas que excelente questão (respondemos sempre isto quando não sabemos o que dizer). 

Sim, estás a empatar e eu vejo isso porque o teu cursor parou.

Não tenho um estilo. A verdade é essa. Explicar como faço e o que faço, por muito cliché que seja, é muito natural. Descrever o processo atrofia-me imenso, mas como explicava ao nosso amigo Pedro Vieira no outro dia, durante uma das suas streams, o que faço é montar oportunidades. Vou buscar referências mentais, emulo, remisturo e é isso. Se me perguntares se tenho um estilo, como consistência, isso vai variar de dia para dia e de mood para mood. Há dias em que gosto de capturar retratos, outros planos grandes, noutros dias dedico-me só à fotografia a preto e branco, etc. Depende também do que cada jogo tem para dar.

Mas existe algum trabalho de pesquisa, de recolha de referências (conscientes ou inconscientes) ou gostas, pelo contrário, de não te afunilares nesse sentido?

Tenho imensas inspirações. Todas um pouco inconscientes. Simplificando, tenho um gosto particular em emular planos de filmes ou de animes (nomeadamente action shots). Também tento inspirar-me em concept arts e estaria a mentir se não dissesse que também tento emular imagens de outros artistas. Mas tudo isso serve apenas como base ou ponto de referência, que, ao longo do tempo, vai transformando-se e quando estou num jogo a tirar fotos simplesmente não penso nessas referências, mas começo a olhar para as personagens e elementos, e imagino uma composição — ou uma “história”.

Então existe essa ideia de “estória”, de narrativa, o que é interessante. E costumas tentar interligar as fotos que tiras ao longo de um jogo para contares a tua própria história ou é algo mais micro e centrado de fotografia para fotografia? Pergunto isto porque esta ideia de narrativa poderá ser uma ponta do teu estilo pessoal.

Diria que é mais “micro”, imagens que representam um momento ou uma situação. É claro que não penso muito nessas coisas e na maioria das vezes disparo só porque algo parece cool, mas uma composição não existe sem um sentimento ou significado, e a partir daí vou extrapolando algo. Antes de publicar e mostrar às pessoas as minhas “chapas”, gosto de sentir algo. Seja esse elemento narrativo ou a simples qualidade, elementos e composições da foto. Posso até dar-te este exemplo, que tirei durante a stream do Pedro, e que foi captada em Cyberpunk 2077 apenas com o Pedro a descrever os elementos da cidade. A partir daqui criou-se uma história onde “V chegou com a sua mota a um bar para fazer algo, mas não sabemos o quê.”

https://pbs.twimg.com/media/E7-wJjGXoAE7O8v?format=jpg&name=large

Então também há a camada narrativa após tirares uma fotografia, o que é interessante. 

Sim, porque se não significar nada, do que vale? Mesmo que isso não seja aparente à primeira. Mesmo que eu não arranje essa história, espero que alguém veja uma foto e imagine algo ou faça a tal ligação inconsciente de algo para que lhe remete. Bem, estás mesmo a puxar pelo “Auteur, à francesa” que há em mim.

Mais do que a narrativa, o que me fascina é o momento em que estás a jogar e percebes que algo está a acontecer que merece ser captado. Acho que esse é o segredo. Até posso dar o meu exemplo de leigo, onde não consigo, por mais que tente captar ação em movimento, mas sim paisagens. Mas tu consegues ambos e às vezes em situações que parecem microscópicas no grande esquema dos videojogos.

É como um vício, sabes? Haver esta possibilidade de tirar fotos remete-me bastante para o modo e dá-me vontade, nem que seja de pausar e admirar o jogo noutros ângulos, apreciar a arte dos jogos e a atenção aos detalhes, procurar por “erros” ou easter eggs, etc. Mas nem tudo é positivo. Algo que nunca pensei muito, mas que me foi recentemente “chamado à atenção” numa conversa que tive com o André Henriques e o Rubén “DotPone Pinto, para a IGN Portugal, é que estes modos podem ser um entrave à imersão e experiência de jogo. E de facto, esse apontamento recordou-me de jogos em que estava tão preocupado em carregar na pausa que não deixava o jogo fluir. Curiosamente, isto afeta-me mais o ritmo dos jogos quando os repito do que a primeira vez que os experiencio.

Mas sentes que essa curiosidade entra em conflito com a imersão?

Diria mais que me quebra o ritmo do jogo. Imagina um jogo focado na narrativa, em que estás num combate épico. Ao mesmo tempo, queres captar todos os momentos. É um pouco por aí, por isso, sim, faz-me entrar em curto-circuito às vezes.

E a qualidade de um photo mode pode influenciar a imersão ou o teu entusiasmo no momento de tirares uma fotografia, ou sentes que consegues contornar os problemas?

Sem dúvida. E posso dar os exemplos recentes de Final Fantasy VII Remake (na PS5) e Resident Evil Village, que têm dois dos modos de fotografia mais desnecessários de que tenho memória. É péssimo e triste olhar para estes belos jogos, cheios de oportunidades, e não teres liberdade de mexer muito mais a câmara, além daquilo que o gameplay te dá. Por um lado, é fixe, posso ignorar e experienciar o jogo sem pensar nisso, por outro, como caso de FF, fez-me perder a pica de o revisitar. Sabendo que os modos são assim, perco o hype. Contudo, também depende do nosso amor pelos jogos. Por exemplo, Mass Effect Legendary Edition não tem, de todo, um bom modo de fotografia e os elementos mecânicos in game são super inconsistentes de jogo para jogo (como a opção de guardar a arma ou a falta de idle animations), mas tenho um amor tão grande pela saga que me dá um enorme gozo explorar todas as capacidades do modo e tentar captar “aquela foto” que parece impossível.

Sinto que este amor não se foca apenas no mundo da fotografia, mas na edição e no design em geral. E como membro do GLITCH, que construiu a nossa identidade visual, vi-te criar projetos impressionantes.

Não sentes. Sabes. Porque te mando quase tudo o que faço. E é verdade, além dos modos, também gosto de apimentar as fotos com outras ferramentas de manipulação de imagem e não tenho problema nenhum em dizer e identificar. Por vezes, os modos não nos dão tudo e para tornar as imagens mais apelativas tento usar o máximo de ferramentas ao meu dispor. Nem sempre sai bem, mas quando acerto, é home run. E faço-o porque editar e manipular, parafraseando Quentin Tarantino sobre os seus filmes violentos, “is so much fun, Jan”.

Tens o mesmo método de trabalho para o design e edição de vídeo?

Sem dúvida! O processo é muito semelhante e parte do mesmo epicentro: uma ideia, uma sensação, uma história, etc. E a edição de vídeo, para mim, anda um pouco de mãos dadas com os modos de fotografia. É possível fazer coisas fantásticas com isso. No fundo, é capturar imagem/vídeo e dar-lhe vida e emoção, é assim que penso quando tenho os meus brain-farts. Puxando uma de Kojima, “é só encontrar a música certa” e sinto-me muito inspirado para começar a editar.

Se calhar é uma pergunta um pouco parva porque não conheço o estado atual da edição de vídeo nos videojogos, mas achas que um novo modo podia ser empolgante, onde fotografia e vídeo andassem de mãos dadas, ou sentes que esta área funciona melhor através de fotografia?

Por muito que adore estes modos, não acho que sejam obrigatórios existirem. Gostava de os ver no máximo de jogos possíveis? Claro, mas compreendo que possa não fazer sentido. Na verdade, modos desses já existem de alguma forma. Halo 3 introduziu-nos o Theatre Mode e GTA V tem um modo de realização, que ainda usei umas vezes para parvoíces. E são modos que ganharam muita tração, criaram comunidades e até séries. Mas se me perguntares do que gostava de ver nesse campo, seria editores de replay em jogos de corridas. Cof* Forza Horizon Cof*. Seria incrível!

Bem, acho que chegámos ao momento da pergunta mais previsível do mundo. De todos os trabalhos que fizeste, existe algum que queiras destacar?

Não. Já tive a minha dose de momentos Kojima por hoje.

(tira uma pistola) Isto não é um pedido, David. Responde à pergunta.

PRONTO! No ano passado, a FNAC pediu-me para fazer um “trailer épico” sobre os jogos de 2020. Acho que ainda está muito atual, tendo em conta que 2020 se estende até 2022 ou mais. Ora toma:

Também fizeste recentemente os posters inspirados em Dune, que mencionei no início.

Sim, com personagens de Mass Effect.

Boa.

Podem ver o trabalho do David através do Twitter e Instagram.

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