PÔR OS PÍXEIS NOS I'S

Umurangi Generation – Um céu vermelho pelo olho da câmara

Um dos indies mais intrigantes de 2020 acaba de chegar à Nintendo Switch.

Não nasci para ser fotógrafo. Esta foi uma verdade que me custou a aceitar, mas era incontornável. O mais trágico é que decidi estudar cinema com o intuito de ser realizador, de pensar em enquadramentos, iluminação, planificação e todos os “ãos” associados à prática cinematográfica, mas bastaram algumas aulas de Imagem, com um diretor de fotografia da velha escola, para compreender que os meus olhos, para além de precisarem de óculos, só conseguiam distinguir cores e não muito mais. Em títulos como Umurangi Generation, dou vida à minha curiosidade e determinação em ser fotógrafo e é onde posso deixar-me levar vicariamente pelas suas mecânicas simples, mas munidas de um estilo e praticabilidade que me levam a explorar a fundo as suas composições, design e temas narrativos – nomeadamente a sua queda para a narrativa mais visual, especialmente no que toca à construção do seu mundo – sem cair nas frustrações da realidade e das limitações pessoais.

É interessante desconstruir Umurangi Generation e despi-lo do seu estilo urbano, em tons de pós-modernismo, para encontrarmos um certo classicismo no que toca à sua forma e mecânicas. Para todos os efeitos, este é um jogo com raízes fortes no género arcade, dividido por níveis, que são maioritariamente pequenos e controlados, cujos objetivos relegam-se a uma lista de fotografias que temos de capturar antes do final do tempo limite. Para tal, precisamos de navegar através destes cenários, que vão desde as ruas de uma metrópole até aos telhados de prédios em construção, enquanto descobrimos os melhores ângulos para capturar os objetos ou pessoas indicadas para passarmos à próxima fase.

A navegação não é maioritariamente assente na exploração livre, os cenários são muito fechados e a movimentação é prejudicada por alguns problemas nos controlos, em especial no botão de salto – que não é muito responsivo ou satisfatório –, o que me leva a defender que Umurangi Generation tem mais a alma de um jogo de puzzles, no sentido em que temos de compreender a leitura dos cenários e descobrir caminhos alternativos, como plataformas escondidas, para encontrarmos os pontos de vantagem perfeitos. São pequenos toques, mas que complementam perfeitamente o ambiente falsamente descontraído e reflexivo deste jogo de fotografia.

O lançamento na Nintendo Switch inclui o DLC Macro, onde têm acesso a mais missões, novas opções de fotografia e ainda a possibilidade de se deslocarem em patins.

A sua veia arcade mantém-se viva através das recompensas entre níveis, com os jogadores a receberem novas lentes e funcionalidades para a câmara – como a opção de saturação ou as lentes com maior, ou menor profundidade – que motivam a repetição dos níveis em busca de uma maior pontuação e da conclusão de objetivos secundários. É um jogo que pede para ser jogado várias e que puxa pela nossa criatividade de nível para nível, com os novos acessórios a abrirem possibilidades de captura, enquadramento e até de iluminação que pareciam ser impossíveis num primeiro contacto. A jogabilidade nunca se torna demasiado complexa e a mudança de lentes está relegada a um único botão, com as opções de pós-produção a surgirem sempre que tiramos uma nova fotografia, mas esta ausência de desafio mecânico é complementada por objetivos progressivamente mais obtusos. Na minha experiência, estes dois lados combinam perfeitamente para evitarem que Umurangi Generation se torne frustrante ou confuso, mas existe sempre um momento, por mais curto que seja, onde não sabemos o que fazer para conseguir uma fotografia. Mesmo quando o jogo cai no erro de menosprezar a sua simplicidade, nunca é injusto e o que parece ser impossível requer apenas uma abordagem nova. Se estiverem presos num objetivo, relaxem, tirem algum tempo para vocês e para as vossas fotografias antes de voltarem ao ativo – algo que é complementado por um limite de tempo que não impossibilita a passagem para a próxima fase, mas que desafia os jogadores a conseguirem uma melhor pontuação. Explorem os níveis à vontade, tirem fotografias e pensem um pouco sobre o objetivo em si. Esta tática resultou sempre para mim.

A alma de Umurangi Generation recai, no entanto, na construção deste mundo militarizado e como a narrativa visual evolui ao longo da campanha, demonstrando progressivamente este controlo urbano através da cidade que se molda a acontecimentos que nunca experienciamos diretamente. É um jogo que funciona mesmo sem esta camada temática, mas é difícil ignorar o seu tratamento da cidade, da arte visual, dos elementos de ficção científica e até da banda sonora, criada pelo youtuber ThorHighHeels – que contrasta eficazmente com o ambiente mais negro de certos níveis –, quando os seus elementos são tão fortes e construídos eficazmente ao longo dos cenários. O foco mantém-se na captura de fotografias, mas sentimo-nos próximos desta selva urbana a cada nível que visitamos, com o néon, os graffitis, os estilos futuristas e coloridos, que se assemelham ocasionalmente a um ambiente futurista e de Neon Punk, a estruturarem um olhar mais crítico e cínico sobre uma geração perdida. É tanto uma experiência contemplativa e hipnotizante, como uma experiência mecânica e puramente arcade, com as suas pontuações e objetivos lúdicos. Um equilíbrio interessante e bem conseguido.

Apesar do seu desempenho nem sempre sólido e a resolução ser inferior ao esperado, a versão Switch terá sempre a vantagem da portabilidade, algo que não deve ser menosprezado. Umurangi Generation é um dos poucos jogos que me mantiveram afastado da televisão por conseguir emular psicologicamente o efeito de termos uma câmara nas mãos. Com os sensores de movimentos e o giroscópio a funcionarem nesta versão, o ato de tirarmos uma fotografia torna-se mais divertido e até realista e acaba por ser uma versão fácil de recomendar para qualquer amante do género. Ao ter experimentado a versão PC, foi-me difícil ignorar o quanto os cenários e modelos sofrem de uma enorme pixelização, mas Umurangi Generation continua a ser uma das experiências visuais e sonoras mais únicas dos últimos anos, e é este tipo de lançamentos que precisamos não só na Switch, como nas restantes consolas. É recomendado.

Código cedido por ORIGAME DIGITAL.

Nota: Enquanto escrevia este texto, o jornalista e youtuber Super Bunnyhop lançou a sua análise a Umurangi Generation, onde aborda de forma espetacular as várias temáticas do jogo. É muito recomendado.

E fica também a sugestão para assistirem à crítica de um jovem escritor, FrankenSama, que também analisou o jogo.

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