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Green Hell: Um passeio pelo jardim da Gulbenkian

O género de sobrevivência continua a mostrar as fragilidades das adaptações de PC para consolas.

Depois de anos de espera, Green Hell chegou finalmente às consolas na sua versão final e eu não podia estar mais indiferente. Primeiro, algum contexto. Anunciado em 2018, o jogo de sobrevivência da Creepy Jar encontrou-me num momento de autodescoberta, onde, movido pela minha experiência com 7 Days to Die, propus-me a compreender melhor este género que me era ainda tão estranho. Infelizmente, a minha curiosidade era condicionada pelo meu portátil, o velhinho das guerras do passado, e vi-me incapaz de conhecer e jogar alguns dos melhores títulos do género. Mas a promessa de uma versão para as consolas manteve-me próximo de Green Hell e da sua aventura na selva amazónica, numa campanha que procurava ser mais realista e desafiante do que alguns dos seus rivais.

A chegada às consolas foi adiada ao longo de três anos. A promessa manteve-se viva na minha mente e a vontade em explorar o mundo opressivo e húmido de Green Hell não desfaleceu perante a estreia de muitos outros títulos do género nas consolas. Inesperadamente, o título da Creepy Jar deu finalmente o salto para a PS4 e Xbox One depois de uma passagem sem fanfarra pela Nintendo Switch, conseguindo adaptar o seu sistema de mecânicas e UI aos rudimentares comandos numa missão de capturar toda a essência do jogo em plataformas já datadas e sem o desempenho necessário para dar vida às cores fortes e brilhantes da selva brasileira. Green Hell está finalmente terminado e na sua versão final, mas três passaram desde o seu lançamento e muito ficou pelo caminho – incluindo a minha paciência.

Poderia ter procurado um exemplo melhor, mas Green Hell, tal como Control em 2019, fez-me sentir o quanto a PS4 está em suporte de vida. A consola da Sony, lançada em 2013, esforça-se para correr Green Hell o melhor que pode, mas não é o suficiente e aquilo que recebemos, depois de anos de espera, é uma versão desinteressante, feia e sem a destreza dos controlos necessários para dar alguma longevidade à experiência de sobrevivência. É uma versão segura, que inclui agora um modo de estória – juntamente com os modos de sobrevivência e a possibilidade de jogarem em cooperação com um amigo –, onde a falta de fidelidade gráfica prejudica a navegação e a leitura dos cenários, tal é a baixa resolução que apresenta na versão para consolas.

A jogabilidade mantém-se intocada e foi apenas adaptada aos comandos, com vários atalhos e combinações de controlos que nem sempre são intuitivos – mas é um mal menor e incontornável nesta passagem para as consolas. Os menus, a navegação entre opções, a criação de itens e até a inspeção da personagem – num sistema muito interessante, onde podemos verificar os braços e pernas em busca de feridas ou parasitas – perdem a sua rapidez e acessibilidade, algo que contrasta com a qualidade pouco surpreendente desta adaptação para sistemas nada preparados para este género de videojogos.

Se no passado fui mais tolerante com estes relançamentos, especialmente com 7 Days to Die, a experiência tornou-me mais insensível e exigente, ainda mais quando pude verificar a versão PC e perceber as suas vantagens. Seria de esperar que as duas versões diferissem no que toca à sua fidelidade, mas Green Hell é um ótimo exemplo do quanto é necessário abandonar as consolas atuais em prol do futuro. Contra mim falo, que não tenho ainda uma PS5, mas a verdade é que títulos como Green Hell ganhariam muito com o desempenho das novas consolas. Como está, é um lançamento que vem demasiado tarde, longe do impacto da sua revelação e que revela o quanto o género ainda não está solidificado nas consolas.

Esta crítica vai mais ao encontro da versão PS4 e não reflete a qualidade do jogo em si, já que algumas das mecânicas e o loop da jogabilidade são muito interessantes.

Se procuram uma experiência de sobrevivência e não têm um PC suficientemente forte para correr Green Hell, diria para arriscarem, mas preparem-se para um choque momentâneo. Como está, Green Hell não é o equivalente a visitar a selva viva da Amazónia, mas sim os jardins da Gulbenkian num feriado: irritante, desinteressante e sem tempo ou espaço para respirar. Um inferno.

Código (PS4) cedido pela Evolve PR.

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