PÔR OS PÍXEIS NOS I'S

Carta aberta contra os teaser

Em tempos de E3, este problema nunca foi tão presente e como consumidores temos de exigir mais e sermos melhores.

Sem aviso, criou-se uma estranha moda na indústria do entretenimento. Uma necessidade, diria, em motivar e cativar um público despercebido, mas sedente por novidades – ou o chamado hype –, numa era onde a informação tem um tempo de vida minúsculo ou quase inexistente, não fosse esta a era digital. Mas existe uma fome por anúncios, por teasers e por revelações que tentam empolgar o público ao ponto de delirar com a apresentação de um título, imagem ou logótipo que pouco informa sobre o produto em causa – é o culto da marca ao seu nível mais extremo.

Na indústria dos videojogos, este tem sido o modus operandi nos últimos anos. Se, por um lado, assistimos a um trabalho mais meticuloso por parte de certos estúdios, que tentam conciliar a revelação dos seus projetos com uma data de lançamento mais realística, por outro, alimenta-se esta cultura do hype que se infiltra nefastamente nas redes sociais e na comunicação das marcas. Qualquer informação, por mais pequena ou inexistente que seja, merece uma transmissão ou revelação explosiva que se propaga por sites e diz-que-disse das redes sociais, invalidando o facto de estarmos a receber, nos melhores dos casos, uma proposta de venda e nada mais. É estranho, mas eficaz.

Não sei qual será o ponto de rutura desta prática – e se existe, de facto, um ponto de rutura –, mas é difícil lutar contra a antecipação numa era moldada pela presença crescente das plataformas digitais. A atenção é curta, as distrações são muitas e as marcas encontram-se numa posição onde todas as notícias são boas notícias, evidenciando também uma carência auto-imposta por um público que quer mais e que “quer agora”. Mas o que recebemos concretamente com uma imagem ou um teaser trailer que muitas vezes serve para anunciar que um trailer irá sair em breve? Qual é o valor concreto desta prática para além de criar ruído e uma antecipação tão fraca e descartável que pouco serve para lá do dia em que é revelada? Não só o culto da marca, como o culto da existência.

Tomemos, por exemplo, o papel da Bethesda na indústria. Com Fallout 4, adotou um posicionamento diferente no que toca à revelação dos seus projetos, anunciando o tão aguardado RPG em junho de 2015, durante a E3, para o lançar em outubro do mesmo ano. No entanto, e depois do percalço de Fallout 76 e Rage 2, com uma imagem fragilizada e numa conferência marcada por tentativas falhadas em brincar com o lançamento desastroso do MMO, a Bethesda deu dois passos e um mortal mal posicionado atrás, anunciando logótipos para Starfield e The Elder Scrolls VI. Não foram revelados mais detalhes sobre os dois projetos, apenas que se encontravam numa fase muito embrionária do seu desenvolvimento. Durante anos depois, a Bethesda manteve os fãs na mesma expetativa: sem novidades, detalhes ou informações adicionais sobre os videojogos. Só agora, em plena E3 2021, é que a Bethesda, sob a alçada da Microsoft, anunciou que Starfield chegará em 2022.

O mesmo podemos apontar à Nintendo, com a revelação de Metroid Prime 4; à PlatinumGames, com Bayonetta 3; e mais recentemente à SEGA, que apresentou o novo título da série Sonic para o próximo ano – só um logótipo e uma janela de lançamento. Não temos mais detalhes sobre estes futuros lançamentos, onde os seus anúncios colocaram em marcha uma máquina publicitária, mas também económica, disponibilizando pré-reservas e outras campanhas que visam o apoio e presença dos fãs. Estará o trabalho concluído? Ou será um problema a longo prazo, no sentido em que a comunidade de jogadores pode ser tão tóxica como positiva quando quer?

Apesar de criticar esta moda crescente, sou obrigado a dar um passo atrás e a observar a indústria de outra perspetiva. É preciso equacionar as exigências do público, que quer continuamente mais detalhes, mais jogos e mais expetativas ao longo do ano. As produtoras são criticadas por estas revelações, mas são igualmente atacadas por não existirem anúncios que vão ao encontro das comunidades. Preso por ter e preso por não ter, assim é a indústria dos videojogos. Com a crescente dependência nas redes sociais e por uma presença proeminente nas plataformas digitais, criou-se também esta ideia de pertença que o público usa como uma faixa de guerra. Nenhuma novidade é suficientemente forte para uma comunidade que está habituada a receber constantemente novas distrações ao longo do dia. Diria que estamos mais mimados.

Temos também de contabilizar as exigências do mercado e dos acionistas, dois elementos que afetam direta e indiretamente o comportamento do público e que vivem também das suas exigências. É necessário ter em conta que é incontornável a relação com o mercado e a especulação do mesmo, seja através do anúncio de um jogo há muito aguardado – para aumentar o valor das ações – ou para informar (e acalmar, como se fossem crianças) os acionistas dos projetos em produção. É um jogo para sempre capitalista que poderá ser um dos alicerces para estes anúncios descartáveis, mas cujos efeitos a longo prazo ainda parecem estar pouco definidos.

Talvez seja um problema mais pessoal e vocês não se revejam tanto nesta confusão que sinto perante a idolatração de logótipos ou teasers que pouco me informam. Talvez até respeitem a ordem do mercado e não vejam com maus olhos as exigências dos acionistas num mundo corporativo, mas assusta-me este moldar das opiniões e expectativas de um público que é progressivamente menos exigente no que toca à sua relação com as marcas. Aliás, de um público que vive pela pertença, pela noção de grupo, que muitas vezes vive para estes anúncios e não pelo videojogo/filme/álbum em si. Vivemos tempos onde ver um trailer é o equivalente a ver um filme. Longa vida ao futuro.

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