PÔR OS PÍXEIS NOS I'S

A terrível página em branco

Não há nada que me assuste mais do que uma página em branco. Deixem-me reformular. Tenho um pavor a cobras, também não sou muito amigo de alturas, mas a página em branco, seja física ou virtual, representa um soco no estômago que, como escritor, é incontornável. Se escrevem, seja um artigo científico ou a lista de compras, de certeza que já se sentaram à vossa secretária e olharam para o fundo branco de um programa de edição de texto. “E agora?”, pensam enquanto rescrevem e apagam frases que não fazem sentido. “Nada”. O horror.

Existem vários picos do chamado bloqueio de escritor, mas uma coisa é certa: é inevitável. Por mais que fujam e tentem ser criativos, vai chegar aquele dia, semana ou ano em que não conseguem escrever. Podem espremer a cabeça com todas as vossas forças, mas nem uma gota de criatividade pinga para a página em branco. Esta sensação de impotência é dolorosa, impossível de ver senão como uma falha da nossa parte. A frustração aumenta e a página mantém-se branca, marcada apenas pelas tentativas que apagámos ao longo das horas. De certeza que já passaram pelo mesmo.

Durante anos, senti-me esgotado e sem uma voz no que toca à escrita de guiões e de estórias curtas. Esta fase surgiu após passar grande parte da minha vida a escrever projetos, ideias e contos sempre que as ideias surgiram, mas um dia, simplesmente parei. Pensava que tinha perdido por completo a capacidade de contar estórias, de construir narrativas e de escrever as minhas ideias mais tresloucadas. Este bloqueio era muito restrito e só surgia quando me sentava para escrever. Fora de casa, com amigos e com a Sofia, continuava a conceptualizar ideias e a inventar estórias como se não existisse esta barreira invisível entre mim e a folha em branco, mas existia. Quando precisava de tornar as estórias reais, tudo caia por terra. A introspeção levou-me a identificar o medo da estagnação, a guerra contra a perceção da minha escrita e a auto-crítica; a mesma que continuo a sentir hoje, anos depois, e que me mantém preso a uma necessidade exaustiva de escrever sem parar.

Este medo persegue-me. Detesto não ser criativo ou não saber o que fazer, mas faz parte do processo. É suposto encontrarmos este bloqueio de escritor para percebermos quem somos, qual é o nosso estilo e o que valorizamos enquanto autores. Contra mim falo, mas é importante parar. É necessário encontrar este entrave para nos reinventarmos enquanto descobrimos ideias, tópicos e temas diferentes que nunca descobriríamos se não parássemos para pensar. No entanto, eu percebo: há sempre o receio deste bloqueio ser eterno. É um medo que respeito porque é demasiado real.

Mas qual é a sua origem? Só posso falar na minha experiência, mas sinto que foi uma mistura entre pressão e expetativas. Como guionista, vejo-me muitas vezes a duvidar do que escrevo e a ponderar se as ideias são boas o suficiente para encontrarem um público. Sou autocrítico, raramente fico satisfeito com a versão final de um texto e o tempo veio piorar esta guerra interior. As expetativas pessoais aumentaram até que atingi um ponto onde nada era suficientemente interessante para desenvolver, mesmo que me dissessem o contrário. O bloqueio de escritor fez-se sentir pouco tempo depois. Se querem ouvir uma das maiores verdades do mundo, aqui fica: não temos de ser sempre geniais e nunca vamos acertar à primeira. Não se pressionem. Esforcem-se, mas não enlouqueçam com o processo criativo.

Como vencer a página em branco? Não tenho um processo fixo, mas tento sempre arranjar tempo para deixar as ideias respirarem. Se não consigo escrever, espero pelo próximo dia e volto à carga. Durante esse tempo adicional, tento organizar as ideias e pensar em cenários diferentes, perspetivas que possam dar vida ao texto. Nem sempre resulta, é certo, mas é importante saber quando parar e adiar a batalha para outro dia: ninguém perde.

Se quiserem insistir, se não conseguem mesmo ultrapassar a sensação de que ficam para trás – ou se têm alguma entrega urgente –, aconselho-vos a escrever sem pensarem muito no que estão a fazer. Escrevam tudo o que passar pela vossa cabeça, sem discernimento. Não descartem ideias; aproveitem tudo. Se a introdução dos textos é um problema regular e um bloqueio constante, então passem à frente e escrevam outras partes do texto. Por exemplo, se analisam um jogo, comecem por falar nos gráficos, se esse for o tópico que dominam mais, ou foquem-se noutros elementos que vos permitam escrever sem grandes entraves. Deixem as ideias fluírem e nunca tenham medo da revisão: se querem ser escritores, aprendam a apagar e a recomeçar. Faz parte do processo, por isso, escrevam tudo, sem medos. O resto ajeita-se.

Se nenhuma destas técnicas resultar, vamos ao mais básico e natural: parem. Alguns escritores acreditam que os únicos métodos possíveis são a rotina e a disciplina, e eu concordo até certo ponto. É preciso escrever, no entanto, temos de interiorizar que a ideia de parar não é uma derrota se servir para aprendermos algo, para ler, ver ou jogar algo novo. O importante é saber quando regressar e nunca desistir. Estabeleçam metas. Por isso, deixem, a página em branco e vão passear, ver um filme, jogar um videojogo, ler um livro, qualquer coisa. Não é fácil, aviso-vos já, desligar simplesmente o cérebro e passar à frente, mas é possível. Esta é a sugestão que mais vezes vejo presente em livros de escrita, Game Design e Narrative Design, esta ideia de parar e absorvermos outras inspirações. As ideias surgem sempre quando menos as esperamos, o papel em branco não é uma ameaça, mas sim um pequeno interregno. Inspirem-se.

Vale também a pena dizer que não estamos sozinhos nesta luta pela criatividade, ainda que a batalha seja muito solitária. Existe sempre um diálogo, um brainstorm ou conversa amigável que podemos ter com colegas, amigos e namorados/companheiros que não só podem levar a ideias, como podem trazer alguma paz de espírito à cabeça que não para de trabalhar e andar às rodas. Como disse anteriormente, as ideias podem surgir quando menos esperamos.

Este medo nunca irá desaparecer, nem que seja por meros minutos, mas poderemos sempre controlá-lo. Seja a ansiedade a falar mais alto, as inseguranças a virem ao de cima ou as expetativas pessoais que empilhamos nos nossos ombros, lembrem-se sempre do que são capazes. Não nasci para ser um motivador ou um guia espiritual, mas a imagética da página em branco fascina-me pelo quão sombria é e quis partilhar esta noção com vocês. Uma coisa tão simples, tão inocente e que é capaz de fazer tremer a alma de qualquer escritor. Merece respeito. No entanto, enfrentem-na sempre da melhor maneira, um dia de cada vez. Mesmo com as responsabilidades laborais, de metas e de entregas, há sempre um momento para parar e respirar. A página em branco é temporária. Sempre foi.

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