PÔR OS PÍXEIS NOS I'S

Nas malhas do PlayStation Now

Durante dois meses, decidi conhecer melhor o serviço da Sony e consigo ver finalmente o potencial - mas há muito para fazer.

Se me seguem nas redes sociais ou se ouviram os últimos podcasts do GLITCH, de certeza que perceberam que sou um enorme fã do Xbox Game Pass. Não sei se este serviço de subscrição será o futuro da indústria – apesar de tudo apontar que sim – e quais serão as suas repercussões na venda, compra e até na análise de videojogos, mas é impossível ignorar o valor e acessibilidade que oferece aos seus consumidores. Desde o lançamento de novidades, à inclusão regular de videojogos de alta produção e ao apoio de produtores independentes, o Game Pass é uma arma de arremesso da Xbox neste início de geração e será impossível de abrandar. Falemos, no entanto, de PlayStation Now.

Não me proponho a analisar o lado técnico desta resposta da Sony – ainda que, segundo consta, o serviço não é, afinal, um adversário direto do Game Pass –, mas sim a recontar as minhas aventuras com aquela que é uma das ofertas mais peculiares no mundo das subscrições e do streaming. Falhei a sua estreia em Portugal, em 2019, e deixei-me levar pela desconfiança à medida que ouvia reações pouco favoráveis de colegas – nomeadamente na qualidade de streaming –, mas afastei os receios e decidi dar o salto com uma promoção algo irrecusável. Adquiri dois meses com o intuito de perceber melhor o seu catálogo e o que o tornava tão especial para alguns jogadores, e saí apenas com uma resposta: os jogos PS3.

Os exclusivos chegam garantidamente ao serviço, mas a Sony não consegue apostar no lançamento em simultâneo nas lojas e no Now. Apesar da sua forte presença no mercado, temos de saber diferenciar o poderio económico da companhia japonesa daquele que move a Microsoft.

Tal como Game Pass, o serviço da Sony dá-nos acesso a videojogos mais recentes, ainda que não inclua lançamentos em simultâneo – tratam-se de títulos com alguns meses no mercado –, que podemos descarregar diretamente para a consola ou deixar a nossa sorte às exigências de velocidade da transmissão. Apesar de a aplicação ser lenta, demasiado até – com um lag entre secções que irritará quanto mais a utilizarem –, o processo é simples: escolham um jogo PS4, descarreguem e joguem fora da aplicação. Se são perspicazes, devem ter notado que só identifiquei os títulos da geração passada e, por esta altura, saberão bem onde quero chegar: os jogos da PS3 só podem ser jogados por streaming. Uma escolha peculiar que, quando comparada à oferta da Xbox – sem mencionar o fantástico XCloud –, não atinge, na minha curta experiência, o auge e intenções da marca em tentar elevar o mercado digital nas suas consolas, mas há que justificar a aquisição do Gaikai; quase nove anos depois.

Uma coisa é certa: no que toca ao número de videojogos disponíveis, o PlayStation Now é incomparável. Podemos contra-argumentar que se tratam de videojogos com dez ou doze anos e não lançamentos recentes, de peso, que chegam ao serviço no seu dia de estreia, mas isso seria desvirtuar as ofertas da aposta da PlayStation. Ao todo, temos mais de 700 jogos para experimentar, a partir de 9,99 € por mês, um valor ligeiramente mais reduzido que o Game Pass, mas cujas ofertas não vão além do seu catálogo – fora a possibilidade de jogar, via stream, no PC, não temos acesso a mais extras. Mas são mais de 700 jogos, alguns deles raros, outros perdidos no tempo e até exclusivos e lançamentos mais recentes, ainda que sujeitos a um limite de tempo. O valor, na minha opinião, está lá.

Temos também o lançamento do PlayStation Plus Collection, aquele que parece ser o serviço de passagem entre o PlayStation Now e o que a Sony poderá lançar no futuro. Uma ideia que faz sentido no início de geração, tendo em conta a compatibilidade entre a PS4 e PS5, mas cujo futuro é incerto.

O problema de um catálogo tão extenso é que mais de 50% das ofertas irão passar despercebidas. Apesar da efervescente popularidade da retrocompatibilidade, não acredito que a maioria destes títulos sejam jogados (ou valorizados pelo público) regularmente, mas isso não desvaloriza o facto da Sony se posicionar longe das gerações anteriores. A verdade é que devemos contar com a oferta, seja em que medida for, onde mais vale ter a opção do que não ter. Surge, claro, a discussão sobre os valores de investimento num serviço digital e na aquisição de direitos para videojogos com mais de dez anos, muitos deles criados por estúdios que já fecharam as suas portas, mas é um risco deste mundo cada vez mais dado ao streaming. No entanto, o PlayStation Now poderá posicionar-se como uma forma de salvaguardar os catálogos das consolas anteriores da marca e tal não acontece. Ainda falta algum trabalho pela frente.

Digo isto porque o streaming não me convenceu. A velocidade da minha internet deu-me uma experiência mais estável, sem dúvidas, mas a aplicação continua a ser morosa e a qualidade de transmissão é muito inferior ao que se exige em 2021. Os videojogos perdem a sua cor, a sua definição, e sentimos que se movem com um arrasto irritante que prejudica, pela minha experiência, o tempo de jogo. Não temos, por exemplo, as melhorias que encontramos na Xbox One, Xbox One X e Series, onde os videojogos de gerações passadas recebem, via hardware, melhorias automáticas. Não é esse o propósito do Now, eu sei, e não há sequer um hardware que possa processar os videojogos em tempo real, mas fico curioso para saber qual será a longevidade do serviço se continuar assim.

Os RPG funcionam bem, tais como os jogos de ação, e devo admitir que me diverti mais a revisitar as sequelas de House of the Dead do que a descobrir alguns jogos menos populares da PS3. De facto, existe um pouco de tudo para qualquer jogador, mas fico curioso com a resistência que cada um tem à má qualidade de imagem dos videojogos em transmissão. Para subsistir, é urgente que o PlayStation Now se una ao Plus e que chegue à PS5. Não só trará mais videojogos a um número crescente de novos jogadores, como será uma porta de entrada, uma primeira tentativa, para a geração PS3 chegar à nova consola. É certo que a Sony não se interessa, por agora, em dar aos jogadores a tão cobiçada retrocompatibilidade com todas as consolas PlayStation, mas quanto mais o público exige, mais a marca irá perceber que terá de mudar o seu posicionamento no tema e o Now poderá ser a porta de entrada ideal. Este é, na minha opinião, o futuro do serviço: servir de portal para a retrocompabilidade. E se olharem para o inquérito publicado pela Gamespot (imagem em cima) poderão ver o quanto a comunidade acredita que esse é o passo que a Sony deve dar. Agora é somar um mais um.

Numa era de subscrições e serviços de streaming, o PlayStation Now tenta ser o mestre de dois mundos e acaba por fazer, no máximo, um trabalho competente em ser uma montra pouco consistente das duas últimas gerações. A tecnologia está lá, mas é preciso redirecionar esforços para transformar o serviço num verdadeiro competidor, capaz de oferecer algo que os jogadores não encontrem no mercado físico. É preciso, reforço, apostar na retrocompatibilidade. Mas será esse o caminho da Sony? É o mais lógico, mas resta saber se o Now fará sequer parte da sua estratégia para a nova geração ou se será, com a chegada de um substituto, mais um degrau na longa escada de projetos abandonados. Por agora, joguem House of the Dead III. Vale a pena.

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