PÔR OS PÍXEIS NOS I'S

A Arte de Não Fazer Nada

Antes de entrarem no fim de semana, mentalizem-se que o cérebro também precisa de descansar.

2021 tem sido uma correria. Apesar de estar tão enraizado na cadeira como nunca estive na minha vida, com a pandemia a manter-me em casa e longe de olhares – que me façam perceber o quanto engordei nestes últimos três meses -, sinto que não tive um momento para respirar, para apreciar o silêncio destes tempos de interregno e aproveitar a vida mais doméstica para avançar em livros, filmes e videojogos que ficaram estancados no backlog. Antes pelo contrário, escrevi ainda mais que o normal e senti a pressão de não o fazer, a comichão e o calafrio de ver a página em branco sem uma nova ideia ou análise construtiva. Pressionei-me até ao tutano.

Existe, no entanto, uma enorme arte em não fazer nada, algo que menosprezei desde janeiro. É importante saber parar e relaxar quando sentimos o cansaço a sufocar-nos, e o corpo, e a mente a não responderem como e quando queremos. Respeitemos quem sabe pressionar o travão e afastar-se dos teclados em busca de descanso e de relaxamento em tempos que são absolutamente enervantes e péssimos para o coração. Sinto que perdi esta arte e que existe um antes e um depois da pandemia, mas é importante saber quando atirar a toalha para o chão e dizer: “hoje vou ver um filme”.

Nunca me arriscaria a subir para uma destas camas de rede, mas a inveja é muita.

A pandemia e o teletrabalho vieram quebrar esta noção de descanso em casa, pois não existe um princípio, meio e fim concretos para o nosso dia. Vivemos sobre as mesmas quatro paredes e quando saímos para correr, andar, beber um café (onde aprendemos a palavra postigo, mas não o admitimos) ou ir às compras a rotina diária mantém-se estagnada. É um novo processo, mais longo e difícil de controlar quando estamos fechados num espaço que luta entre o nosso trabalho e o lazer pessoal. No meu caso, o ato de escrever um texto passa a ser quase uma exigência, porque penso que tenho o “tempo necessário para o fazer”, tal como jogar um título para análise. Não há propriamente um escape.

Esta não é a primeira vez que me vejo preso em casa, ainda que não me considere um especialista do trabalho à distância. O meu primeiro teletrabalho, onde senti os efeitos deste enclausuramento que alguns de vocês – colegas e leitores – descrevem nas redes sociais, foi em 2015 quando regressei à equipa extinta da BGamer. As horas de trabalho eram, em si, normais, das 9h às 18h, mas rapidamente percebi que não conseguia desligar-me das funções e da carga laboral que tinha em cima de mim. Comecei a sentir que não devia sequer sair de casa porque podia estar a avançar trabalho, o que se transformou numa espiral sem fundo. Nunca sofri de insónias até 2015. Sempre dormi pouco e tive dificuldades em adormecer, é certo, mas nunca fiquei noites em branco a pensar no que tinha para fazer no dia seguinte. E mesmo nessas noites, onde não dormia um único segundo, conseguia ficar 12 horas a trabalhar sem ninguém saber.

Não estou a sentir o mesmo cansaço, os anos trouxeram-me alguma experiência, mas há sempre a urgência de fazer mais e melhor quando estamos presos em casa. Os livros perdem o sabor, os filmes não conseguem agarrar a nossa atenção e os videojogos são, quase sempre, experienciados num ambiente de trabalho, de crítica. Em 2021, deixei-me levar novamente pela necessidade de escrever e admito que este texto nasceu exatamente dessa urgência enquanto olhava para o Word em branco, vazio e desinteressante. Este texto existe porque me lembrei do título parvo que leram no início. Mas lembrei-me, forcei-me a isso e aqui estamos nós, num exercício metafísico onde exemplifico o problema que nos assola.

Pós-confinamento, a secção de secretárias do IKEA passará a ser uma zona de horror .

Por isso, há arte em não fazer nada. Existe um certo charme em saber quando respirar e saborear o momento em que dizemos “por hoje já chega”. O mundo dos videojogos é uma armadilha enorme, acreditem em mim, porque temos sempre acesso a novas notícias, informações, videojogos para análise e outros projetos (como podcasts, vídeos, etc) que se tornam urgentes devido às exigências deste mundo cada vez mais digital – onde uma notícia tem a esperança de vida de cinco ou dez minutos. É uma indústria que nos acompanha desde crianças, mas cuja ilusão nostálgica rapidamente nos agarra com uma força assustadora, onde nos mentalizamos que não estamos a trabalhar, mas sim a jogar ou a ler notícias – mas estamos a trabalhar. A máquina não para.

Meus amigos, hoje vamos parar. Que se lixem as notícias, as críticas, os artigos de opinião, os vídeos, os streams. Peguem num videojogo e saboreiem-no durante os próximos dias. Deixem o texto em branco e não pensem que deviam estar a escrever, as ideias surgirão. Não sintam, como já senti, que estão a escrever por escrever, sem magia ou entusiasmo: aprendam a não fazer nada durante umas horas. É bom, recomendo. Daria 9 em 10. É também um exercício de autocontrolo. Se o mundo avança para uma maior aceitação do trabalho à distância temos de nos preparar para tudo. Um texto é um texto, mas também é minutos, horas, dias e semanas. Nunca se esqueçam disso.

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