PÔR OS PÍXEIS NOS I'S

A Sony é oficialmente eSports

A Sony comprou o EVO. Se estão a pensar “o que raio é o EVO?”, eu explico: é o principal evento de eSports dedicado exclusivamente a jogos de luta e o mais antigo da indústria. É uma boa notícia para o EVO e para a comunidade em geral, mas nas redes sociais a revelação gerou menos alívio e confiança do que profecias apocalípticas.

E porque este passo da Sony é importante para a indústria e não só para os fãs de Street Figher, Tekken e Mortal Kombat, é importante percebermos o que significa, e para isso é preciso compreender a comunidade, o estado actual dos jogos de luta enquanto eSports e o possível impacto da Sony.

Vamos por partes.

A COMUNIDADE
A Fighting Game Community, ou FGC, é talvez a mais particular da indústria dos videojogos. Esta particularidade é herdada do próprio género. Numa era em que os jogadores competiam entre si batendo pontuações máximas, Street Fighter II pô-los em confronto directo pela primeira vez, criando o conceito que hoje temos de eSports. O torneio que deu origem a isto foi o Battle by the Bay, que em 2002 passou a ter o nome pelo qual é hoje conhecido, Evolution Championship Series. EVO para os amigos. E não tenham dúvidas: os jogos de luta são eSports até ao osso.

Ao longo dos anos 90 e ainda nos 00, o habitat natural da FGC era o salão de arcada – quem alguma vez os frequentou sabe quão intimidantes estes espaços eram. Mesmo com a extinção das arcadas no Ocidente, os jogos de luta mantêm uma faceta offline vincada, com competições locais em espaços dedicados – em Lisboa há, pelo menos, o Gárgula Gaming onde os fãs do género se juntavam semanalmente antes da pandemia. Assim o é, não apenas por causa da fraca experiência proporcionada pela maioria dos títulos online (realidade que está a mudar), mas porque a dinâmica offline acarreta uma componente social fundamental para os jogos de luta.

Ao contrário de outras comunidades eSports, a identidade grassroots na FGC é muito profunda. Os torneios mais prestigiados foram criados por jogadores, muitas vezes em bares e salões de arcada, e fazem por manter esse espírito “dos jogadores para os jogadores”. O EVO não é excepção. Mas se a FGC foi pioneira em mostrar que os eSports tinham futuro, os prémios milionários que muitos associam a este tipo de competições de videojogos simplesmente não são uma realidade para quem compete em Street Fighter, Tekken, Mortal Kombat ou qualquer outro jogo de luta.

E enquanto há esforços para “profissionalizar” os maiores torneios, a comunidade em si assume-se “orgulhosamente pobre”, preferindo manter-se genuína a vender-se aos interesses corporativos. É desta postura que nasce a grande preocupação face à tomada de posse da Sony. Há eventos com prémios mais generosos, mas o EVO é o palco em que os jogadores e as suas façanhas são imortalizados. O medo é que a Sony esterilize o ambiente, que domestique as personalidades dos competidores e torne tudo PG13, e que isso torne impossível momentos como o parry de Daigo contra Justin Wong. Se não sabem o que isto significa, aqui fica um pedaço de história. Podem agradecer depois nos comentários.

A REALIDADE ESPORTS DA FGC
Querer salvar a integridade da Meca da FGC é um sentimento nobre, mas algo fantasioso. Tanto a Capcom como a Bandai Namco têm os seus circuitos oficiais, e os tais eventos “grassroots“, EVO incluído, fazem parte dos mesmos. Para isso têm de cumprir com as regras e exigências das marcas. A “pobreza” da FGC terá raiz noutros factores, como o apelo menos abrangente do género à audiência geral, quando comparado com os MOBA, FPS, Battle Royale ou mesmo FIFA.

A realidade é que torneios como o EVO, Combo Breaker, Kumite e CEO (todos grandes palcos no circuito profissional da FGC) já têm marcas comerciais envolvidas, espaços de venda de merchandise, de roupa a bonecada e todo o tipo de parafernália temática, enquanto as transmissões dos torneios estão repletas de longas pausas para anúncios, e é este conjunto de elementos que torna possível a dimensão destes eventos. Por comparação, Frosty Faustings mantém-se fiel às suas origens e bastante old school, e, apesar de ser contado entre “os grandes”, atingiu um máximo histórico de 1700 participantes em 2019, um pouco aquém dos 11 mil do EVO 2018.

São números modestos na indústria em geral, mas que não se reflectem no nível de produção dos eventos. A verdade é que ao mesmo tempo que os eventos como o EVO cresceram e se mudaram das salas de hotéis, bares e salões de arcada para os grandes pavilhões e arenas, as diferentes áreas de produção (organização de eventos, produção e transmissão, equipas, etc.) cresceram em paralelo, também estas com o cunho de membros da comunidade, hoje capazes de rivalizar com a qualidade do melhor que o eSports tem para oferecer.

Mais do que a organização e a produção, no entanto, são as figuras da FGC que garantem esta identidade muito própria. Tanto os comentadores como os jogadores, as rivalidades que criam, a trash-talk e os pop-offs são ingredientes que fazem da FGC esta experiência crua. É esse o maior medo, que a Sony “regule” os comportamentos e torne o EVO politicamente correcto, não deixando espaço para as personalidades coloridas que criam o hype e alimentam as narrativas da comunidade.

SONY NO COMANDO
As premonições principais dos profetas do apocalipse são: a) a “higienização” da comunidade e o corte com as raízes; e b) controlo cerrado dos jogos com presença no torneio (i.e. só entram jogos com versão PlayStation e obrigatoriamente a serem jogados em PS4/PS5). O site oficial do EVO esclarece parcialmente o segundo ponto: Tekken 7 continuará a ser disputado no PC, onde tem melhor performance, provando que a Sony, mesmo que tenha entretido a ideia de uma hegemonia PlayStation, sabe que estaria a comprar uma guerra.

A grande incógnita de momento é a série Smash, sem dúvida alguma a que move mais público e dinheiro na FGC, mas dado o historial da relação da Nintendo com a comunidade e com os eSports em geral, o mais certo é o atraso na confirmação (e a possível ausência de futuras edições) não ser responsabilidade da própria Sony. Por fim, os irmãos Cannon, co-fundadores do EVO, mantêm-se como consultores do evento, o que garante alguma confiança.

Quanto ao impacto na comunidade em geral, Sony ou não, o elemento grassroots depende da própria comunidade. Muito à semelhança do que se passa no resto da indústria e no resto da sociedade, as lutas ideológicas na FGC (inclusão de género, segurança, diversidade, etc.) estão a abrir caminho para ambientes mais seguros, física e emocionalmente. É um progresso essencial, especialmente tendo em conta os escândalos recentes (entre os quais um dos fundadores do EVO), mas de certa forma incompatível com a identidade actual da FGC.

Há uma linha que separa o aceitável do inaceitável na trash-talk e nos pop-offs e essa linha não é fixa, depende dos intervenientes, do historial e da confiança ou grau de rivalidade. É difícil definir limites, impossível talvez, pelo que é necessário confiar na boa-fé dos envolvidos, arriscar para que continue a haver espontaneidade. Mais difícil ainda é debater estes limites, dado que este progresso, tanto na indústria como na sociedade civil, tem sido marcado pela intolerância dos grupos mais vocais de um lado e do outro. Se o ambiente dos salões de arcada chegava a ser hostil, a censura do “profissionalismo” e do fair play obrigatório são ameaças igualmente reais para a saúde da FGC.

Posto isto, quais são os benefícios em ter a Sony a comprar o EVO? O benefício mais óbvio é para os participantes: melhores condições para os participantes, mais visibilidade, mais segurança para todos e, possivelmente, melhores prémios. Mas os eventos são mais do que os jogadores, são, antes de tudo o resto, as próprias equipas de produção que continuarão a ser essenciais para a organização e transmissão dos eventos. E porque haveria a Sony de substituir elementos de uma fórmula vencedora?

O FUTURO DA FGC
Honestamente, não acho que a Sony vá acabar com a identidade da FGC, muito menos nos escalões competitivos locais e ao nível casual, mas pode ser que desfaça o complexo de pobreza ao mais alto nível competitivo. Desde que há marcas a patrocinarem os eventos que estes estão condicionados, como em 2016, quando Fuudo foi obrigado a mudar o fato da sua personagem (Mika) porque a ESPN, do grupo Disney, estava a transmitir o EVO e não calhava bem ter uma loira a pavoniar-se de fio dental entre os oito melhores do mundo.

Se num futuro próximo os jogos se tornarem esteticamente mais politicamente correctos, o que eu duvido, não será culpa da Sony, da mesma forma que não será a Sony a domesticar a comunidade, mas a comunidade em si. Sim, é espectável que o EVO possa vir a tornar-se mais inflexível para com as personalidades dos jogadores, que os comentadores se vejam mais limitados e com uma lista de palavras e expressões tabus porque dificilmente a Sony quererá arriscar encontrar-se no epicentro de uma controvérsia nas redes sociais.

Mas, ao mesmo tempo, o EVO não é a FGC, e um outro factor que torna esta comunidade tão particular é que apesar da misoginia e da toxicidade online se fazerem notar diariamente no Twitter, Reddit e diferentes fóruns, a verdade é que o mais comum (ainda que faça menos barulho por essa Internet fora) é depararmo-nos com pessoas prontas a dialogar, trocar ideias e ajudar-nos a progredir. Continuará a haver jogadores e comentadores irreverentes e torneios locais livres da influência corporativa e veteranos com vontade de fazer crescer a comunidade e de preservar a componente social que define a FGC.

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