PÔR OS PÍXEIS NOS I'S

A epopeia de um “mau fã”

As contas não mentem: descobri que sou péssimo para séries e jogos que adoro.

O que significa sermos fãs? É sabermos as falas de um filme ou as melodias de uma música? É conhecer todo o reportório de um dramaturgo ou visitar diariamente museus para vermos, ao vivo, os quadros do nosso pintor favorito? Esta questão surgiu quando me apercebi que raramente deposito muito tempo num só jogo ou regresso atrás e repito campanhas que, num primeiro contacto, representaram uma experiência inesquecível. Sim, considero-me fã de séries como Silent Hill e WipeOut, mas não as jogo. Penso e falo sobre estas séries, mas posso contar os anos que passaram entre sessões de jogo. Para séries que considero como importantes, admito que não fazem parte da minha rotina. Provavelmente nem joguei todos os jogos, spin-offs ou media associados. Afinal, serei fã?

Nos videojogos, a ideia de fanatismo e de amor é muitas vezes associada à dependência do tempo. Não são apenas os conhecimentos que retemos sobre um videojogo ou o seu valor emocional que são equacionados, mas sim o número de horas que passamos com um determinado jogo, e se, por exemplo, dominamos as mecânicas, as táticas e todos os pontos narrativos dos nossos títulos favoritos. Se sairmos da experiência a solo, podemos também analisar os jogos online, os MMO e títulos competitivos, que requerem horas de treino e que disponibilizam regularmente novos conteúdos que mantêm os seus jogadores fidelizados. São ideias redutoras que não respondem à questão, pois não valorizam a experiência individual e o que cada jogador presencia e sente enquanto joga, mas quando se trata de um meio tão interativo como a indústria dos videojogos, existe, de facto, o argumento que mais horas representam um maior conhecimento e domínio sobre um determinado jogo.

Existe também uma enorme carga psicológica entre o que nos lembramos de sentir e o que o jogo é na realidade. O tempo muda tudo e muitas vezes é melhor não voltar a repetir certas experiências.

Para mim, isto é assustador. Se o investimento temporal é uma medida de comparação entre ser-se fã ou gostar-se apenas de um jogo, então nunca me poderei considerar como um “fã”. Porquê? Porque não me consigo recordar de um único jogo que tenha jogado e experienciado durante centenas de horas ou de forma regular. Claro que existem jogos que me deixaram absorto, mas estas sessões de jogo foram intensas e muito localizadas. Ao terminar a campanha, raramente regresso atrás ou sinto necessidade de continuar a jogar. Nunca me foquei num MMO ou num título de sobrevivência para sentir, por exemplo, que criei uma rotina em torno de determinados géneros. Foi esta noção que me trouxe a esta análise existencial sobre o meu papel enquanto fã.

Claro que existem videojogos que revisito, como Resident Evil 2 e Dino Crisis 2; experiências rápidas, familiares e que não requerem um grande investimento da minha parte. Mas títulos como Silent Hill 2, ICO ou Inside, que considero, tal como os exemplos anteriores, como alguns dos meus videojogos favoritos, não usufruem da mesma atenção. São experiências inesquecíveis, mas será que me relembro delas enquanto fã? Ainda me recordo de todas as suas particularidades? E porque sinto que me pertencem quando, na verdade, fui eu que as abandonei em prol de jogos novos? Mesmo a série Resident Evil sofre de algum abandono. Não jogo como um fã deveria jogar, não domino as suas campanhas de olhos fechados e muito menos desbloqueei todos os itens, fatos e armas especiais. Tenho as minhas vitórias, é certo, e já conheci o design da Mansão Spencer e da Esquadra de Raccoon City como a palma da minha mão, mas tudo se dissipou. Foi-se. Puff!

Sinto, pelo contrário, que consigo depositar mais horas em jogos que não exigem tanto do meu tempo.

Mais: a ideia de passar centenas de horas com um jogo assusta-me. Apercebo-me que não gosto do conforto da rotina quando aplicada aos videojogos. Não me consigo imaginar a jogar, por exemplo, Minecraft ou Final Fantasy XIV durante horas a fim e através de campanhas, expansões e grinding incessantes. Não tenho um Dragon Ball FighterZ como o Duarte ou um Skyrim como a Vanessa. Mas esta experiência, reforço, é totalmente válida. Não é errado jogarem só um jogo: joguem o que quiserem. A análise aqui reside na forma como me vejo enquanto fã. Não quero chegar a conclusões fortes ou analisar o verdadeiro significado de “fã” a nível académico ou formular mais comparações a outras áreas, mas sim pensar e escrever em voz alta enquanto tento definir como me vejo perante as séries que adoro. No final do dia, falo mais do que jogo.

Penso que é possível reduzir esta falta de investimento em duas partes. A primeira é a minha atenção reduzida, com o cansaço a surgir assim que a novidade desaparece. A segunda parte é um reflexo desse cansaço, no sentido em que vivo ofegantemente um jogo que adoro e que desperta a minha curiosidade. Não só sou capaz de repetir a sua campanha, como escrevo, penso e pesquiso sobre a jogabilidade, os seus temas e todo o processo de produção que levou aquela equipa a criar algo que me marcou. Este consumo é tão voraz que, como podem prever, deixa-me esgotado. Quando sinto que sei e descobri tudo que me interessava, passo à frente. O mesmo acontece com o cinema e a música quando descubro um novo realizador ou género musical que adoro: eu vivo estes amores. No entanto, não consigo ficar parado e a minha pesquisa leva-me quase sempre a novos géneros e experiências que, consequentemente, transformam-se nas novas obsessões. Se equacionarmos também o facto de analisar semanalmente novos jogos, cria-se um ambiente onde sou motivado a seguir em frente e a descobrir novas experiências. Não há tempo para parar e muito menos há paciência para retroceder.

E temos, por mais que nos custe admitir, de equacionar a passagem do tempo através da evolução das mecânicas nos videojogos.

Voltamos ao início: afinal o que é um fã? Infelizmente, tenho de recorrer ao campo emocional para explicar esta relação difícil com videojogos a longo prazo. Independentemente do tempo que dedicamos a um jogo, o que interessa é a experiência que retiramos quando jogamos pela primeira vez e como os seus temas, jogabilidade, banda sonora ou estilo visual perduram na nossa memória. Ser-se fã é o equivalente aos amigos que fazemos pelo caminho. Só terminei Silent Hill 2 duas vezes, talvez três no máximo, mas nada substitui as emoções que senti quando acompanhei James pela sua viagem por Silent Hill e posso dizer com todas as certezas que é o meu jogo favorito. Nunca joguei nada melhor ou tão marcante. O mesmo aconteceu com ICO. Será que sinto saudades destes jogos? Sempre, mas não sei se alguma vez regressarei a eles. Não irei jogar continuamente Silent Hill 2. Talvez se deva ao investimento que é necessário para regressar a um videojogo que nos emocionou ou que influenciou, de qualquer forma, a nossa perceção do que é, na verdade, um jogo. Uma experiência tão pessoal e impactante que, por mais que retornamos e repitamos a campanha, o sentimento perdeu-se.

Como me sinto sem respostas concretas, decidi levar esta questão até amigos e colegas, de forma a dar-vos um olhar exterior. Existem jogos que são presença constante na vossa rotina? E têm o hábito de depositar centenas de horas num só jogo?

Carlos Duarte (Jogatana e Manias): costumo, dentro do que vou jogando em termos de novidades, pular de novo para estes jogos desde os meus 14, 15 anos. Kingdom Hearts, Final Fantasy IX, VII, XII, Witcher III, TODOS OS POKÉMON… menos Sword and Shield.

Rui Mendes (Mau Perder): geralmente gosto de ter metas quando jogo e para mim, são: acabar dito jogo e seguir em frente. Se gosto muito, fico mais um bocado para platinar ou algo equivalente. Mas o objetivo é o mais importante para mim, chegar a uma altura em que me sinto bem a arrumar o jogo. Também não sou nada de multiplayer competitivos, por isso, não tem o hábito de ficar preso a um jogo durante muito tempo.

Filipe Urriça (VideoGamer PT): sim, em roguelikes ou roguelites, ter aquela infinidade de níveis gerados aleatoriamente é algo que garante longevidade e com que eu não me canso para estar centenas de horas agarrado a um jogo. Um dos primeiros jogos a conseguir isso foi The Binding of Isaac.

Tiago Manuel (Cracked): eu jogo poucos jogos, mas gosto de aproveitar os poucos em que pego ao máximo (abomino achievements e trophies, refiro-me a apreciar a experiência). Os jogos a que costumo voltar são os da série Souls, mas também volto “espiritualmente” aos Silent Hill a ver streams no Twitch. O conceito de fã, ou o conceito actual é algo altamente americanizado e nada saudável que só serve para gerar conflito.

Pedro S. (Twitter): já joguei mais há tempos, mas há certos jogos, como o caso da série Civilization, em que entro na zona e estou horas a jogar ao ponto de saltar refeições. Já tive casos em que só parei de jogar Civ quando o meu pai perguntou-me se já tinha jantado.

O reconforto da nostalgia.

E para vocês, o que significa serem fãs?

Carlos: na minha perspectiva, a ligação emocional. Só consigo acompanhar e tornar-me apaixonado por obras que mexeram comigo a nível pessoal, não necessariamente pela sua qualidade intrínseca, mas pela forma como me revi nelas.

Rui: tinha 15 anos quando vi Apocalipse Now! pela primeira vez e odiei-o com todas as minhas forças. Já era fã do Coppola pela trilogia O Padrinho. Anos mais tarde, revi o filme e foi uma experiência religiosa. São demasiado factores. Predisposição emocional é uma delas.

David Fialho: São as emoções.

Filipe Urriça: sentimentos de profundo entusiasmo com algo que nos preenche um certo vazio que temos em nós.

Tiago: o conceito de fã, ou o conceito actual, é algo altamente americanizado e nada saudável que só serve para gerar conflito.

Pedro: ser fã de videojogos significa “eu gosto disto e isto anima-me”. O resto é apenas peanuts.

É preciso descaramento para escrever um texto sem uma direção ou finalidade pré-definidas, mas aqui estamos nós. Eu e vocês, caros leitores, ao fim de várias ponderações que continuam sem respostas concretas. No entanto, argumento que a resposta sempre esteve à vista e mais acessível do que aparentava ser: sejam fãs à vossa maneira. Não se preocupem com o que os outros pensam. Não se pressionem a jogar mais horas porque têm de justificar o vosso amor por um jogo. A experiência será sempre a vossa e só vocês saberão o que um jogo significa para vocês. Não sabem tudo sobre uma série? Nunca jogaram os títulos todos? Não interessa. É nisso que quero acreditar quando tiro o chapéu de crítico e liberto-me da ideia de que sou um mau fã. Sem pretensões, pressões de fãs ou obrigatoriedades.

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