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Vieram do Itch.io – ANGER FOOT, SPOOKWARE & Caim

Um ritual de passagem para quem acaba de adquirir um novo PC.

Como recém-chegado à cena no PC, arrisco-me a dizer que estou perdido. Não sei para onde me virar e por onde começar. O lançamento sucessivo de novos videojogos é suficiente para assustar, é imparável, e a cada semana sinto que existe, quase sempre sem falhar, um novo título de culto. Numa semana, temos, por exemplo, Cruelty Squad, da Consumer Softproducts, um Immersive Sim banhado no cinismo da nova arte digital e na crítica ao consumismo/corporativismo que conquistou lenta, mas seguramente a internet com o seu estilo berrante, mas também com a sua jogabilidade sistémica e profunda. Por onde começar? E onde estará o próximo Cruelty Squad?

É como um vírus no Windows 98, mas com um cinismo ainda mais apurado.

Foquemo-nos, portanto, no epicentro das criações independentes. Talvez não seja a melhor plataforma de exposição – ainda que não me recorde de outra –, mas o Itch.io tem conquistado o seu lugar na indústria ao dar aos produtores independentes – e aos jovens estudantes – a possibilidade de partilharem e venderem os seus projetos. Sejam videojogos mais completos, apenas experimentais, puramente mecânicos ou narrativos: se criaram, o Itch.io permite-vos expo-lo.

Com esta abertura de plataforma, cria-se, portanto, um novo mar de lançamentos sem fim. O problema mantém-se. No entanto, o foco numa só plataforma e nos projetos independentes permite-me, gradualmente, descobrir alguns videojogos que merecem destaque, ora pela sua estética, ora pelo foco mecânico. Há muito para descobrir na indústria, tal como em Portugal, e é por esse motivo que me lanço – sem periodicidade, fica o aviso – no Itch.io para partilhar convosco os projetos mais interessantes e empolgantes que passaram pelo meu PC.

ANGER FOOT

Com apenas dez níveis, ANGER FOOT é um exercício em minimalismo, estilo e foco. A ação frenética é enaltecida pelo design claustrofóbico dos cenários – que se resumem a salas e a corredores apertados – e por uma banda sonora imperdoável, que se constrói na percussão forte e nos tons estridentes de estilos como Hard Bass, criando uma experiência na primeira pessoa que é quase um pesadelo febril. No entanto, é igualmente simples, focando as suas mecânicas num pontapé, com o qual podem abrir portas e eliminar inimigos, e nas opções de disparo e de arremesso das armas, mas utilizando um sistema muito próximo do que vimos em Hotline Miami, onde recomeçamos a partida em meros segundos e somos eliminados com um ou dois golpes.

A comparação a Hotline Miami é gratuita, eu sei, mas é uma forma rápida e acessível de compreenderem o que vos espera em Anger Foot. Robbie Fraser, Luc Wolthers e Jason Sutherland estão de parabéns por nos trazerem um projeto tão limado e estruturado em torno da simplicidade, destacando assim a sua arte colorida e os modelos bastante animados destes rufias antropomórficos – que, já agora, dançam quando somos derrotados. Se estão fartos da experiência tradicional dos jogos de ação na primeira pessoa, experimentem ANGER FOOT: podem apoiar a equipa com um valor simbólico ou descarregar gratuitamente o jogo através da sua página.

SPOOKWARE

No ano passado, escrevi sobre as minhas eternas saudades pela série WarioWare e a sua aposta em minijogos simples, mas divertidos que apostam não só na destreza dos jogadores, mas também na sua rapidez e pensamento rápido – tal como uma certa __ pelo raciocínio lógico. Estava, no entanto, longe de saber que os produtores independentes já tinham decidido fazer o que a Nintendo se recusa a fazer, ainda que sobre os seus próprios moldes. Assim surge SPOOKWARE, uma homenagem à série protagonizada por Wario, mas com um foco numa estética de horror.

SPOOKWARE funciona como qualquer WarioWare. A estrutura, aliás, mantém-se inalterada e coloca-nos numa corrida através de vinte níveis, compostos por dez minijogos diferentes, onde a velocidadeaumenta à medida que nos aproximamos do final. Com três vidas disponíveis, existe um longo e estranho período de habituação que nos levará a recomeçar as partidas várias vezes até percebermos como funcionam cada um dos minijogos. Tal e qual WarioWare.

Os minijogos são divertidos e refletem a sua estética de horror, incluindo referências a filmes de zombies, de vampiros (com uma fotografia do Conde Orlok, de Nosferatu) e outros clichés do género. É um projeto tão divertido como frustrante e alguns minijogos, como o rapto de vacas – onde controlamos um OVNI –, podem ser uma dor de cabeça por requererem movimentos muito específicos, que contrastam negativamente com o tempo reduzido de cada partida. Talvez sejam só pormenores, mas precisarão de alguns minutos para se habituarem ao ritmo.

SPOOKWARE conta já com uma sequela, disponível em Dread X Collection 3, e pode ser jogado através do Itch.io, onde têm, à semelhança de ANGRY FOOT, a possibilidade de adquirirem o jogo gratuitamente ou por um valor simbólico.

Caim

Apesar de estar relegado ao final da lista, Caim, criado pela equipa Saboteurs durante o Mad Game Jam 2021 – onde foi consagrado vencedor –, foi o motivo pelo qual decidi criar esta rubrica. Não o digo por ser português ou por algum patriotismo desmedido – na verdade, ser-se português é gostar de se ser português quando alguém critica um conterrâneo –, mas sim por revelar o quão importantes são estas plataformas de distribuição. Sem algum conhecimento através das redes sociais e sem a possibilidade de descarregar facilmente este projeto, Caim poderia nunca ter passado pelas minhas mãos. Isto é assustador. Quantos mais jogos portugueses ficam perdidos anualmente? Será que produzimos mais do que pensamos? Quero respostas.

Mas voltemos a Caim. A minha recomendação recai sobre o ambiente do jogo, a sua estrutura repetitiva (não vou fazer mais comparações gratuitas, não se preocupem) e os momentos pontuais de interatividade que se moldam em puzzles acessíveis e intrigantes – como a melodia de piano que temos de reproduzir. Infelizmente, reparo num certo cliché das produções nacionais sob a forma de uma narração que quer não só injetar alguma exposição aos temas do jogo, mas também dar-lhe uma profundidade filosófica que pode ou não ser propositada (talvez seja tudo uma piada, quem sabe). Há, portanto, um gosto pela filosofia e a culpa não é de Caim: como disse, há um padrão e há também uma intenção.

A equipa também venceu menções honrosas nas categorias de arte, conceito e originalidade.

Vou ficar atento aos projetos dos vários membros desta equipa e quero ver muito mais. O meu coração foi arrebatado assim que vi, em Portugal, um projeto com visuais próximos de jogos de 32 bits e com texture warping incluído para um maior realismo (e com isto não digo que é o único, deem-me tempo). Infelizmente, tenho de admitir que não o terminei, não porque me aborreci, mas devido a um erro no meu PC, que não quis correr Caim até ao fim. Após recomeçar várias vezes, tive de desistir. Se tiverem o mesmo problema, por favor, comuniquem para não sentir que o meu novo PC odeia jogos portugueses.

Como nos exemplos anteriores, Caim pode ser descarregado gratuitamente ou por um valor simbólico através da sua página no Itch.io.

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