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INDIE² – Fights in Tight Spaces & Kill it With Fire

Espaços fechados e aranhas - assim é o mundo dos indies!

O regresso ao mundo dos jogos independentes foi, infelizmente, várias vezes adiado, mas chegou finalmente a hora de acordar o nosso INDIE². Na primeira edição de 2021, não podia ter escolhido dois jogos mais distintos: o primeiro, um roguelike focado em combates por cartas, e o segundo, onde interpretamos o papel de um exterminador de pragas. O que têm em comum? Nada, mas no INDIE² vale tudo!

Fights in Tight Spaces

O género roguelike não é o mais original. A fórmula mantém-se inalterada desde a sua conceção, com a aposta na dificuldade e no recomeço sempre que somos derrotados, no progresso apagado entre campanhas e no foco na forma como os jogadores aprendem as suas mecânicas e as exploram – para contornar os desafios mais acentuados dos seus mundos pouco ou nada acessíveis – a construirem os alicerces desta experiência. Esta é a base. No entanto, continua a ser refrescante perceber como é, em simultâneo, maleável ao ponto de ser adaptada para qualquer formato, seja um jogo de plataformas, um dungeon crawler ou um metroidvania. É neste contraste entre a rigidez do seu conceito e a sua adaptabilidade a outros géneros que nascem títulos como Fights in Tight Spaces, da Ground Shatter, que chegou finalmente à sua versão Early Access.

Apesar de ainda não estarmos perante a sua versão final, Fights in Tight Spaces é um olhar interessante sobre a fórmula dos roguelikes. A aposta no recomeço continua presente, mas a ação é representada por um sistema de cartas onde cada movimento, ataque ou defesa é representada por uma carta específica que temos de colocar em jogo. Os níveis são curtos e estão literalmente focados em espaços muito fechados – naquele que poderá ser um dos títulos mais literais destes anos –, compostos por cenários pintados de branco com modelos e assets básicos, mas que fazem sobressair as personagens do jogo, desde o nosso agente secreto aos vários inimigos e rufias que encontramos nas zonas.

A campanha divide-se em vários níveis que, por sua vez, são estruturados em torno de várias zonas distintas. Cada zona representa um combate, que é protagonizado por um leque de adversários que se complementam perfeitamente – como o rufia que ataca com armas de fogo ou com canos, tal como o adversário que tem a habilidade de contra-atacar sempre que o jogador ataca um dos seus companheiros –, onde temos a possibilidade de mover-nos por grelhas e eliminar todos os inimigos à nossa volta. Quando vencemos um combate, somos avaliados pela nossa prestação, como o número de turnos que realizamos e o dano que sofremos, e recebemos dinheiro em troca. Depois, regressamos a um mapa muito simples onde podemos escolher a próxima fase. Como a campanha apresenta ramificações, isto significa que existem zonas que nunca visitaremos num primeiro contacto, o que irá motivar os mais curiosos a realizar novas tentativas. É um sistema muito visto, pouco original, mas que cumpre a sua funcionalidade ao manter os jogadores concentrados nos combates e não tanto na progressão.

Não é um jogo fácil, mas a vossa irá mudar se apostarem na organização e construção do baralho de cartas.

Na verdade, Fights in Tight Spaces é mais um roguelite do que uma experiência próxima da vertente mais extrema do género. Apesar de ser difícil – e talvez seja um problema meu, mas é um dos mais desafiantes que joguei este ano –, existe de facto uma progressão passiva e ativa ao longo da campanha. O nosso agente não evolui de níveis e nem ganha poderes especiais, mas temos a oportunidade de desbloquear novas cartas à medida que avançamos na campanha. Esta aposta serve para cortar alguma da dificuldade do jogo, mas não o suficiente. O desafio continua a ser acentuado e mecânicas como o número de turnos, a stamina, o número de cartas e o seu shuffle, que são influenciados por cartas de estado – isto é, cartas que representam feridas que não podem ser descartadas ou utilizadas –, tal como a ausência de uma forma de recuperar pontos de vida sem ser em zonas específicas de cada nível (como o ginásio), tornam a experiência numa verdadeira luta contra o destino – sendo que o destino é morrermos 100 vezes.

Não sou experiente com sistemas de cartas, algo que me condiciona em Fights in Tight Spaces, mas senti, nesta versão em Early Access, que existe ainda a possibilidade de reequilibrarem a dificuldade através do número de inimigos em campo. Adoro, no entanto, a ideia de estarmos fechados num espaço curto e rodeados de adversários, com o jogo a motivar-nos a utilizarmos as paredes como ataques adicionais (podemos realizar ataques especiais e empurrar os inimigos contra as paredes) e a sermos mais estratégicos na abordagem a cada combate, mas parece faltar algo. A fórmula cansa em pouco tempo e deixei de sentir que eram confrontos estratégicos e sim de resistência. Será esse o objetivo? Se é, então precisamos de uma nova abordagem à longa lista de zonas entre níveis.

Estou, sublinho, a falar de uma versão incompleta. A Ground Shatter vai continuar a trabalhar em Fights in Tight Spaces e a adicionar mais elementos à medida que lima a base que apresenta neste lançamento em Early Access. Não saí convencido, não por problemas graves no jogo em si, mas pela experiência que se propõe a dar aos jogadores, com a dificuldade – admito – a apanhar-me finalmente. Não sou uma pessoa dada à estratégia e este roguelike tem uma aposta forte no posicionamento da personagem e no controlo de grupos de inimigos, algo que, pelas minhas horas com o jogo, foram o suficiente para me derrotar. Portanto, não é uma recomendação, mas se procuram algo no género com um toque especial, talvez Fights in Tight Spaces seja o que procuram.

O código para antevisão foi cedido pela Evolve.

Kill It With Fire

Depois de uma estreia no PC, o único (presumo) simulador de exterminador de aranhas acaba de infestar as consolas. A premissa é simples: eliminem todos os bichos de oito patas e completem vários objetivos à medida que avançam pelos níveis e desbloqueiam novas armas e acessórios para se tornarem nos melhores exterminadores do mundo. É uma ideia simples que se mune do seu sentido de humor para criar uma experiência que funciona em sessões curtas de jogo. Só não esperem, em momento algum, que será mais que aquilo que é: uma ideia simples.

Kill It With Fire é um jogo divertido que não tem nenhuma intenção de ser mais profundo do que o seu conceito sugere. Com várias armas à nossa disposição, desde espingardas a latas de spray, somos transportados para níveis fechados, que muitas vezes se resumem a casas e às suas divisões, onde temos de procurar aranhas escondidas e eliminá-las. A perspetiva na primeira pessoa ajuda a criar uma sensação de perigo e tensão enquanto abrimos e fechamos gavetas ou reviramos objetos em busca dos arrepiantes aracnídeos – ainda que se foque no humor. Esta interatividade inesperada, no sentido em que é possível mover e quebrar praticamente todos os objetos dos níveis, dá ao jogo uma maior profundidade e cria também cenários onde podemos, por exemplo, utilizar vasos, almofadas ou molduras para matar as criaturas se quisermos ser mais criativos.

Com um total de nove níveis, a estrutura de Kill It With Fire raramente evolui ao longo da campanha. Temos sempre um leque de objetivos principais e secundários para concluir, muitos deles cómicos, e ainda desafios adicionais, como uma corrida contra o tempo, para aqueles que quiserem completar tudo a 100%. Os níveis não são muito extensos, mas com a aposta na interatividade um simples quarto acaba por se tornar num desafio por si só. A progressão reflete esta aposta nas salas individuais ao obrigar-nos a eliminarmos um número específico de aranhas antes de ter acesso a novas divisões das casas. Desta forma, não só conheceremos melhor cada recanto do cenário, como estaremos mais aptos para apostar nos objetivos secundários à medida que encontramos novas aranhas.

A sua simplicidade torna-o acessível, ainda que a duração seja, infelizmente, limitada no que toca aos desafios que proporciona aos jogadores.

Preparem-se, no entanto, para caçarem muitas aranhas, pois o jogo nunca evolui para além desse objetivo. Os níveis giram em torno desta peste e desafiam os jogadores a encontrarem novas formas de a eliminar, com o leque variado de armas a servir para qualquer situação em que se encontrem. As armas funcionam muito bem entre si, dando aos jogadores a possibilidade de matarem as aranhas à distância ou com ataques físicos, tal como a possibilidade de as atrair para armadilhas através de pequenas bolas de queijo (e sim, isto é real). Como seria de esperar, podem desbloquear ainda armas ao completarem os desafios adicionais, algo que vos motivará a explorar a fundo os níveis deste jogo.

Não existe propriamente um limite de tempo ou um ritmo acelerado em Kill It With Fire e no geral, é uma experiência muito meditativa. A exploração é limitada, mas a jogabilidade é sempre responsiva e não existem entraves à deslocação entre divisões, ainda se sinta alguma rigidez nos controlos. Os problemas surgem na repetição do jogo, que se foca na descoberta e na eliminação das aranhas. Mesmo com novas armas, a fórmula mantém-se imutável e revela que vive muito mais da piada do que das mecânicas. O sistema de mira também é muito limitado, prejudicado ora pelo tamanho das aranhas, ora pela eficácia das armas – e se querem uma sugestão, apostem sempre no spray. A variedade de aranhas dá, de facto, uma certa energia aos níveis e Casey Donnellan, o produtor, quis incentivar-nos a repeti-los ao dar-nos objetivos secundários, mas sentimos que vimos tudo ao fim de poucas horas. É uma pena.

No entanto, Kill It With Fire terá certamente os seus fãs e as suas mecânicas funcionam suficientemente bem entre si para justificarem o seu preço reduzido: desde que joguem em curtas sessões. Não é um jogo para passarem horas a fim, mas tem um elemento muito próximo dos jogos de arcada que pouco ou nada se leva a sério. É um conceito simples que é levado ao extremo; até mesmo ao desnecessário. Mas está lá, funciona e é divertido durante as primeiras horas. E o que mais podemos pedir?

A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (PS4) foi cedido pela tinyBuild Games.

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