ESPECIAIS

Espera aí, afinal isto É um jogo! Ou Como adaptar videojogos sem dizer nada

Neste especial, arrancamos numa viagem pelo mundo das adaptações não-oficiais para descobrirmos que afinal todos os filmes são inspirados em videojogos.

Por: Tiago Manuel

A continuada necessidade de adaptar videojogos ao cinema foi, para mim, o fenómeno mais incompreensível da indústria cinematográfica durante muito tempo. Não concordam? Façamos um jogo:

O podcast Isto Não É Um Jogo é:

a) Um podcast sobre adaptações de videojogos ao cinema que fracassaram incrivelmente.

ou

b) Um podcast sobre adaptações de videojogos ao cinema independentemente da qualidade das mesmas.

A resposta correcta é: impossível saber. Mesmo que o podcast tentasse ser o b), não há uma única adaptação triunfante, ou várias boas o suficiente para poderes fazer um podcast que não seja o a). Eu gosto bastante de me rir com o podcast, mas a taxa de 0% de sucesso num género que já esteve mais longe de ter uma centena de filmes é muito suspeita.

A qualidade da escrita da maior parte dos videojogos continua a ser fraca, sim. Mas isso não advém do facto de quem escreve ser necessariamente mau escritor. Hoje em dia, os videojogos de maior sucesso – ou aqueles mais estatisticamente vulneráveis ao crime da adaptação – empregam guionistas mais talentosos que aqueles que ganham Óscares em Hollywood. Sim, originalmente escrevi “tão ou mais talentosos”, mas depois lembrei-me que o gajo que escreveu esta porcaria recebeu 92 prémios pela sua escrita, um deles sendo um Óscar.

Enquanto que gajo que escreveu isto…

… recebeu menos 92 prémios que o de cima. Acho que não estarei a surpreender ninguém ao dizer que os videojogos também já conseguem visuais impressionantes (muitas vezes mais impressionantes que os filmes também, oops), que podem facilmente ajudar os realizadores a perceber a estética desejada. Mas – como podemos constatar – isso não acontece.

Porquê? E como é que, ao invés abrirem porta a um novo público e de darem aos já fãs uma extensão daquilo que já gostam, criminosos como o Paul Anderson (deixo-vos descobrir a qual dos dois realizadores com esse nome me refiro) criaram um género que só traz divertimento a monstros como eu, que se divertem a ver o Canelo e co. a dizerem a eles próprios que têm um podcast humorístico, quando, na verdade, têm é uma terapia de grupo contra o trauma.

E eles merecem melhor que isso. E esse melhor existe. Existem boas adaptações de videojogos para cinema, mas esse facto nunca é revelado. O problema é que os videojogos ainda são vistos como uma forma de arte menor, e, quando surge o momento para fazer uma boa adaptação para cinema, ela sofre um rebranding em que qualquer ligação ao jogo é apagada e publicitada como “algo totalmente original”, com o inegável contributo dos videojogos para a arte a manter-se esquecido.

Vou falar sobre vários exemplos que considero que não existiriam sem a influência directa de videojogos, e vou deixar outros exemplos visuais e de história que o demonstram. No final, a decisão entre acreditar em mim ou notificar a agência internacional contra as teorias da conspiração sobre o perigo que represento é vossa.

300 roubou 300 coisas a God of War

O filme 300 é uma adaptação da novela gráfica do mesmo nome, mas a minha primeira teoria da conspiração defende que o “estilo Zazk Snyder”, ou seja, o slow-mo de 300 – e quase todo o filme, já agora – foi roubado a God of War. Zack Snyder é um Gamer™ assumido e uma pessoa sem qualquer noção de nuance ou originalidade ainda por assumir. É assim tão difícil acreditar que ele encontrou a inspiração que precisava para o movimento dos seus Espartanos no primeiro jogo com Espartanos que encontrou?

Eu poderia continuar a falar, mas acho que uma comparação directa leva mesmo a crer que…

… o Snyder quer ser…

… apanhado pelos seus crimes…

O castigo decidem vocês, que eu nunca vos tentaria manipular.

Já em relação ao slow motion, que dizem ser “A marca do Snyder”, acho interessante que God of War não só utilize a câmara lenta nos vídeos vistos anteriormente, como até mesmo ao nível da jogabilidade. Isto é visto quer na forma como o jogo forçava quebras de frames no contacto com inimigos para prevenir quebras indesejadas…

… quer neste ataque que envolvia um efeito lento mesmo que não estivéssemos a bater em ninguém.

Ok, este era simples. Agora preparem-se porque é aqui que as coisas começam a ficar estranhas.

Captain America: Winter Snake

Metal Gear Solid pode ter reinventado a roda para os videojogos, mas a trama da série chega a níveis de parvoíce tão elevados que quase parece uma paródia de uma adaptação a jogo de um filme que não existe. Os irmãos Russo da Marvel aparentemente acharam o mesmo que eu, e desconstruiram a saga para conseguir um melhor todo. O resultado chama-se Captain America: Winter Soldier.

Tanto Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty, como Winter Soldier começam com uma suposta situação de reféns que se revela apenas uma tentativa de encobrimento de uma conspiração.

Ambas as conspirações envolvem uma inteligência artificial. Em Metal Gear Solid 2, a AI é representada através de codec, um sistema de comunicações onde a pessoa com quem falamos aparece pintada a verde. Em Winter Soldier, a AI é convenientemente representada por um nazi cuja consciência foi uploadada para uma televisão que, por alguma razão, só tem a cor verde.

Em ambos os casos, a AI quer tomar conta do mundo. Do lado MGS, os maus têm um porta-aviões submergível, enquanto em Winter Soldier têm um porta-aviões que voa. Sim, a S.H.I.E.L.D e a sua base voadora são mais antigas que MGS, mas nunca foram utilizadas desta forma.

O próprio Winter Soldier (criado em 2005) tem uma história surpreendentemente parecida ao Cyborg Ninja de MGS. Ambos são amigos do protagonista e foram capturados e modificados pelos vilões para voltarem lixados da cabeça.

Até o vilão de MGS, Liquid Snake..

… tem um papel bastante semelhante ao da personagem de Robert Redford, pois ambos fingem-se de bonzinhos para obterem os códigos necessários para dominar o mundo, ou lá o que é.

Este não é o Robert Redford do filme, mas esta foto faz o meu argumento muito mais credível.

É também sabido que MGS2 era para terminar com o porta-avião dos mauzões a entrar por Nova Iorque adentro, destruindo vários edifícios, mas a cena foi cortada por causa de uma coisa que aconteceu um pouco antes do lançamento do jogo.

Imagem roubada aos Patriots.

Em 2014, felizmente, já ninguém se lembrava disso, portanto não se achou de mau gosto um terceiro acto que consistia em vários porta-aviões a colidirem contra mais que dois prédios.

111 de setembro.

Nick Fury é também uma personagem muito mais antiga que Big Boss, mas como ambos usam uma pala no olho, os Russo acharam que seria giro que ambos fingissem a própria morte e que a cena final do seu jogo/filme fosse com eles num cemitério a ter uma conversa com a personagem principal.

Captain America: Snake War

Captain America: Civil War é um filme completamente original – pelo menos até ao final. Sim, durante dois terços do filme mataram as minhas esperanças de ver mais MGS, para depois me darem um remake da cena final do primeiro jogo. O herói a unir forças com o seu amigo (Ninja/Soviético) numa base militar gelada contra um gajo a usar um “Gear de Metal”. Enquanto via o filme, pensei: “OK, pode ser só a maior coincidência de sempre” e “certamente que não vai acabar com Iron Gear ou lá o que é a cortar um braço ao Winter Soldier com um laser enquanto ele se sacrifica para dar uma oportunidade ao Capitão América, certo?”

Eu, quando o filme acabou:

O que é uma boa adaptação?

Perguntem-me a mim e eu digo que devemos deixar as coisas no meio para o qual foram criadas. Mas, se precisarem mesmo de fazer uma adaptação para receber todos aqueles doces dinheiros de Hollywood, o melhor que têm a fazer é mesmo afastarem-se ao máximo do copy paste.

Quero agora que pensem naquela que acham ser a melhor adaptação já feita. Não tem que ser jogo-filme ou filme-jogo. Vale tudo: BD-filme, novelização de filme, filme-série, telenovela-podcast, fanfic de Harry Potter – novela da tvi. E agora que vos dei todas as hipóteses possíveis, vou meter a vossa adaptação preferida contra a minha e ver se vos consigo convencer não só que a minha é melhor, como também sobre a fórmula de bem adaptar.

Na minha humilde opinião, a melhor adaptação já feita é a de Dune. É agora que gritam o nome da vossa escolha contra o ecrã, pensando não só que ganharam como também que fizeram uma boa figura. Calma. Não estou a falar da versão de David Lynch, nem das séries de TV. A melhor adaptação saiu em 1977 e chama-se Star Wars. Sim, é verdade. George Lucas pegou no conceito, tirou tudo o que não via a resultar no cinema e meteu coisas muito mais fixes que sabia que iriam distrair as pessoas.

E há que respeitar a audácia de um bom ladrão. Até o próprio planeta continua lá, agora chamado Tattooine. As especiarias foram substituídas pelo Cristianismo do espaço e as minhocas gigantes por minhocas laser. O upgrade foi tão bom que nem os haters se lembraram de perguntar: “desculpa lá, porque é que tanta gente escolheu viver neste planeta de merda?”

Quem não foi enganado foi Frank Herbert, autor de Dune, que enviou uma carta a George Lucas, que se resumiu a “eu vi o que fizeste E NÃO GOSTEI NADINHA“. A adaptação de Lynch estava condenada desde o início. O problema não era ser um livro impossível de filmar, como diziam os fracos, mas pertencer a um género e época em que acabaria sempre comparado a Star Wars. Ao contrário da versão de Lynch, inevitavelmente preso às intransponibilidades de um livro, o “Dune de Lucas” é, para todos os efeitos, cinema puro.

Em 2020, a Disney decidiu homenagear Dune discretamente. Num dos episódios da série The Mandalorian (não perguntem qual, são todos o mesmo), mostraram que agora também há minhocas em Tattooine:

OK, peço desculpa pelo tempo a falar de não-jogos, mas é um exemplo que introduz demasiado bem o tema para ser ignorado. Como muitos ainda não olham para os jogos como uma forma de arte legítima, os poucos que percebem que eles o são podem utilizá-los como “fonte de inspiração” para fazer adaptações prontas a vender como se fossem originais.  O fenómeno da “adaptação secreta” está ainda mais presente no mundo dos videojogos e leva a situações bastante caricatas.

A adaptação que estão a fazer de The Last of Us para a televisão vai ser um “Dune à Lynch” porque já existe num formato com o qual a Netflix não pode competir: Logan.

Esta nem requer grande explicação. As semelhanças são tantas que parece que o realizador perdeu a única cópia do script original de Logan e só tinha a história de The Last of Us memorizada quando foi para a reunião com os executivos. Na reunião, ninguém suspeitou, portanto, foram buscar também as personagens, os visuais… sim, porque até o raio dos cabelos e barbas do Wolverine mudaram para que ele ficasse mais parecido ao Joel que ao próprio Wolverine.

Isto…

… parece-se muito mais com…

… do que com um Wolverine a sério.

Ao menos não tentaram sequer esconder.

Chegámos agora ao caso mais interessante de todos, àquele que penso servir como prova definitiva que a adaptação como mero casulo de transformação da obra original é um caminho muito mais interessante. A minha adaptação favorita de um filme a jogo é Matrix. Não, não me refiro a Enter the Matrix e muito menos a Path of Neo. Refiro-me a Max Payne. Aquele jogo aconteceu porque alguém num pequeno estúdio Escandinavo viu Matrix e perguntou-se “hum, que partes disto é que eu tenho que cortar para tornar isto num bom jogo?” E depois teve a coragem de aceitar que era TUDO menos aquela parte em que as balas ficam lentas.

As cenas altamente coreografadas foram ignoradas para se focarem nos tiros, Keanu Reeves foi substituído por um actor a sério e o ambicioso plot sci-fi misturado com filosofia ao nível do ciclo preparatório foi substituído por uma história de vingança simples misturada com film noir ao nível da escola primária. Lendo esta descrição, parece uma porcaria, mas o resultado final é algo que – como devem saber – só se percebe quando se joga. Max Payne foi adaptado ao cinema não só oficialmente, mas também em formato contrafeito. Imaginem qual dos dois saiu melhor.

Em Max Payne oficial, as revolucionárias cenas de tiros foram substituídas por… cenas de tiros que já não interessavam a ninguém em 2008. O actor a sério foi substituído por um gajo de 40 anos com voz de adolescente e a história de vingança simples decidiu que precisava de demónios que raptavam toxicodependentes. Sim, a sério. Já para a versão não oficial, a que chamaram John Wick, criaram as melhores coreografias de Gun-fu já vistas em Hollywood, substituíram Keanu Reeves por outro Keanu Reeves, que já sabe representar, e mataram um cão. Resultado: glória inquantificável.

Há uma teoria de fãs que defende que John Wick se passa todo em Matrix. Essa teoria é estúpida e esses fãs devem procurar terapia. A simples realidade é que John Wick não deixa de ser uma adaptação de Matrix – ou Matrix é o pai de John Wick (e Max Payne é a sua mãe). A escolha é tua.

Para concluir, devo advertir que nem todas as adaptações secretas vão ser boas. Aliás, o mais provável é que a maior parte também seja lixo. O melhor exemplo disso é o ripoff de Five Nights at Freddy’s com o Nicolas Cage, que certamente levou menos tempo a fazer do que este artigo levou a escrever.

Tiago Manuel escreve teorias da conspiração sobre videojogos em sites, como Cracked, e no seu Twitter. Sigam-no para mais análises às particularidades (leia-se, manhas) das indústrias dos videojogos e do cinema.

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