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Nightmare Reaper – Um bom pesadelo

Mais um excelente jogo em Early Access que merece a vossa atenção.

Não quero, de todo, criar o hábito de fazer trocadilhos nos títulos dos meus artigos e muito menos quero dar-vos a entender que só sei escrever sobre minimalismo, um movimento, que, admitidamente, respeito do fundo do coração, mas cuja presença na minha escrita, em especial neste início de ano, tomou a forma de uma piada recorrente e pessoal. Quebremos então as amarras de estilo e dos clichés para falar sobre Nightmare Reaper, um jogo ainda em desenvolvimento que me conquistou com a sua simplicidade e irreverência.

Vivemos tempos de bonança, de lançamentos de largas produções, mas também de apostas crescentes nas criações independentes. Temos, felizmente, o regresso aos criadores de quarto, tal como nos anos 80, e é através destas mentes em ebulição que surgem alguns dos projetos mais intrigantes e mecanicamente empolgantes dos últimos anos. No caso da Blazing Bit Games, e do seu Nightmare Reaper, não é a novidade que surpreende, mas sim a sua capacidade em conciliar dois géneros distintos, mas sempre familiares, numa campanha assente na repetição, no progresso e nas batalhas por arenas.

Para todos os efeitos, Nightmare Reaper é um jogo de ação na primeira pessoa com uma estrutura inspirada nos roguelikes. A nível mecânico, à exceção de um ambiente mais sistémico, bebe deste revivalismo dos FPS dos anos 90, ou Boomer Shooters, como agora lhes chamamos, onde a narrativa é relegada para segundo ou terceiro plano, com a jogabilidade, o level design e o posicionamento cruel de inimigos a serem os destaques. A protagonista, que se encontram internada num hospício, pode usar duas armas, apesar de conseguir colecionar muitas mais por nível (e conseguir aumentar o seu número ao longo da campanha), com dois modos de disparo – em alguns casos, acompanhados por habilidades únicas, como uma corrente que nos permite navegar pelos níveis à medida que cortamos tudo com uma motosserra -, saltar, agarrar e atirar objetos: esta é a sua base clássica e intemporal.

No entanto, este jogo de ação vai mais longe e tenta combinar, interligada por uma estória muito pouco presente, uma campanha fragmentada por zonas, cada uma com três níveis, e um design procedural para cada masmorra. Em todos os sentidos, é um roguelite, ainda mais assente na vertente light, não fosse o seu progresso fixo e imutável de nível para nível, onde não regressamos ao início de cada campanha e todas as melhorias da nossa personagem não são eliminadas – apenas as suas armas adicionais e dinheiro conquistado durante o nível desaparecem quando perdemos.

A variedade de armas, num total de 58, é um dos destaques do jogo e dá-nos uma combinação impressionante de habilidades que mudam por completo a forma como abordamos cada confronto. Podemos congelar todos os inimigos e destruí-los com um tiro certeiro, apostar apenas em espadas e machados ou então relegar-nos aos ataques mágicos. A diversão mantém-se viva graças à duração curta dos níveis e ao número satisfatório de zonas nestes dois capítulos.

Apesar da sua dificuldade e dos sistemas que utiliza, como várias habilidades e armadilhas que influenciam os estados dos inimigos – como gelo, veneno e fogo -, Nightmare Reaper não é propriamente o título mais inovador deste ressurgimento do género, mesmo com as suas ligações incontornáveis aos roguelikes. No entanto, destaca-se pelo equilíbrio de estilos, como a violência extrema, o pixel-art, as mecânicas e design assentes na vontade de desafiar os jogadores e dar-lhes uma experiência variada e familiar, mas, em simultâneo, única e diversificada. Seja pela forma como melhoramos os parâmetros da personagem, que se realizam através de um minijogo inspirado em Super Mario Bros., pela aleatoriedade dos níveis e pela variedade de inimigos, numa combinação entre mortos-vivos que atacam fisicamente e soldados que disparam à distância – mas sempre com uma enorme agressividade -, ou até mesmo pelos seus puzzles simples, que se relegam a evitar armadilhas ou a descobrir caminhos alternativos, é um jogo que está constantemente em evolução e a oferecer algo novo ao jogador, suplantando a repetição do género ao manter a jogabilidade tão fresca, acessível e desafiante.

Parte desta sensação de crescimento vem do sistema de armas e do ritmo frenético com que descobrimos novos métodos de ataque. Nightmare Reaper ainda está em Early Access, recebendo no final de 2020 o tão aguardado segundo capítulo, mas apresenta um excelente equilíbrio entre armas de ataque físico, de fogo e até de magia, com a protagonista a poder utilizar livros mágicos e até armas cibernéticas para eliminar as hordas de monstros. Tal como num RPG, cada arma tem uma categoria – desde a banal à mais rara – que influencia não só o seu poder de ataque, como os seus atributos adicionais, um sistema que qualquer fã de roguelikes irá reconhecer. Isto significa que poderão encontrar um revólver com balas explosivas, granadas com ataques de gelo ou arcos que confundem os inimigos, existindo ainda a possibilidade de não só trocarem e alterarem estes atributos ao longo da campanha, como melhorá-los significativamente. É simples, é pouco original, mas chega-nos em total harmonia e é isso que torna Nightmare Reaper tão empolgante e viciante.

E nunca é demais referir que a banda sonora ficou a cargo de Andrew Hulshult, que volta a surpreender na sua combinação entre composições mais pesadas e temas ambientais que conciliam o lado de ação e horror do jogo.

Há uma noção permanente de recompensa e de descoberta que mantêm a campanha refrescante. Não só o sistema monetário é acessível, disponibilizando moedas e tesouros regularmente – motivando-nos a arriscar mais e a evoluir constantemente a nossa personagem -, como os vários tipos de armas e o layout simplista das arenas criam cenários de ação onde a rapidez e a movimentação são o grande destaque. O facto de podermos alternar a nossa seleção de armamento ao longo das masmorras, mesmo com a imposição de só guardarmos uma arma entre níveis, faz com que cada confronto difira do anterior, nem que seja pela nossa própria criatividade. Apesar da estrutura rígida e de um certo classicismo mecânico, Nightmare Reaper mantém a aposta na experiência emergente do jogador e dá-lhe espaço para experimentar e criar a sua própria campanha.

O modelo Early Access é intrigante e não existem dúvidas que é funcional. Existem demasiados casos de sucesso para o afastarmos por completo e é um método eficaz de apoiarmos estúdios e produtores independentes que podem não ter as verbas necessárias para concluir um projeto promissor. Mas é, em todos os sentidos, ainda estranho, esta ideia de jogarmos algo em construção, ainda sem sabermos qual será o resultado final. Num primeiro contacto, Nightmare Reaper é um dos jogos de ação mais empolgantes dos últimos dois anos, mas resta saber a que porto chegará. Irá manter-se como um roguelite acessível, mas assente em sistemas mecânicos? Ou irá abraçar mais as suas raízes nos Boomer Shooters? Questões que permanecerão sem resposta, entre a dúvida e a esperança, mas a primeira impressão está dada e é excelente.

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