PÔR OS PÍXEIS NOS I'S

20 anos de Onimusha

Um olhar sobre a nossa relação com a série da Capcom.

O tempo é cruel. Não sei quem foi o primeiro ser-humano a sentar-se e a pensar como os dias nunca voltam para trás, se um antepassado nosso, ainda numa gruta, se uma versão mais moderna deste Homo sapiens irrepreensível, mas sinto que uma vez pensada, esta noção de tempo nunca nos abandona. Com a idade, vem o medo do tempo, dos minutos e dos segundos que não sentimos a passar, o medo e o arrepio na espinha que nasce quando nos apercebemos “meu deus, nem senti o tempo a passar”. Mas ele passou.

Há 20 anos, chegou-nos Onimusha: Warlords. O exclusivo PlayStation 2, que depois viria a estrear-se na Xbox, surpreendeu o público ainda deslumbrado com as possibilidades da sexta geração de consolas. Tudo era novo, um mundo por desbravar, e Onimusha, Samanosuke e Oda Nobunaga foram os protagonistas deste triunfo da Capcom, naquela que seria a consola mais vendida na história dos videojogos. Em 2001, tinha 14 anos. Estava a chegar ao 8º ano. Lembro-me de tentar crescer pela primeira vez a barba e de aperceber-me que a idade ainda não mo permitia. Era novo, ingénuo, mal conhecia o mundo e o meu ciclo de amigos ainda não era composto por “aquele tipo” ou “aquela rapariga” que não vejo há anos. No mundo dos videojogos, tentava seguir de perto as novidades através das revistas, numa realidade pós-Templo dos Jogos, e numa das suas edições, descobri este exclusivo de samurais, demónios e terror. Um Resident Evil, mas com espadas, assim era intitulado, e uma aventura curta, mas imperdível. Um ano depois, recebi-o como prenda de Natal. Fiquei fã para a vida.

Uma aventura dividida por várias zonas, armas e ainda alguns segredos para os mais curiosos.

Mas sou, admito, um mau fã. Não tinha nenhuma intenção de escrever este texto, mas fui relembrado pelo nosso colega Pedro, do Pixel Glitch, que mencionou, em tom de brincadeira, que “estava à espera de um artigo meu”. Não sei se era este o registo que esperava, mas o tempo é o tempo e 20 anos são, de facto, muito tempo. Tal como os velhos da minha praceta, nem “o senti passar” e foi todo um processo de interiorização que se despoletou quando me apercebi da idade desta série icónica. A Capcom parece ter-se esquecido, como eu, deste aniversário importante, mais um sinal que o tempo não espera por ninguém, mas é difícil não falar naquela que é uma das franquias mais intrigantes da produtora japonesa, desde a sua estrutura ao sistema de combate, sempre tão próximo de Resident Evil – não fossem as suas origens na série de terror – e de Devil May Cry, mas sempre com uma identidade tão própria. Sim, é a série com o Jean Reno.

Não vou deambular pela história da série, pelos seus vários jogos, num total de quatro títulos principais e alguns spin-offs, mas sim recontar a minha relação com a minha sequela favorita: Onimusha 2: Samurai’s Destiny. Há 19 anos, não sonhava em escrever sobre videojogos, em pensar sobre eles e não tinha a vontade de saber mais sobre esta arte que ocupa cada vez mais um peso positivo sobre a minha vida. Com 15 anos, talvez mais, talvez menos, só sabia que adorava jogar e que queria, já com aquela idade, jogar tudo o que conseguisse, ainda que existissem géneros favoritos, como os RPGs e os títulos de terror. Naquela época, seguia as revistas, como muitos de vocês, mas só me interessava verdadeiramente pelas novidades e novos lançamentos quando se aproximava o meu aniversário ou o Natal. Assim era a realidade de um jovem sem dinheiro.

A campanha é mais extensa e existem ainda mais segredos para desvendar, tal como uma campanha com ramificações e personagens secundárias.

Deparei-me com Onimusha 2 num aniversário, algures numa Blockbuster, muito anos antes da sua insolvência. Na secção de videojogos, fui desafiado pela possibilidade de comprar uma das novidades, mas não sabia ainda o que queria e se iria sair com um novo jogo na mão. As capas eram familiares, os títulos nem sempre o eram, mas entre os destaques, reconheci uma série familiar: Onimusha 2 estava em exposição numa das prateleiras. No entanto, lembrava-me perfeitamente que a duração do primeiro ficou aquém das expetativas, uma campanha curta, de 4 a 5 horas, ainda que divertida. Para quem não tinha dinheiro, como eu, o valor não estava muitas vezes na qualidade do jogo, mas sim na sua longevidade. Nesse sentido, olhava também para SaGa Frontier 2, perdido nas prateleiras da PlayStation, onde permanecia há anos. Um RPG seria melhor.

No entanto, arrisquei. Onimusha 2 veio comigo para casa e a paixão fez-se nesse verão. A sequela era mais e melhor, com um novo protagonista, Jubei, um sistema de combate mais fluído e uma estrutura mais próxima dos RPGs, com exploração livre, personagens secundárias opcionais e vários caminhos alternativos na narrativa que exigiam a repetição da campanha. O amor intensificou-se à medida que tentava desbloquear tudo a 100% e ver todas as ramificações da estória, desde os itens exclusivos aos nossos companheiros de viagem. E assim foi.

Existiam momentos narrativos que só poderíamos assistir se tivéssemos a personagem e os itens corretos, impelindo-nos a repetir a campanha várias vezes.

Onimusha 2 foi um passo na direção certa. A sequela revitalizou a experiência do original para um ponto máximo e trouxe-nos mais do que um jogo de terror e ação: uma aventura. A viagem de Jubei era grandiosa, muito mais expansiva e dada à exploração, com o jogador a sentir-se mais em controlo da campanha e da ação. Para além desta evolução mecânica, surgem também os cenários pré-renderizados de uma beleza reconfortante, onde florestas verdejantes davam lugar a cidades movimentadas, a trilhos naturais, a cavernas sombrias e a locais demoníacos, mas existindo entre eles uma coerência visual e estética. Os modelos poligonais também foram trabalhados, com as personagens a demonstrarem mais vida e animações realistas, até a nível das expressões faciais, criando assim uma produção de alto nível, mas sempre com o charme de jogo de culto que mereceu ter.

Este foi, para mim, o auge da série. Até hoje, continua a ser o meu favorito e a demonstrar o equilíbrio mais natural entre a ação do primeiro e do terceiro título, com a exploração e elementos RPG do quarto. Um mestre de dois mundos, por assim dizer. A série, como perceberam, continuou, ainda que mais focada na ação. Onimusha 3: Demon Siege deixou a narrativa com ramificações para nos dar dois protagonistas, Samonosuke e Jacques, interpretado por Jean Reno, numa campanha que saltitava entre a França moderna e o Japão Feudal. Apesar de não ser a minha favorita, a sequela aprofundou ainda mais o sistema de combate com dois estilos de luta muito diferentes. Dawn of Souls, por sua vez, apostou nos elementos RPG e inseriu um sistema de níveis, várias armas e a repetição de fases. Seguiu-se Onimusha: Soul, em 2012, um spin-off para browsers, e mais tarde para a PlayStation Network, que ficou esquecido nesta nova era do digital. E depois, veio o silêncio.

Seria interessante ver qual seria o próximo passo da série a seguir a Dawn of Souls.

A série Onimusha não é a mais original, mas há 20 anos, era uma lufada de ar fresco. Um desvio estratégico de Resident Evil e os alicerces de Devil May Cry, que estreava meses depois. Era familiar, mas diferente, e continua a ser, para a nossa geração, um dos títulos mais nostálgicos no início do século XXI. Mas 20 anos são 20 anos. A Capcom insiste em não revisitar a franquia e não temos uma coleção ou um relançamento completo da saga. Não temos nada. A nostalgia é uma arma de dois gumes, uma memória permanente que o tempo continua a passar e que o passado está onde sempre esteve. Onimusha é uma porta para outra era e continua a ser um símbolo no género de terror e aventura. Mesmo sem apoio ou novas oportunidades, mantém-se imutável e no seu trono.

O tempo passa e nós esperamos, mas nem sempre temos o que merecemos. Parabéns, Onimusha.

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