PÔR OS PÍXEIS NOS I'S

Um mês no mundo do PC Gaming

Depois de tantas hesitações, entrei finalmente no mundo dos PCs.

As portas rebentaram. A enchente levou-me como uma corrente bíblica para um novo e inesperado mundo – o mundo do PC Gaming. A fanfarra não é desmedida, não fosse a primeira vez que adquiri um verdadeiro computador pensado para os videojogos – RTX 2060 incluída – depois de tantos anos a fugir ao mercado como um jornalista a eventos sem ofertas. Mas aqui estou eu, um investimento acentuado depois e um mês imersivo num mar de lançamentos perdidos, esquecidos e imperdíveis que finalmente se materializaram à minha frente.

Para a minha surpresa, fiquei aterrorizado. A oferta é tão extensa, magnânima e intimidante que não soube para onde me virar. A ideia de que tenho um PC capaz de correr qualquer jogo já lançado – e por lançar – é tão estranha e alienígena que fiquei congelado perante o catálogo em constante expansão. Por onde começar? E quais seriam os videojogos que mereciam o meu tempo?

Agora já consigo jogar o catálogo completo da Ubisoft e irritar-me com gráficos em ULTRA.

Antes de passarmos à experiência em si e aos videojogos que já joguei e terminei, uma pequena lição de história. Nunca fui jogador de PC. A minha vida profissional de jogador (ou Gamer, se quiserem) focou-se exclusivamente nas consolas desde muito cedo. O meu primeiro computador foi um Commodore 386 usado, demasiado usado, que só corria com três pancadas secas, mas certeiras na lateral da torre. Foi nesta velha caixa de bits e bytes que descobri o DOS pela primeira vez e aventurei-me a inserir e a decorar linhas de código. Apesar de ter uma das primeiras versões do Windows, já não consigo especificar qual, a maioria do catálogo de videojogos era acedido através do ecrã negro sobre letras brancas, código a código, de diretriz a diretriz, onde bastava um pequeno erro para recomeçarmos todo o processo.

Os videojogos eram limitados e podiam ser contados pelos dedos da mão. Em destaque, estavam Arkanoid, um clássico absoluto, e Elifoot, que veio emprestado numa disquete sem identificação que um amigo me havia emprestado. Recordo-me de tentar jogar DOOM, o tão cobiçado título da id Software que começava a marcar a imaginação da minha geração através da sua capa sugestiva. Mais uma vez, o jogo viajou através de disquetes sem marca ou registo, mas, infelizmente, o velho Commodore não quis colaborar.

Não me recordo se o modelo era igual, mas adorava revisitar o velho Commodore uma última vez.

Com a ausência de programas que me ajudassem na escola e com um desinteresse pessoal por computadores, teclados e ratos, voltei para o conforto dos comandos e das consolas domésticas, colocando o Commodore de parte até ganhar ferrugem e uma viagem para a sucata. Seguiram-se anos de afastamento, mas de uma curiosidade crescente, com o mundo a receber Half-Life, Star Wars: Knights of the Old Republic, e Deus Ex, entre outros, e eu entregue às limitações das consolas, sem saber se queria ou não dar mais um salto para o mundo que me havia desapontado. Em 2003, esse salto realizou-se, recebi um Pentium IV 2.8GHz, “uma máquina”, como um amigo dizia, mas que pouco ou nada usei para videojogos. Lembro-me de jogar Half-Life 2, DOOM 3 e pouco mais.

O portátil da HP, um i5, cuja geração já está no passado, só surgiu em 2014, fruto de uma vontade em investir na carreira profissional, levando-me a apostar mais no conforto da portabilidade, no processador e na memória, mas não na placa gráfica. Resultado? Já estava morto quando chegou a casa, tal era a sua inabilidade em correr videojogos daquele ano, quanto mais do futuro. Alien Isolation ainda se materializou no ecrã de 15 polegadas, mas com travagens ocasionais. Uma desilusão. Mais outra.

E aqui estamos nós. Presente. Início de 2021 e um mês inteiro após ter adquirido aquele que será o meu PC para os próximos anos. Voltei às torres, aos monitores enormes (desta vez curvos, algo que em 2003 só poderíamos imaginar) e à personalização de peças e componentes que irão, assim espero, suavizar os investimentos futuros. Nunca me senti tão confortável com a ideia de jogar num PC como agora, quase 20 anos depois do Commodore, e penso que parte da magia vem do poder deste bicho de luzes néon. Pela primeira vez, tudo corre, talvez até bem de mais, e as opções são ilimitadas, seja nos videojogos, na edição ou em qualquer outra área. Estou em porto seguro.

A aquisição da RTX 2060 foi um pouco impulsiva, mas com a ajuda do David, que me acompanhou neste processo de compra, decidi dar o salto e assegurar que irei jogar alguns dos maiores lançamentos no PC.

No entanto, 20 anos são séculos na indústria dos videojogos e perdi grandes lançamentos que agora, em inícios de nova década, começam a demonstrar a sua idade. Mas tenho de ver o copo meio cheio, pois agora existe finalmente a possibilidade de voltar atrás e jogar, exceto alguns casos pontuais – que irão exigir o DOSbox e outras ferramentas –, todos os clássicos perdidos pela minha infância e adolescência. Mas vamos ficar, por agora, com os olhos postos no futuro.

Depois de tantos anos nas consolas, onde ouvia ao longe a promessa do desempenho sem entraves e dos frames por segundo, caí finalmente numa realidade onde tudo é (quase) possível. Nunca pensei dizer isto, mas adoro ver a performance do meu PC em tempo real, patrocinado pela NVIDIA, à medida que experimento novos jogos e vejo os FPS a subir de 30 para 60, 70 e até 150 ou 200. É mágico, é transformativo e é um rito de passagem. Neste momento, o PC é a minha plataforma de videojogos preferida e a PS4 e Xbox One, fora alguns casos pontuais, estão destinadas a comer o pó da vergonha. A CD Projekt RED que o diga.

Ghosting no meu PC? Nunca! Admito que nunca me preocupei com tal coisa, mas neste momento, ou são 144fps ou não jogo.

A fluidez do desempenho nunca me deixará de fascinar. Pareço uma criança a ver cores brilhantes na televisão, ainda sem saber como interpretar tudo, mas aventuro-me aos poucos pelas opções, vejo até onde consigo ir e com o que posso brincar. Até ver, a maioria dos jogos está otimizado automaticamente para ULTRA, algo que enche o meu coração de orgulho e faz de mim um enorme presunçoso – e agora percebo a vossa má fama, jogadores de PC, pois não é fácil ficarmos calados – que fica mais colado a números no canto superior do ecrã do que aos videojogos. Neste campo, destaco a minha batalha com Cyberpunk 2077, onde altero constantemente os seus parâmetros e experimento novas opções à medida que corre a 25fps e a 110fps com diferenças de meros segundos.

Senti, pela primeira vez, a limitação das consolas. É cruel escrever isto, especialmente quando falamos de plataformas com quase oito anos de existência, mas sinto-me enamorado pelo novo e fascinante mundo que se revela mesmo à minha frente. Num mês, joguei finalmente DUSK, Prodeus, Call of the Sea, Disco Elysium, Medieval Dynasty, Lost in Vivo e preparo-me para descobrir Pumpkin Jack, Umurangi Generation, AMID EVIL, etc. Não esqueçamos os clássicos e todos os lançamentos independentes, como Hylics 2, que nunca chegaram às consolas e que me evadiram durante anos. Cheguei a casa, é o que sinto.

Não é o jogo mais exigente da lista, mas abriu o caminho para um género que se revitalizou no PC e que raramente é adaptado para as consolas. Uma experiência que me escaparia se não fosse a aquisição do meu novo computador.

Mas será este o meu futuro enquanto jogador? Uma pergunta estranha e infantil de se fazer, admito, mas igualmente curiosa para quem nunca se questionou sobre a possibilidade de mudar de equipa. As consolas são um porto seguro e quero rapidamente adquirir uma PS5 para descobrir os seus exclusivos, tal como manter a Nintendo Switch o mais próxima do meu coração, mas neste momento, neste início de janeiro de 2021 e em pleno novo confinamento, sinto uma calma interior ao saber que tenho ainda tanto para descobrir no PC. Não só descobrir, como ter a possibilidade de jogar praticamente todos os lançamentos com a melhor qualidade possível. É impossível não ficar enamorado com tanta liberdade: é assim que me sinto ao fim de um mês. Talvez a magia desvaneça com o tempo, como tudo na vida, mas a lua de mel é um sucesso. O resto logo se vê.

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