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Traffix | GLITCH REVIEW

Uma viagem pelo Marquês de Pombal nunca foi tão relaxante e stressante como neste jogo feito em Portugal.

São 4 horas, madrugada. O sol nasce daqui a duas horas, se tanto, e apesar do sono, não consigo dormir. As insónias vão e vêm, sempre ao sabor do stress, e é neste momento em que os olhos não serram que me recordo de Traffix, da Infinity Games. O título de gestão e ritmo – assim arrisco-me a defini-lo – chegou esta semana à Nintendo Switch com a promessa de uma jogabilidade e estilo minimalistas. Não consegui ficar indiferente. Decidi começar a minha viagem pelo mundo do controlo de trânsito às 4 horas desta segunda-feira e o sono foi-se: Traffix surpreendeu-me.

Com a idade, criou-se um amor pela simplicidade, pelo minimalismo que me leva a apreciar o conforto do pouco que se transforma em muito. Por esse motivo, vejo-me a ouvir regularmente Music in Twelve Parts, de Philip Glass, um exercício exímio de construção e repetição onde cada parte complementa a anterior e a evolui ao longo de um crescendo sonoro que é tão terno como cansativo. Assim é Traffix, um título que se relega a uma base sólida que expande lenta, mas segura ao longo de 32 níveis.

Em Traffix, o nosso objetivo é gerir o trânsito e garantir que os nossos veículos, que podem ir de carros a camiões, percorrem o seu trajeto sem colidir com outros. Dividido por 32 níveis, onde cada cidade implementa um novo desafio – com esta viagem à volta do Mundo a terminar simbolicamente em Lisboa -, o título português aposta na dificuldade, no ritmo e na necessidade de conseguirmos a pontuação máxima (de três estrelas) antes de seguirmos em frente. Para tal, temos só uma função: controlar os semáforos e decidir quando devemos mover os veículos ao longo das estradas gradientes de cada nível. Se provocarmos 10 acidentes, perdemos.

A simplicidade é deliciosa. Os níveis são curtos e focam-se sempre no controlo da sinalização. Com os botões da Nintendo Switch, podemos parar ou ativar os veículos nas autoestradas e utilizar os semáforos clássicos (verde, amarelo e vermelho) para condicionar a velocidade do trânsito e a sua ordem. Não precisamos de mais nada. Com quatro botões, Traffix é capaz de desafiar-nos pelo ritmo enganador das tarefas e demonstrar que o design dos níveis é tão fundamental como as mecânicas, evoluindo progressivamente a fórmula ao adicionar elementos como rotundas, pontes – que acabam por limitar a nossa visão –, aeroportos e linhas de comboio. Mesmo com a (suposta) limitação de botões, sentimos que o jogo flui de nível para nível e que apresenta os seus trunfos com calma e de forma lógica, deixando o jogador ambientar-se a cada novidade.

A pontuação máxima é uma motivação para repetirmos os níveis e se quisermos conquistar as três estrelas, precisamos terminar cada fase sem um único acidente.

No entanto, existem nuances na jogabilidade que, na minha perspetiva, foram surpreendentes. A simplicidade e o design limpo acabam por criar a ilusão de que estamos constantemente em controlo, o que não podia estar mais longe da verdade. Traffix não só apresenta sequências aleatórias, com cada tentativa a apresentar um leque de veículos diferentes – que irá influenciar a vossa sorte -, como brinca com a perspetiva e a velocidade das estradas. Com a adição de curvas, por exemplo, somos levados a percecionar a velocidade e o percurso dos veículos de uma forma diferente, ao ponto de termos de controlar a sua distância com mais cautela. É arrepiante acionar um sinal, quando estamos na reta final de um nível, e perceber que a curva é mais longa do que calculámos. Há, no entanto, uma deliciosa sensação de “tentativa-recompensa” que é enaltecida por estas pequenas brincadeiras de perspetiva, onde sentimos um arrepio na espinha à medida que vemos os nossos veículos a evitarem, por milímetros, os restantes.

Ainda sobre a velocidade, Traffix apresenta mais um pormenor interessante. Talvez esteja a exagerar e a ver o que não está lá, mas à medida que avançava pelos primeiros níveis apercebi-me de que existe uma pequena aposta na cinética e dinâmica dos carros, onde temos de ponderar se é mais viável manter a sua velocidade ou arriscar perder milissegundos importantes ao pararmos o seu trajeto. Temos de perceber, por exemplo, se vale a pena estagnar o trânsito, que poderá levar à frustração dos condutores – outra mecânica que implementa uma enorme tensão nos níveis – ou arriscar uma passagem de última hora devido ao impulsionamento dos veículos. Estarei a exagerar? É uma possibilidade, mas sinto que foi este elemento que me levou a pensar em Traffix não só como um jogo de puzzles e gestão, mas também de ritmo, com as formas simples dos carros e das estradas a criarem uma dança gradiente – quase como uma máquina bem oleada – que se torna hipnotizante. Quando entramos no ritmo, tudo flui de outra forma.

A combinação entre fundos brancos e as cores suaves das estradas, que combinam perfeitamente com a iluminação dos semáforos, traz-nos uma UI limpa, de fácil leitura e atraente para quem gosta de um estilo mais minimalista.

Não é o título mais relaxante que experienciei este ano, mas a aposta em composições musicais simples e descontraídas, que relembram o melhor do género muzak, acabam por suavizar alguma da tensão associada às curvas arriscadas e decisões de última hora. No entanto, a sensação de stress está sempre presente e é enaltecida pela possibilidade de mudarmos constantemente os sinais e podermos, inclusivamente, comandá-los para se manterem sempre no “verde”, dando assim total liberdade de movimento aos veículos. São os pequenos pormenores, como podem ver, que tornam Traffix numa experiência que nunca é curta ou longa de mais, ou frustrante quando deveria ser divertida e desafiante. Há um equilíbrio palpável entre as mecânicas acessíveis e o level design intrincado, minimalista, mas igualmente interligado e em constante evolução.

Alguns pontos negativos. Talvez sejam pormenores para vocês, mas tenho de admitir que não apreciei o posicionamento dos ícones dos botões em jogo. Não porque não são visíveis, mas sim porque não seguem mais diretamente a disposição física dos mesmos botões (salvo algumas exceções). Como disse, é um pormenor, mas é uma decisão que gerou uma certa confusão mental sempre que chegava a um momento mais tenso e caótico – mas isto é também sinal de uma certa falta de destreza da minha parte, admito. O sistema de colisão é outro elemento que se destaca. Apesar de gostar da ideia de termos choques em cadeia, a forma como gerimos estes percalços não se mostrou tão intuitiva como as restantes mecânicas. Quando sofremos um acidente, temos de eliminar manualmente os veículos afetados para que não provoquem mais danos colaterais. Para tal, podemos utilizar o ecrã tátil da consola para retirarmos estes veículos, o que revela ser pouco satisfatório. Encontrei momentos em que não conseguia retirar do ecrã os carros destruídos (talvez por falha de resposta do próprio ecrã), ou em que acabei por acionar sem querer os sinais do nível, criando ainda mais caos. Sublinho que gosto da ideia de obrigar o jogador a gerir melhor o espaço do jogo e o posicionamento das mãos na consola, mas não saí convencido. Sabem qual é a solução? Esqueçam o ecrã tátil e utilizem o botão L. Só mais um pormenor: não conseguimos voltar ao menu inicial quando perdemos. Isto é mesmo um detalhe num jogo tão sólido, mas fiquei confuso e até irritado com a obrigação de recomeçar um nível ou passar para o próximo sem conseguir regressar ao menu principal.

Há uma verdadeira tensão quando temos carros parados no trânsito, com os condutores a ficarem mais impacientes, e temos de corrigir os erros anteriores ao retirarmos os veículos acidentados. Um caos controlado!

Estou a terminar esta análise às 23h20, quase 24 horas após ter iniciado Traffix. A Infinity Games trouxe-nos um projeto sem adições desnecessárias – incluindo apenas o modo Chaos, em que basta um acidente para perdermos a partida -, sem ambições de longevidade artificial ou de expansões facilitistas: Traffix é o que é e mais não se pedia. Não é perfeito, mas é uma experiência sólida que chega à Nintendo Switch com o preço ideal para todos os curiosos. Admito que não conhecia a produtora e que descobri Traffix através da Nerd Monkeys, que ajudou na distribuição, mas agora quero experimentar o seu catálogo e a sua aposta em títulos “simples, relaxantes e minimalistas”. O sono não voltou, mas sinto uma certa calma reconfortante depois do stress acumulado. Um trabalho bem-feito.

A escala utilizada é de 1 a 10

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