PÔR OS PÍXEIS NOS I'S

Cyberjunk 1987 | Enganar, roubar, lucrar

Digam olá ao melhor jogo de 2022.

No início de dezembro, ponderei sobre qual seria a receção de Cyberpunk 2077, um jogo que, muito antes de ser mostrado ao público, já era considerado como um dos melhores e mais inovadores projetos na indústria dos videojogos. Em oito anos, a antecipação cresceu para níveis perigosos, ácidos e incontroláveis, e a perspetiva do novo título da CD Projekt Red poder ser uma desilusão era, admito, interessante. No meu texto, defini que existiriam dois grupos: aqueles que adorariam Cyberpunk 2077 e aqueles que ficariam desapontados com o resultado, independentemente da sua qualidade geral. Para a minha surpresa, não foi o que aconteceu – não podia estar mais enganado e distante da realidade. Para a minha surpresa, a CD Projekt Red fez o que parecia ser impossível e enganou a comunidade e a indústria ao lançar um jogo incompleto, quebrado e difícil de jogar. Que reviravolta!

“Segundas-feiras são horríveis!”

Isto foi um choque. A CD Projekt Red conseguiu criar o cenário que ninguém estava à espera. No Betclic, isto teria valido uma fortuna, mas calhou-nos antes uma enorme dor de cabeça. Depois de tantos anos de produção, de tanto crunch e de tantos louvores em E3s, Gamescoms e cerimónias de prémios, ninguém antevia que o problema estaria no facto da produtora polaca, que é uma das melhores na indústria – tanto ao nível de produção, como no contacto com o público –, mentir, roubar e enganar os consumidores que escolheram jogar Cyberpunk 2077 nas consolas da oitava geração. Mas aqui estamos nós: já começa a perder a piada.

Com a amabilidade da Xbox Portugal, decidi dar o salto para a versão Xbox One. Como nunca me senti rendido às promessas do RPG futurista, não segui o lançamento de perto e as primeiras reações fundiram-se num aglomerado de má informação e de uma certa descrença da minha parte. Olhando para as notas, parecia improvável que a crítica estivesse uma vez mais de costas viradas para a comunidade e com uma opinião muito diferente daquele que poderia ser o melhor jogo de 2020. Temia mais uma guerra de “críticos e jogadores”, mas o cenário moldou-se e a visão ficou mais clara. O que parecia ser a euforia desmedida de uma comunidade que queria a segunda vinda de Cristo acabou por ser um problema muito mais real e preocupante do que antecipava – afinal, a CD Projekt Red teve mesmo o desplante de lançar uma versão ofensiva do seu jogo e escondê-la do público até ao último segundo.

Quero relembrar que o modo fotografia foi mais falado que as versões PS4 e Xbox One.

Por esta hora, já não preciso de preocupar-me com a receção do meu texto. Já sabem, tal como eu, que Cyberpunk 2077 não deve ser jogado na PS4 e Xbox One originais. Os problemas são mais que visíveis, mas o choque, a descoberta do estado real do jogo nunca é fácil e é, em todos os sentidos, um soco no estômago. Isto não é exagero. Os meus problemas começaram no ecrã de personalização, segundos após começar a campanha. Em cinco horas, a minha mente começou a rejeitar o que estava a percecionar e não consegui continuar a jogar uma versão que me debilitava. É assim tão mau.

Não vou falar do game design e da narrativa de Cyberpunk 2077 porque não quero ser injusto com o produto final. Durante as minhas cinco horas, vi uma versão da Night City que não quero revisitar. O próprio ritmo do jogo, com o seu desempenho criminoso, quebrou qualquer tentativa em compreender o que via e fazia neste burrão de tinta cara. Podem considerar, com todo o respeito, que estou a tentar inflamar a internet ao dizer que fiquei com dores de cabeça, mas é a verdade. Uma longa e presente dor de cabeça que foi tão provocada pela otimização do jogo, como pelo crescente desapontamento que se amontoava dentro de mim. E para quem que não estava sequer a contar jogar Cyberpunk 2077 este ano, podem imaginar a irritação que irrompeu de dentro de mim.

Daqui para a frente, recuso-me a regressar à versão que me foi dada e irei continuar no PC ou parar por completo. No entanto, seria incapaz de dar o salto e fugir das responsabilidades sem primeiro apontar o dedo para a vergonha – e aqui sublinho – deste lançamento mal-amanhado e ingrato com que 41% dos jogadores, que fizeram pré-reserva – que, já agora, tornaram o jogo rentável logo no dia de lançamento –, foram enganados a comprar. E sim, enganados, roubados, maltratados; tudo.

Temos de ponderar que existe uma percentagem de jogadores que irão jogar nas novas consolas, mas o que pesa é o número (provavelmente mais elevado) de jogadores que não sabiam que compraram uma versão muito inferior. Será uma questão de vermos o copo meio cheio?

Não sei o que o futuro nos reserva, se teremos as atualizações que tanto fazem falta a Cyberpunk 2077, mas nada irá desculpar este lançamento nas consolas. Neste momento, a CD Projekt Red lançou um jogo feio, repleto de problemas de desempenho, que flutua entre os 5 e os 25fps nos melhores momentos, de bugs, má iluminação, modelos e cenários desfocados. Nada funciona bem, parece um jogo do século passado e foi lançado assim na PS4 e Xbox One sem quaisquer problemas. Repito: esta versão quase matou a minha vontade em jogar Cyberpunk 2077 e continua disponível por 69.99€.

Vamos ao maior problema de Cyberpunk 2077 – Versão Adidos. Ao longo da geração, tivemos lançamentos que ficaram aquém das expetativas, muitos deles repletos de problemas de desempenho e muitos, olhando para a Ubisoft e a própria CD Projekt Red, que sofreram downgrades visíveis. Nesta fase, as reduções de qualidade entre o trailer de revelação e a versão final já são esperadas – tal é o triste fado da indústria – e continuarão a ser perpetuadas pelas distribuidoras e produtoras numa tentativa de publicitar os seus videojogos. É inevitável, que fique bem claro, mas caberá aos jornalistas, críticos e consumidores apontarem o dedo quando acontecer. É preciso lutar e parar estas práticas até quando parece ser impossível de o fazer. E é por esse motivo que aponto o dedo à produtora polaca, não porque Cyberpunk 2077 precisa de atualizações, mas, porque nos mentiu descaradamente.

O videojogo que nos foi vendido não é o que temos nas consolas, nem de perto. Durante anos, a CD Projekt Red recusou-se a mostrar Cyberpunk 2077 a correr na PS4 e Xbox One, fugindo constantemente da responsabilidade e do que parecia ser um projeto incapaz de correr nas plataformas mencionadas. Vimos os sinais, mas decidimos ignorar na vã esperança de termos o jogo que tanto queríamos sem necessitarmos de comprar novas consolas ou atualizarmos os PC – a CD Projekt Red nunca nos enganaria! Para análise, os maiores sites internacionais receberam exclusivamente a versão PC – a versão superior que sofre apenas de alguns bugs – e foi essa versão que foi publicitada durante anos. Onde estavam os vídeos do jogo a correr na PS4 ou na Xbox One? Em 2018, tudo parecia estar bem encaminhado e os trailers pareciam apontar para o impossível, mas três anos depois, descobrimos que, surpresa! As consolas da oitava geração não têm memória suficiente para correr Cyberpunk 2077. Podem atualizar o jogo até ao final do universo e lançar todos os pedidos de desculpa que estiverem entalados no vosso peito. No final do dia, sabiam que estavam a lançar uma versão repleta de problemas. 41% dos jogadores, não se esqueçam.

O jogo continua a ser o mesmo, a estória não foi alterada ou cortada nas consolas, mas não consigo deixar-me levar por Night City e a sua fauna noturna porque pura e simplesmente não encontro o ambiente e a vontade em explorar que me foram prometidas. Como está, Cyberpunk 2077 parece ser o jogo mais genérico de sempre, tal é a péssima otimização nas consolas. Para mim, chega. Não vou continuar a perpetuar este problema. Se não têm outra alternativa senão jogar na PS4 e Xbox One, então desejo-vos boa sorte. Gostava que estivéssemos todos a jogar a mesma versão, mas não estamos. Se ainda não compraram Cyberpunk 2077, não o façam. Não comprem uma versão que não está terminada: não deem dinheiro à CD Projekt Red. Esperem pelas atualizações para PS5 e Xbox Series ou então joguem no PC. Acreditem: é ainda pior do que veem nos vídeos.

Estou curioso para saber o que acontecerá à reputação da produtora daqui para a frente, se a boa-fé de The Witcher III: Wild Hunt irá desaparecer ou se, com o tempo, conseguirá reconquistar os fãs com atualizações e expansões gratuitas. Só o tempo o dirá, mas por agora, reaprendemos a lição do costume: quando parece ser bom demais para ser verdade, é porque é. E assim terminamos 2020.

O código para análise foi cedido pela Xbox Portugal.

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