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Call of Duty: Black Ops – Cold War | GLITCH REVIEW

Dois passos à frente, um atrás e outro para o lado: assim é o regresso da Treyarch à série Call of Duty.

Depois do sucesso incontornável de Call of Duty: Modern Warfare, a Activision e a Treyarch lançam-se uma vez mais pelos jogos de poder e missões secretas no regresso à série Black Ops. Para trás, ficaram os ambientes futuristas e os lançamentos exclusivos em multijogador, com a Treyarch a focar-se numa campanha arriscada e a tenta centralizar toda a experiência Call of Duty num só pacote. Os passos foram dados, a ambição e experimentalismo são palpáveis, mas Cold War sabe a pouco e é difícil não ver os seus problemas ao longo da campanha e dos modos multijogador.

Apesar dos seus problemas, é bom ver a Treyarch a regressar às campanhas a solo, às conspirações e aos agentes secretos numa narrativa que nos transporta para o final da Guerra Fria. Como Bell, temos de desvendar a identidade e paredeiro de Perseus, um militar soviético que ameaça destruir algumas das maiores cidades europeias na luta entre capitalismo e comunismo/oeste e este. Para atingir o seu objetivo, Bell e a sua equipa têm de jogar nas sombras, criar aliados improváveis e sujar as mãos quando é necessário, levando-nos numa viagem pelo tempo – com uma passagem rápida pelo Vietname e contando com a presença de Mason e Woods, que irão deliciar os fãs –, pela Europa e por uma das épocas mais assustadoras da história moderna.

Mas sabe a pouco. A campanha segue uma estrutura mais livre e tenta equilibrar os seus níveis lineares e dados ao espetáculo visual com aventuras secundárias, missões de furtividade e exploração. Há uma clara tentativa em suplantar e inovar a fórmula cansada da série, mas é uma tentativa falhada quando a campanha não apresenta protagonistas e vilões memoráveis, onde não há uma sensação de perigo e urgência, com os saltos temporais a criarem mais ruído do que propriamente uma construção de mundo eficaz. É grande, mas é igualmente pequeno, tímido e é prejudicado por mais uma tentativa falhada em nos dar um olhar político e mordaz eficaz.

No entanto, a César o que é de César. Ao contrário de Modern Warfare, Cold War é mais arriscado e é fascinante olhar para a estrutura e novidades da campanha para percebermos que afinal é possível fugir à norma em Call of Duty. Não só temos missões secundárias, que podemos terminar quando quisermos, como encontramos níveis com múltiplas abordagens – como a missão Desperate Measures, que nos leva até uma base soviética –, escolhas múltiplas, desafios adicionais e ainda um toque surpreendente de personalização. Já Black Ops 2 tentou subverter a série e apresentou escolhas e finais alternativos, mas Cold War vai mais longe. Até certo ponto, aproxima-se mais da estrutura de um Dishonored do que outro título da série. Só resta agora combater a linearidade arcaica das missões e equilibrar mais eficazmente os seus momentos de ação.

Existem momentos em que a campanha parece ser um sonho febril, apresentando ocasiões quase ridículas e onde a lógica é colocada em causa.

A personalização é simples, mas é um bom toque. Como Bell, um agente secreto e de identidade desconhecida, temos a possibilidade de criar o nosso próprio protagonista. Podemos alterar o seu nome, a cor de pele e até influenciar o seu passado; uma escolha que acaba, como seria de esperar, por ecoar pelos temas do próprio jogo. Para além destes elementos mais narrativos e cosméticos, o jogo permite-nos definir a sua personalidade através de habilidades/perks. Temos ao nosso dispor vários atributos que alteram a eficácia da personagem, desde a rapidez com que levanta a mira e recarrega as armas até à velocidade da corrida e a sua agressividade em combate. São pequenas escolhas que afetam a forma como jogamos a campanha, mas não são fortes o suficiente para alterar a jogabilidade e a abordagem dos níveis. Isto porque a jogabilidade mantém-se imutável, presa à sua rigidez e aos momentos hollywoodescos que caem caem em ouvidos moucos. Ao contrário de Modern Warfare, saí de Cold War sem uma única missão favorita.

É frustrante pensar na campanha e no seu potencial perdido. A Guerra Fria é um cenário incrível para um videojogo e o palco para uma enorme variedade de abordagens e missões, mas ficamos pelo básico, talvez por existir uma falta de tato e cuidado no retrato dos seus temas – onde somos, como sempre, presenteados por um trabalho equivalente a um filme de série B. No entanto, a Treyarch não nos deixou de mãos vazias e há uma tentativa, uma verdadeira vontade em injetar mais conteúdos e variedade à campanha, e temos, por exemplo, a possibilidade de encontrar provas e analisá-las para abrirmos novos caminhos nas missões secundárias. Mais uma vez, sabe a pouco, mas está lá e é real. Fiquei empolgado quando percebi que a resolução dos quebra-cabeças difere de jogador para jogador e que existe algum (muito pequenino) trabalho de lógica e investigação. Temos de ver sempre o copo meio cheio.

“Quais são os números!” – Desta vez, somos nós a exigir as combinações corretas para termos acessos a bónus.

Mas saí desencantado da campanha. Para mim, a série Call of Duty é maioritariamente composta pela aventura principal, pelas sequências de ação e por uma sensação de divertimento que é, em todos os sentidos, voyeur, mas deliciosa. Cold War é um passo à frente, mas é um passo demasiado envergonhado, talvez, quem sabe, prejudicado pela recente pandemia e por problemas de produção. Esta sensação de desamparado e de falta de motivação continuou nos modos online, em especial em Zombies, uma das minhas eternas dores de cabeça. Talvez esteja a ficar velho e cansado para estes modos espalhafatosos, mas sinto-me confuso só de pensar nos níveis e nos objetivos crípticos que temos de concluir.

Não acompanho o modo desde o início, mas fiquei com a sensação, no entanto, que existe um design mais interligado no nível que apresentam, tais como mais opções de habilidades, armas e até personalização. Podemos evoluir perks, por exemplo, e ativar novos poderes à medida que avançamos. O modo tem também um ambiente mais arcade, foi a sensação com que fiquei, com os mortos-vivos a serem mais numerosos, mas igualmente mais fáceis de eliminar. A barra de energia, que surge por cima das suas cabeças, é uma dádiva para mim – sou um homem simples. Mas é um modo para jogar até ao infinito? Nem pensar.

De seguida, temos o regresso de Dead Ops Arcade 3, o minijogo de arcade onde temos de eliminar hordas de inimigos ao longo de várias arenas. É o Smash TV de Call of Duty, um twin-stick shooter muito básico, mas igualmente divertido onde poderão jogar em modo cooperativo até quatro jogadores. Há pouco a adicionar a este extra quase escondido nos menus pouco intuitivos, mas é divertido, fácil de jogar, mas difícil de terminar devido à crescente agressividade de hordas de zombies.

Os cenários são muito limitados e parece ter saído da geração anterior, mas o modo conta com uma boa sensação de desafio, várias armas e ainda melhorias temporárias que vos ajudarão em combate.

Depois temos o eterno multijogador. O eterno e incontornável gigante da série. Sem surpresas, entrei e saí sem ver o que impele tantos jogadores a perderem centenas de horas por ano num só videojogo. Estou a ser cruel, até porque ainda joguei algumas partidas, mas senti-me a ver mais do mesmo. Se calhar é apenas o resultado de ter gostado de Modern Warfare e de ter sentido que a sua campanha e modos eram refrescantes após tanto futurismo e mecânicas desnecessárias. Talvez. Cold War apresenta-se mais como um segundo parto, aquele que queremos muito apreciar, mas onde já estamos cheios e até um pouco saturados. Mas se forem fãs, podem contar com a mesma experiência de sempre, com alguns mapas equilibrados – e outros nem tanto –, modos para todos os feitios e muita irritação pela quantidade preocupante de jogadores que ainda se escondem nos cantos dos níveis. E claro, o Warzone continua vivo. É isso.

Não pude experimentar a versão PS5 e as melhorias da nova geração, mas Cold War mantém o motor gráfico de Modern Warfare e volta a surpreender com sombras fortes e uma iluminação bastante realista. De facto, o jogo brilha – desculpem a piada – nos níveis mais sombrios, na cidade de Berlim e nas cavernas escondidas nas selvas, onde é impossível não comparar com o contraste moderno do título da Infinity Ward. No entanto, Cold War acaba por se destacar também pelo seu desempenho pouco consistente, apresentando vários bugs visuais e quedas de frame rate, ao ponto de ter encontrado momentos em que o jogo não conseguia correr suavemente. Muitos pop-ins, texturas por carregar e modelos inacabados, algo que raramente vi na série (talvez a memória esteja a ser simpática).

A melhor novidade da edição deste ano é, no entanto, a possibilidade de instalar individualmente cada trecho e modo do jogo. Podem instalar a campanha em três partes ou simplesmente não instalar o modo online. Finalmente temos o poder da decisão do nosso lado!

Mais um ano, mais um Call of Duty. Assim é a vida. A Treyarch trouxe-nos num produto interessante que, infelizmente, ficou aquém das nossas expetativas. As ideias são boas e a campanha tem alguns momentos empolgantes, mas parece que faltou dar um passo mais determinado em direção à desconstrução da série. Já a sua vertente online, mantém-se sólida e acessível, sempre uma porta de entrada fácil para quem quer a experiência multijogador, mas não surpreende ou fascina – talvez tenha sido a euforia desmedida de Black Ops IIII a matar esta vontade em querer descobrir mais. Não é mau, não é muito bom, mas é uma entrada sólida na série que poderia ter sido uma das melhores. Mas sabem que mais? Ao menos não é Ghosts ou Advanced Warfare.

Vemo-nos para o ano.

A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (PS4) foi cedido pela PlayStation 4.

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