PÔR OS PÍXEIS NOS I'S

A magia de Gorogoa

Um ano depois de The Witness, atiro-me de cabeça para o género de puzzles e descubro um jogo inesquecível.

As dores de cabeça ainda estão presentes e o medo do desconhecido ainda me arrepia a espinha. Poderia estar a descrever uma viagem pelo mundo ou uma demanda heroica por terrenos inóspitos, mas estou, na verdade, a descrever a minha relação com o género de puzzles: com as suas linhas, peças e objetos que se encaixam de todas as formas e feitos, das naturais às não naturais. Não é uma relação fácil, de amor e ódio, onde a minha inteligência não é posta à prova, mas sim derrotada. No entanto, hoje sinto-me revitalizado, justiçado e até curado desta maldita sina que me entorpecia a visão há tantos anos: Gorogoa curou-me.

Se The Witness afastou-me devido aos seus puzzles simples, mas progressivamente mais desafiante – ainda que nunca se desviando da fórmula inicial, onde temos de conduzir linhas por vários cenários e painéis -, Gorogoa acolheu-me. Mostrou-me um novo mundo e conseguiu mover as rodas dentadas e cheias de teias que movem o meu cérebro. O título da Buried Signal, lançado em 2017, é, ironicamente, mais complexo e muito mais imaginativo a nível mecânica que o projeto de Jonathan Blow, mas onde The Witness nos deixa vazios e sós num mundo perdido, Gorogoa leva-nos numa viagem emocional, repleta de cor, luz e alguns dos puzzles mais interessantes que já encontrei num videojogo.

Não temos de controlar linhas ou descobrir peças perdidas num cenário enorme, mas vazio. Gorogoa é complexo em ideias, mas no que toca ao seu formato e mecânicas, é bastante direto – ainda que peculiar. A ação decorre num espaço branco, onde temos à nossa disposição quatro gravuras. Em cada quadrado, temos uma imagem com a qual podemos interagir e ativar personagens, partes do cenário ou até alterar a sua perspetiva para encontrarmos o local certo ou o objeto que procuramos. Com quatro espaços, e com a utilização do ecrã tátil (joguei na Nintendo Switch), podemos mover as imagens e descobrir novos espaços ou perceber, por exemplo, que existem duas imagens sobrepostas. Estranho, eu sei, mas é muito mais intuitivo do que aparenta ser.

Na Nintendo Switch, podemos controlar tudo através do ecrã tátil e até aproximar-nos de cada gravura para inspecionar-nos mais de perto. Uma pequena adição que faz toda a diferença.

Imaginem este cenário. Temos de ajudar um jovem a subir umas escadas, mas na sua imagem, não existem escadas. No entanto, na gravura ao lado, temos as tão cobiçadas escadas, mas numa perspetiva diferente. Através da manipulação das imagens, conseguimos encontrar um elemento em comum e combiná-las finalmente, permitindo ao jovem que navegue entre imagens e suba as escadas. Outro exemplo: temos uma lamparina sem luz. A única imagem que temos é a de um céu estrelado. Ao aproximar-nos de uma das estrelas, temos acesso à luz e ao combinar as duas imagens: a lamparina fica acesa.

A sucessão lógica de ações e a beleza da arte, aliada à banda sonora e à narrativa que se vai construindo, agarraram-me por completo. Em poucos minutos, vi-me boquiaberto. Tudo estava no local certo. A movimentação das gravuras é rápida e é incrível perceber como a Buried Signal conseguiu suplantar cada puzzle sem nunca alterar a estrutura de Gorogoa. Nunca saímos do fundo branco da tela, tal como um quadro que ajudamos a pintar, e nunca temos mais do que quatro espaços para manipular. E mesmo assim, mesmo com estas limitações de jogabilidade, assistimos à expansão de um mundo que joga com a perspetiva, expetativas e imaginação dos jogadores a cada passo que dá.

Aproveito para destacar a banda sonora de Joel Corelitz, um trabalho exímio e uma das peças mais importantes deste jogo. Um ambiente calmo, sempre misterioso e, em simultâneo, nostálgico. Uma combinação interessante.

Não costumo ficar assim com jogos de puzzles, com o coração tão cheio e com uma admiração que me obriga a escrever e a expressar-me, mas Gorogoa conseguiu. Ainda não fui batizado pelo género, não mudo assim tão depressa de equipa, mas há aqui uma aproximação deliciosa que me mantém preso a um jogo que, há semanas atrás, julgava não ser para mim. Mas afinal é. Ainda não terminei a campanha, não sei o que me espera, mas pela primeira vez em anos, talvez desde Portal 2, estou curioso para saber o que vem a seguir e que puzzle terei de vencer para continuar. E que objetos irei combinar? E como poderei manipular os cenários e as gravuras para resolver um problema específico? Quero descobrir por mim. Que sensação maravilhosa.

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