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Marvel’s Spider-Man: Miles Morales | GLITCH TAG-REVIEW

Ainda não é a sequela que aguardamos, mas é um primeiro olhar sobre o futuro da série.

Dois anos depois da estreia de Spider-Man na PS4, a Insomniac Games regressa ao universo com um capítulo mais curto, mas igualmente aliciante, que é tanto uma sequela, como spin-off oficial. No entanto, Peter Parker pendurou o seu fato aranha e deixou Nova Iorque aos cuidados de Miles, que ainda está a descobrir os seus poderes, durante uma aventura natalícia que o irá levar numa demanda pela sua identidade e lugar neste mundo de super-heróis e vilões. É um pequeno passo, alguns dirão dizer, mas para nós, é o cimentar desta franquia da Sony – e um primeiro passo para a nova geração.

Canelo – Tão clássica, como dramática, sinto, depois de horas com Marvel’s Spider-Man: Miles Morales, que esta é a campanha que procurava no original. É mais curta, mas igualmente direta ao assunto, sem rodeios e sem distrações desnecessárias, algo que me cansou – na minha honesta opinião – na primeira viagem por Nova Iorque. Dois anos depois, temos um maior foco em Miles e na sua estória de origem à medida que descobre novos poderes – como a eletricidade e a sua camuflagem (que o torna invisível) – e se relaciona com o mundo do crime organizado nova-iorquino e as suas responsabilidades como um dos Spider-Man. É uma estória de crescimento, com todos os seus clichés associados, mas a campanha tem tanto coração que consegui ultrapassar quaisquer percalços que encontrei na narrativa e na sua estrutura: e muito graças ao retrato de Miles e dos vilões.

David – Curta, mas não tão curta como esperávamos. Este spin-off é como um Marvel’s Spider-Man 1.75, se quisermos medir a longevidade, mas após terminar o jogo, por volta dos 95%, sinto que tem tanto de jogo, como um lançamento completo. A melhor comparação que podemos fazer é a Uncharted: Lost Legacy, que, no fim do dia, é um pacote completo, com algumas decisões interessantes, limitado apenas pelas pré-conceções da existência de uma série principal. Enquanto oferta, senti-me envolvido o tempo todo, mais de 20 horas, pela excelente forma como todo o jogo é focado na sua narrativa e pela qualidade de atividades secundárias mais trabalhadas, com melhores recompensas e mais significativas.

C – Este spin-off é um produto interessante, não só por ser a estreia da série na PS5. Há muito sumo, tal como dizes, mesmo que exista alguma repetição de cenários e de zonas de interesse: mas sinto que isso era inevitável. Eu vou mais longe: acho que Miles Morales suplanta Lost Legacy em conteúdos e na sua intenção como episódio suplementar. Tm uma identidade muito mais vincada.

Em parte, é muito próximo do original, utilizando o mesmo modelo de Nova Iorque e repetindo, inclusivamente, muitos dos seus locais de combate – agora sob o manto branco da época natalícia –, mas é, em simultâneo, uma evolução cuidadosa da fórmula. Miles comporta-se como Parker, tem as mesmas combinações, ataques aéreos, aposta na furtividade e até baloiça de teia em teia como o seu mentor – ainda que um pouco mais desajeitado, num dos pormenores mais deliciosos do jogo –, mas há agora uma nova camada por cima da jogabilidade fantástica do título de 2018. Os novos poderes de Miles mudam o ritmo do combate e complementam-se perfeitamente com as novas fações (Underground e Raxxon), que conseguem contornar as suas habilidades e até utilizá-las contra si. Mas Miles é, arrisco-me a dizer, muito mais dinâmico e é fácil combinar poderes tradicionais com as ferramentas – como hologramas e buracos gravitacionais – e as habilidades elétricas.

Os fãs das personagens vão sentir-se em casa com o leque de habilidades de Miles.

O combate ficou mais desafiante, mas também expansivo e vi-me, ao contrário do original, a combinar mais opções de ataque do que antevia. As habilidades elétricas são, como podem prever, um pouco poderosas, mas gosto que o jogo não só limite a sua utilização, como apresente regularmente inimigos que dinamizam os confrontos. Para cada vantagem, há uma resposta e é neste diálogo que ensinamos Miles a ser um verdadeiro Spider-Man. Não é muito, até porque gostava de ter ainda mais combinações nos ataques físicos, mas estas novas opções deixam-me curioso para a verdadeira sequela. O que achaste, David?

D – Eu já achava o combate do original divertido o quanto baste. Simples de jogar, mas difícil de dominar devido a todas as variáveis. O combate em Miles Morales tem a mesma base, mas tal como todo o jogo, está mais focado e aprimorado, o que acaba por se tornar mais divertido e igualmente variado. Temos o uso das habilidades de Miles a funcionar como barra de stamina ou em função das nossas ações, o que faz com que sejamos obrigados a estar sempre em movimento durante os combates, seja em desvios, saltos, utilização das teias, uso constante de ferramentas, etc, para podermos usar as combinações e as habilidades especiais que, neste jogo, são muito mais dinâmicas e variadas. O jogo faz um trabalho muito bom no equilíbrio dos inimigos, ainda que no início pareça que nos atira tudo em simultâneo, mas depois de jogar o jogo original e os seus DLCs, e ter sofrido com o pico de dificuldade deles, jogar aqui em dificuldades mais altas tornou-se mais desafiante do que frustrante. Acima de tudo, o jogo faz um ótimo trabalho em sentirmo-nos OP na pele de Miles, especialmente em combates de bosses que são, novamente, espetaculares apesar da escala mais pessoal das mesmas.

C – Eu saltei os DLCs, como sabes, mas segui de perto a tua opinião sobre eles e tinha receio que tivéssemos algo mais próximo desses episódios curtos. A Insomniac decidiu fazer o seu trabalho e é tal como dizes: é mais do mesmo, mas melhor. No entanto, e talvez por ter saltado do original para Miles Morales, demorei a ambientar-me ao seu combate e à aposta em desvios constantes, com a genética da série Arkham ainda presente, mas não fiquei indiferente ao ritmo. É, para mim, um jogo muito mais divertido que se mune de duas coisas: da personalidade ingénua de Miles, que é contagiante – especialmente quando o vemos a lidar com situações que vão para além da sua experiência (relembremos a situação na ponte) – e os conteúdos adicionais.

Se existia algo a mudar no original eram os seus conteúdos adicionais. Miles Morales continua embrenhado na estrutura cansativa dos títulos em mundo aberto, mas as atividades secundárias são muito mais diversificadas e intrínsecas à viagem pessoal de Miles. Com Nova Iorque deixada ao seu cuidado e com a sombra do Spider-Man original a pairar sobre si, Miles tenta espalhar a sua ajuda pela cidade e com a ajuda de Ganke, lança uma aplicação que dá aos habitantes de Nova Iorque a possibilidade de pedir auxílio ao aranhiço. Desta forma, e através do painel tátil do Dual Shock 4, temos acesso a novas missões regularmente, onde descobrimos narrativas secundárias e vemos o crescimento de Miles enquanto Spider-Man.

No entanto, e aqui surgem problemas, não esperem um reinventar do género. As missões são mais variadas, mas acabam por se tornarem repetitivas. Estamos constantemente a perseguir alguém, a descobrir algo ou a encontrar itens colecionáveis pela cidade. Há hábitos que nunca mudam.

D – Curiosamente, não senti essa repetição. Contudo, senti receio de isso vir a acontecer. O que aconteceu no final foi que limpei rapidamente as atividades secundárias (não contando com os crimes que continuam a acontecer), o que significa que, na verdade, queria mais. Esta ferramenta é muito mais útil para procurar o que fazer, além dos colecionáveis, o que também acaba por tornar a exploração mais interessante. 

Fiquei bastante contente por ver uma diversidade de missões, das mais curtinhas às mais longas, mas acima de tudo à qualidade das interações com NPCs, que, como temos vindo a revelar, estão mais cuidadas. Também as próprias missões secundárias têm um peso maior, com narrativas e personagens interessantes, que não se deixam ficar por muito tempo e criar ruído para a história original. Lá está, está mais contido, focado e com um ritmo muito melhorado.

Os vilões estão em grande destaque e culminam em batalhas explosivas que ganham ainda mais vida na PS5.

C – E eu gosto disso, dessa contenção. É um capítulo mais pessoal e uma excelente distração para o final do ano. Aliás, até acredito que seja um jogo perfeito para o Natal. Às vezes, menos é mais e Miles Morales é um belo exemplo disso!

Não quero ser injusto com o jogo e aqui podes ajudar-me. Eu joguei a versão PS4, numa consola original e sem 4K ou outros efeitos adicionais – como o Raytracing. Esta é a versão mais banal e contida de Miles Morales, e apesar de ter encontrado alguns bugs (como personagens presas nos cenários, vozes cortadas), o desempenho manteve-se muito sólido, com tempos de loading reduzidos e uma enorme fluidez tanto na cidade, como nos espaços mais fechados. No entanto, a verdade é que o jogo grita pela próxima geração. Quando começámos a jogar, lembro-me de dizer-te: o jogo quer mostrar-me algo que simplesmente não está lá. Por exemplo, quando saímos da estação do metro, mesmo no início da campanha, com Miles a absorver as cores do Harlem e a tentar passar o seu fascínio para nós: mas na PS4, é apenas o que vimos em 2018, mas com melhor iluminação.

Não é um jogo horrível ou mal otimizado, não me interpretem mal, mas é um título de transição de consolas onde é sólido na geração passada, mas deslumbrante na mais recente. O que nos tens a dizer, David?

D – Já eu, tive a oportunidade de jogar a versão next-gen e um pouco da original. É interessante trocar entre as duas e sentir a diferença que vai para além dos visuais. Sim, na PlayStation 5 os visuais são muito mais realistas e naturais, mas exceto pelas grandes estruturas envidraçadas da cidade de Nova Iorque, que agora apresentam reflexos realistas, tudo o resto varia do subtil ao extra, com micro-ondas e carros com reflexos realistas e com sombras e contactos também mais naturais. Contudo, o mais impressionante são os tempos de carregamento inexistentes durante os fast-travels e as missões, e a imersão do novo DualSense com as suas funcionalidades. Por exemplo, podemos sentir a tensão das teias e o efeito elétrico dos poderes de Miles. É uma experiência gira, um primeiro excelente exemplo para o início da geração, mas, da mesma forma que impressiona já na PlayStation 5, penso que também impressiona o facto de ainda correr de forma satisfatória na PlayStation 4.

As diferenças entre gerações estão muito assentes numa experiência mais tátil e visualmente marcante, mas ambas as versões são recomendáveis.

C – Sim e é isso que quero sublinhar: ficarão bem servidos com a versão PlayStation 4. É impossível não sentir que o jogo grita pelos tempos de loading inexistentes e pelas funcionalidades do Dualsense – ao ponto de mal ouvirmos o som que sai do DualShock 4 -, mas é, em todos os sentidos, uma pequena evolução do que vimos em 2018 e um exclusivo surpreendente para uma consola com sete anos de existência. A banda sonora, no entanto, é mais refrescante, muito presente, diversificada – como as suas personagens e representatividade cultural –, e até mais personalizada a Miles e à sua estória de origem. É difícil não fazer comparações a Into the Spider-Verse, e aposto que a Insomniac analisou o filme de perto, mas quando as inspirações são boas, o resultado é sempre acima do esperado: e é o que acontece aqui.

D – Sem dúvida. Questiono mesmo se este jogo seria possível sem o sucesso de Into the Spider-Verse, que, na realidade, foi altamente experimental, mas seja como for, ainda bem que aconteceu. Num período político que afeta o mundo inteiro e que tem levantado tantas questões de foro social e cultural, aliado à ridícula popularidade de Spider-Man, este pequeno jogo é de uma coragem enorme e um pequeno diamante que brilha de esperança e representação. Cheio de detalhes e mensagens que não só me deixaram sorridente, como emocionado. Só por isto, merece todos os aplausos.

C Marvel’s Spider-Man: Miles Morales merece todos os aplausos. É uma excelente continuação e a apresentação daquele que poderá ser um dos maiores protagonistas da série. Apesar de alguns percalços, como a utilização das mesmas zonas e alguma repetição nas missões secundárias, é uma aventura empolgante através dos olhos de um jovem herói que quer descobrir o seu lugar no mundo e proteger aqueles que ama. Já viram a sua estória, é longe de ser original, mas há muito amor e dedicação nesta aventura a solo e Miles conseguiu conquistar-nos. A Insomniac conseguiu outra vez.

A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (PS4) foi cedido pela PlayStation Portugal.

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