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Pacer | GLITCH REVIEW

Regressem às corridas futuristas neste jogo inspirado em F-Zero e Wipeout.

Existe um vazio enorme no género de corridas. Um vazio futurista, de velocidades impossíveis e de curvas desafiantes que arriscam qualquer teoria física. É impossível argumentar que o género está a passar por um período difícil, especialmente com o sucesso de Forza Horizon e Project Cars, mas perdemos a diversão do irreal e a imaginação que nos trouxe uma das séries mais emblemáticas da PlayStation. Se Wipeout regressou à sua reforma prematura, os fãs mantêm a sua memória viva e projetos como Pacer, que chega finalmente ao PC e consolas, desafiam o status quo com um verdadeiro regresso ao passado. O rei está morto. Viva ao Rei.

Pacer é um jogo de corridas futurísticas onde controlamos naves através de pistas supersónicas. Com vários modos de jogo, o título da R8 Games recupera o delicioso arrepio na espinha que sentíamos em Wipeout e F-Zero à medida que fazemos curvas impossíveis e evitamos naves rivais e os seus ataques implacáveis. A velocidade é o grande trunfo de Pacer, mantendo a aposta no desafio crescente à medida que aprendemos a conduzir a nossa nave através de pistas imaginativas e igualmente empolgantes. Sejam trechos de velocidade, curvas apertadas – onde parece que estamos a derrapar ao sabor do vento, tal como Mario Kart – ou combates agressivos, Pacer nunca deixa de ser divertido, com o controlo das naves a ser intuitivo, responsivo e muito maleável.

Se jogaram Wipeout, vão sentir-se em casa. O controlo é muito semelhante – ainda que o mapeamento dos comandos difira do exclusivo PlayStation – e vemo-nos dentro de uma nave incrivelmente rápida à medida que a pista se forma à nossa frente, às vezes sem grande tempo de reação. Esta aposta nas reações rápidas seria um tiro no pé se Pacer não fosse tão responsivo, mas sentimo-nos sempre em controlo da direção da nave. Para fazer as curvas mais apertadas, não temos o tradicional travão, mas sim a possibilidade de controlar a direção do ar através do L2 e R2 (na versão PlayStation 4), conseguindo assim redirecionar a nave ao longo de uma curva. Se quisermos reduzir a velocidade, teremos de carregar simultaneamente nos dois botões, num sistema de controlo muito acessível e simplificado, ainda que não aprecie que o botão de aceleração seja o X.

Com esta sensação de velocidade, sentimos a intensidade das curvas sempre que jogamos – seja em que pista for. Um pormenor que adorei, mas que senti que poderia estar mais definido dentro da jogabilidade, é o aumento do volume da música sempre que ativamos o boost da nossa nave. É um crescendo satisfatório que pontua a ação e dá-nos um surto de energia que nos mantém ainda mais concentrados na corrida. De facto, a banda sonora é um passo correto para a R8 Games e a aposta na música eletrónica (mais propriamente IDM) ajuda a compor o seu ambiente futurista e corporativo. Apesar de não conhecer algumas das bandas escolhidas, o meu coração derreteu-se quando vi a presença de Autechre, Plaid, entre outros, na banda sonora. A R8 Games tem bom gosto: está mais que comprovado.

A inteligência artificial deixa, no entanto, um pouco a desejar. Os rivais só são agressivos no início das corridas e não há um grande perigo se mantermos a velocidade.

O design dos percursos é muito satisfatório, mas é, por vezes, demasiado fácil, dando a sensação que foi pensado para jogadores inexperientes com este género. Como porta de entrada, é impressionante, nunca tirando o controlo aos jogadores, e consegui sentir o equilíbrio entre corridas e combate, com cada pista a ter versões noturnas e espaço para vários estilos de jogo: mais agressivo, defensivo ou concentrado na velocidade.

Como seria de esperar, a R8 Games apostou numa enorme variedade de modos que vos irão entreter durante dezenas de horas. Para além das corridas tradicionais, onde poderão combinar velocidade e combate – com as pistas a proporcionarem munições e boosts – e dos modos online, temos à disposição: Elimination, onde temos de ser mais rápidos que os nossos adversários; Combat, onde o foco é única e exclusivamente os confrontos; Endurance, uma prova de esforço e sobrevivência à medida que ficamos sem escudo; Storm, onde é necessário manter-nos dentro de uma tempestade; Flowmentum, onde a velocidade não para de aumentar; Time Trial, para baterem o tempo dos vossos adversários; e por fim, Speed Lap, onde ganha quem tiver a volta mais rápida.

De certeza que conhecem estes modos e que já os experienciaram noutros jogos do género, mas funcionam perfeitamente na jogabilidade e estética de Pacer. Gostava de ter encontrado algo novo, mais personalizado e único, mas prefiro uma seleção sólida de modos do que uma mão-cheia de más decisões de design. Neste sentido, ganha a simplicidade e o bom senso, algo que vemos cada vez menos na indústria dos videojogos.

A excelente seleção de modos dá a Pacer uma longevidade saudável, especialmente se apostarem nas corridas online.

As comparações a Wipeout não têm sido inocentes. É impossível olhar para Pacer e não ver as influências da série da Psygnosis, mas a R8 Games conseguiu criar uma experiência muito mais pessoal do que antevia. Se os modos, pistas e design futurista relembram o clássico dos anos 90 – desde a sua estética até à banda sonora –, o mesmo não podemos dizer da aposta refrescante na personalização. Ao contrário de Wipeout, Pacer deleita-se ao dar controlo aos jogadores, seja no aspeto das naves ou no seu desempenho. Para tal, apresenta um sistema de loadouts, semelhante ao que vemos em jogos FPS, onde podemos escolher e modificar todos os parâmetros da nossa nave.

Através da garagem, podemos equipar novos chassis, alterar a frente e a traseiras das naves, e criar uma experiência à nossa medida. Com a possibilidade de comprarmos novas peças, através de créditos que vencemos entre corridas, abre-se um mundo de possibilidades, onde escolhemos se queremos uma nave mais focada no controlo, na velocidade ou no combate. Com a presença dos loadouts, é possível alternar entre estilos durante um torneio e tudo à distância de um botão. Adorei ter a hipótese de criar a minha própria nave, sem entraves, e senti que o sistema de personalização é muito simples e acessível – perfeito para alguém que, como eu, não é muito paciente –, com os menus a serem diretos e sem designs ruidosos ou confusos.

O mesmo acontece na seleção de armas, outra diferença palpável em comparação a Wipeout. Tal como a aparência da nave, podemos escolher as duas armas que queremos utilizar em combate e definir não só os loadouts, como as modificações que alteram o seu comportamento. Também podemos comprar novas opções na garagem e continuar a aumentar o potencial do nosso armamento. É um sistema que acabei por gostar, mas não está livre de críticas. Como não temos a necessidade de encontrar armas durante as corridas, Pacer muda o sistema de armamento e disponibiliza antes munições nas pistas. Até aqui tudo bem. No entanto, existe um limite desnecessário e só podemos ter uma bala de cada vez, não existindo a possibilidade de acumularmos munições. Tendo em conta que temos um tempo de espera entre utilizações, sinto que esta limitação tira algum do impacto das armas e sentimos que não estamos preparados para reviravoltas na corrida. Talvez tenha sido essa a intenção da R8 Games, essa sensação de perigo, mas se olharmos para Wipeout, onde estamos regularmente a trocar de armas, cria-se um enorme cansaço e as armas tornam-se mais descartáveis.

Podemos recarregar o escudo em vários pontos da pista, o que muda também o que vimos em F-Zero.

Outro problema que encontrei, e que me enervou um pouco, foi a criação de campeonatos. Ao contrário de outros títulos do género, não temos uma lista de campeonatos à nossa disposição no modo Carreira. Para acedermos a novas etapas, temos de as criar manualmente ao escolhermos qual queremos terminar primeiro. Este sistema não é intuitivo, aliás, é tudo menos isso. No entanto, percebo a sua presença do jogo: a R8 Games quis dar-nos a possibilidade de escolhermos a ordem do modo Carreira. Mas se não sabemos o que nos espera e se desbloqueamos novas pistas entre campeonatos, porque haveríamos de escolher outra ordem senão aquela que o jogo disponibiliza? Apesar da simplicidade dos menus, esta decisão é quase absurda e espero que uma sequela corrija este modelo arcaico do modo de Carreira.

No final do dia, Pacer é um grande regresso a uma era que está cada vez mais distante. Apesar do sucesso Fast RMX, é difícil vermos novas apostas no género de corridas que se desviem do ultra-realismo e de ambientes em mundo aberto. Pacer é a alma dos anos 90 em peso, muito viva e saudável, e mesmo com os seus problemas, vejo um futuro sorridente para a produtora – e aguardo por uma sequela ainda melhor.

A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (PS4) foi cedido por Jesús Fabre. Relações Públicas.

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