PÔR OS PÍXEIS NOS I'S

O meu vício por troféus e achievements

Um retrato sobre os anos que passei como caçador de troféus nas consolas da Sony.

Olá, chamo-me João Canelo e sou viciado em colecionar troféus/achievements. Escrever esta frase é quase terapêutica. Dizem que o primeiro passo para a recuperação é admitir que temos um problema e é o que estou aqui a fazer. Apesar de estar a vencer este vício com uma década de existência, a verdade é que ainda sinto diariamente os seus efeitos à medida que jogo algo novo e tento perceber como devo completar tudo para atingir a tão cobiçada platina. É um problema sempre presente, como podem imaginar.

Como começou? Como tudo: de forma simples. Comprei a PS3 no final de 2009 e vi-me a entrar num novo e admirável mundo digital. Disse olá à alta definição e despedi-me dos anos que passei a jogar em televisões de caixa grande e a revisitar clássicos do passado. Sabia da existência dos achievements e troféus, mas nunca lhes liguei. Quando comecei a jogar, não me preocupei em completar tudo a 100%, não existia a ambição e a necessidade em ouvir o “pling” dos troféus na minha televisão. Olhando para trás, consigo ver que a forma como jogava era igual à que tinha nas gerações anteriores, onde terminava um jogo e raramente o repetia.

Bioshock foi um dos primeiros jogos que completei na PS3, meses antes de começar a colecionar troféus. Estes icónes são, no entanto, uma janela para aquela época.

As minhas sessões de jogo começaram a mudar quando terminei a coleção SEGA Mega Drive Ultimate Collection Game em casa de um amigo. Em 2010, o meu grupo de amigos juntava-se todas as semanas para jogar, ver filmes e descontrair depois do trabalho. Numa dessas sessões, orbitámos para a coleção e fomos numa viagem pelo tempo que nos permitiu redescobrir Sonic, Streets of Rage e Vectorman. Em poucos minutos, surgiu uma ideia estranha, algo que nunca havia sido discutido em grupo: e que tal completarmos a lista de troféus? A decisão estava tomada. Em pouco tempo, tínhamos chegado à Platina. Senti-me satisfeito e algo mudou naquele momento. A alegria de ter colaborado com amigos para atingir um troféu fictício foi o catalisador para anos de repetição massiva e dormente, mas naquele dia, a justificação era outra: com os troféus, tínhamos mais motivação para repetir jogos e aproveitá-los ao máximo.

Ainda concordo com esta ideia e sublinho que são importantes para manter o interesse dos jogadores. A verdade é que descobri muitos jogos porque me arrisquei a desbravar pelos seus troféus e encontrei alguns dos meus títulos favoritos da geração porque me vi a repeti-los várias vezes sem me cansar. Há aqui um lado positivo se nos soubermos controlar. O meu problema foi deixar-me moldar pela necessidade constante de completar um jogo a 100%, não me permitindo avançar para outro até o conseguir fazer. Criou-se uma obsessão que demorou anos a enfraquecer e a libertar-me das suas amarras sujas, que ainda assim apertam-me o pescoço.

A satisfação de ver o troféu de platina e a barra completa moviam-me de jogo para jogo. Deixar algo incompleto era uma dor de cabeça, mas com o tempo consegui libertar-me dessa necessidade.

Pedi a coleção emprestada e voltei a completá-la em casa. A seguir, comprei Splatterhouse, o remake, e fui ver pela primeira vez os troféus com atenção. Analisei o que conseguia fazer e a sua dificuldade depois de terminar o jogo. Percebi rapidamente que era fácil e o isco estava lançado. Estes foram os primeiros jogos numa lista de 80. Sim, 80. Quando já estava motivado para ganhar o maior número de platinas, criou-se um desafio supostamente saudável entre mim e o meu amigo. A ideia era ultrapassar o outro e manter sempre a vantagem. Não existiam mais regras e por mais fáceis que os jogos fossem, eram sempre válidos. Nunca enveredei pelos jogos infantis e pelos crashbags da PlayStation Store, mas em 2013, vi-me com mais de 6 platinas de avanço. Era o novo campeão.

Com o tempo, comecei a perceber o quanto isto me estava a afetar. Deixava de jogar algo novo para ficar preso aos mesmos jogos durante dias. Não conseguia avançar até ter tudo completo e sentia-me fisicamente mal quando tinha de admitir a derrota e deixar algo incompleto. Devo sublinhar que esta caça ao troféu nunca afetou a minha vida social, não cheguei a esse ponto, mas quando estava em casa não conseguia afastar-me da consola até sentir que tinha concluído a minha missão.

Comecei a seguir sites especializados, a criar listas e a verificar o meu ranking sempre que ganhava novos troféus.

Sinto que 2013 foi o ponto mais baixo desta carreira do novo milénio. Foi o ano em que joguei até à exaustão The Last of Us, DmC – Devil May Cry, Devil May Cry HD Collection, El Shaddai: Ascension of the Metatron e Jak & Daxter HD Collection. Tudo pelos troféus. É tão estranho olhar para trás e sentir novamente esta falsa obrigatoriedade, e pensar nas justificações que arranjava para continuar: a ideia de que estava a valorizar os jogos e a rentabilizar o investimento. Na verdade, só queria ganhar mais troféus, ultrapassar o meu amigo e sentir que estava a ganhar num ano cruel a nível profissional. Foi um ano em que perdi estágios importantes por tecnicidades e mentiras, em que falhei em entrevistas que pareciam condenadas à partida e onde apostei em projetos de cinema que nunca saíram do papel. Mas na PS3? Tinha seis platinas à frente do meu amigo. Estava bem.

Sinto que estou a pintar um quadro muito negro e a agigantar o que aconteceu naquelas anos, mas quero sublinhar que me estou a libertar desta pressão desnecessária. Ainda olho para os troféus? Sim. Ainda platino alguns jogos? Claro que sim, mas apenas aqueles que adoro ou que considero serem divertidos. Já não persigo troféus e nem sinto a pressão de o fazer. Estou a libertar-me gradualmente, apesar de ainda retirar algum prazer nestas conquistas. É contraditório, eu sei, mas um passo de cada vez.

O que os troféus mudaram na minha rotina? A mais importante, e a mais vergonhosa para mim, foi a necessidade de jogar apenas jogos que tivessem troféus. Se não tinham, não importavam. É horrível pensar assim, não é? Mas cheguei a este ponto. Perdi muitos jogos do início da geração porque não tinham ainda o sistema de troféus e arrependo-me. Como disse anteriormente, não saia de um jogo até o terminar e perdi também a oportunidade de experimentar algo novo sempre que encalhava numa lista de troféus. É a realidade.

Nunca devemos menosprezar o lado psicológico das obsessões e com algum distanciamento consigo perceber o que me levou a depender tanto desta pequena rotina.

A escrita sobre videojogos ajudou a desvincular-me deste vício. Vi-me a analisar jogos, a sentir a pressão deliciosa de passar de texto para texto, às vezes sem tempo para respirar, e os troféus foram perdendo a sua magia. Não havia tempo para isso. Comecei a interessar-me mais pela área, a querer saber mais e sinto que cresci. Foi uma fase, está terminada. Foram os loucos anos 20, se me permitem dizê-lo. Agora vejo-me com outra obsessão: a descoberta. Quero honestamente jogar coisas diferentes e continuar a melhorar como crítico. Quero aprender com os videojogos e não ficar obcecado com troféus fictícios.

Como disse, ainda não estou completamente fora deste círculo vicioso, mas estou muito melhor. Descobri, por exemplo, que só sinto necessidade de colecionar troféus nas consolas da PlayStation – a minha plataforma principal – e que a obsessão não passa para outras plataformas. Consigo jogar na Xbox One sem me preocupar com isso e a Nintendo Switch permite-me desligar completamente o cérebro e esquecer-me que existem. São métodos terapêuticos, acreditem. Sinto a magia a desaparecer e sinto-me melhor com isso. E é assim.

No fundo, quero apenas sublinhar que deviam jogar El Shaddai.

Mas odeio troféus e achievements? Nem pensar. Como disse, penso que podem ser divertidos e uma forma interessante de expandir a vida de um videojogo. A culpa foi minha e apenas minha, tenho total consciência disso. É um sistema que pode continuar durante vários anos, não me afeta. São sempre necessários? Claro que não e existem até casos em que quebram a imersão dos videojogos, mas com o tempo, podem moldar-se e assumir novas formas ainda mais competentes. Esperemos pelo futuro!

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