PÔR OS PÍXEIS NOS I'S

Os Tempos de EA Active 2

Vamos regressar ao tempo em que tentei fugir aos ginásios com a aposta da EA para o mercado do fitness.

Estou gordo. Isto é uma realidade incontornável. Não há espelho que não me diga o mesmo. Estava gordo antes da pandemia e continuo gordo a meio da mesma, quase seis meses depois de confinamento. Fiquei preso à cadeira, aos textos, ao trabalho à distância, aos projetos de cinema e ao próprio medo do COVID-19. Ganhei raízes em casa e agora começo a sentir o cansaço da gordura, das caminhadas que parecem ser cada vez mais longas e duras. Devia ir para um ginásio, mas a vergonha, essa triste amante, é mais forte do que gosto de admitir. Penso em alternativas, em soluções que unam hobbies e deem-me a ilusão de que estou, de facto, a fazer exercício. Penso em Ring Fit Adventures, a solução supostamente perfeita, mas sinto um arrepio na espinha quando combino “videojogos” e “exercício” na minha mente. Inconscientemente, viajo até ao passado e até ao meu mês com… EA Active 2.

Sejam bem-vindos ao 10º Círculo do Inferno.

Foi em 2011. Estava no clube de vídeo, num emprego sem futuro, estagnado. Passava o dia sentado na cadeira a ver filme e a atender os poucos clientes que ainda acreditavam no ato de alugar um DVD. Numa tarde, algures no verão, provavelmente durante um dia de tédio desesperante, olhei para a minha barriga e apercebi-me que estava a engordar. Durante anos, fugi à responsabilidade, mas naquela tarde decidi mudar as coisas. No dia seguinte, antes de entrar no clube de vídeo, visitei o ginásio que existia na minha rua. Durante anos, olhei para o ginásio e tive receio de entrar, mas naquele dia estava determinado. Entrei, falei com o dono e, tal como qualquer estória da minha vida, recebi uma dose de realidade e absurdismo: aquele era o último dia do ginásio. Isto foi poético. Como seria de esperar, a determinação arrefeceu e não consegui entrar noutro ginásio, mas quis enganar a alma. Encontrei uma solução, um penso rápido: EA Active 2.

Não sei o que me levou à experiência falhada da EA, mas talvez estivesse destinado. A única forma de enganar a minha preguiça e teimosia seria com videojogos, e EA Active 2 era a solução perfeita. Encomendei o jogo. Semanas depois, estava preparado para mudar a minha rotina e injetar algum exercício à minha vida. O plano era simples: antes de entrar no clube de vídeo, fazia uma sessão em EA Active 2 e seguia um regimento diário ao longo de um mês. O plano estava traçado e a motivação cresceu. Os meus amigos gozaram com a decisão, mas estava decidido em mostrar-lhes que ia conseguir os resultados que queria. Havia esperança.

Estava preparado para ser esta pessoa, a correr pelas praias…mas dentro de casa.

EA Active 2 apresenta vários exercícios e planos diários, semanais e mensais para que possamos avançar ao nosso ritmo. Desde flexões a agachamentos, o jogo de desporto e fitness tem um pouco de tudo, e os exercícios diários tentam exponenciar as sessões ao máximo. Primeiro, o aquecimento com exercícios simples que preparam o corpo. De seguida, musculação ou cardio, opções que variam (se bem me recordo) de acordo com o dia. Por fim, o relaxamento do corpo e o fim da sessão. Isto acontecia em 30 minutos, dependendo da nossa prestação, e repetia-se ao longo de uma semana. Os exercícios podiam aumentar de dificuldade de acordo com a nossa resistência e o jogo esforçava-se para ser o mais delicado e acessível com os seus utilizadores.

A caixa incluía uma cópia do jogo, um elástico para auxiliar nos exercícios e os sensores para as pernas e os braços. Uma vez instalados, estamos prontos para as sessões de fitness. Os sensores funcionam por wireless e registam todos os movimentos realizados. Na verdade, não é assim tão realista, pelo menos com a minha experiência, e os sensores apenas calculam o que estamos a fazer, quase sem certezas. Isto levou a uma sucessão de acontecimentos que me deixaram exasperado com EA Active 2 e o ato de fazer exercício com videojogos.

Cada exercício tem de ser repetido um número específico de vezes e não podemos avançar até os terminar. Isto deu origem a uma sucessão de pequenos infortúnios.

O primeiro dia foi descontraído, tudo funcionou como devia. Os exercícios foram acessíveis e os sensores reagiram tal como era suposto. O segundo dia manteve esta aura positiva e a minha motivação continuou a crescer. No final de cada sessão, via as calorias que tinha queimado e sentia-me contente – mal sabia eu que aqueles valores eram risórios. A semana avançou sem problemas, até que comecei a verificar um problema com os sensores: não registavam agachamentos. Um horror! O meu coração palpitava durante os exercícios sempre que apareciam os malditos agachamentos e os sensores não registavam o que estava a fazer. A instrutora virtual exigia que me baixasse mais, mas era impossível: já estava de rabo no chão. O desespero instalou-se, o nervosismo também e senti-me a perder para a máquina. “Não desistas, continua a fazer o exercício”, ecoava pela sala e eu pingava de suor a tentar que os sensores respondessem. Nada.

Qual seria o problema? Desta vez, não era meu: eu estava a fazer tudo bem. Nunca consegui definir com exatidão o que se passou com os sensores do jogo, mas fiquei desconfiado que se tratava da minha altura. A informação poderá estar perdida no manual, mas concluí que a EA criou o jogo a pensar no mercado casual e num tamanho mais universal. Eu meço 1.85m, um pouco acima da média, algo que pode ter mexido com os sensores de EA Active 2. Por mais que me baixasse, o jogo concluía que ainda estava de pé. A frustração foi indescritível.

Isto está a deixar-me ansioso.

Para ser sincero, penso que não fiz um mês na totalidade. Não me consigo recordar se mantive essa meta ou não. Lembro-me, no entanto, do episódio que me levou a desinstalar o jogo para sempre. Depois de algumas sessões, verifiquei as calorias perdidas. Não fiquei surpreso, mas mantive as esperanças e acreditei que podia não ser o número correto. Como poderia o jogo calcular o que tinha perdido? Só havia um teste possível: comparar o peso. Antes de começar as sessões de exercício, medi a minha barriga e registei o meu peso. Semanas depois, não sei quantificar o número exato, tive finalmente a resposta para o meu trabalho: engordei um quilo. Nunca mais voltei a EA Active 2.

Nove anos depois, vejo-me na mesma situação. Devo ou não apostar em Ring Fit Adventures? Irei aproveitar as suas sessões de exercício e gostar da sua experiência entre fitness e uma aventura RPG? Não sei, ainda sinto o trauma do EA Active 2 e custa-me dar tanto dinheiro por mais um periférico da Nintendo. Eu sei que há uma evolução e que já não estamos em 2011, mas talvez esteja na hora de quebrar a ilusão e parar com as desculpas. Vamos dar umas caminhadas, correr no jardim e perder a vergonha de entrar num ginásio. Vamos ser adultos…pelo menos até a Nintendo anunciar uma promoção.

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