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Quatro Coisas Boas e Más em Hellpoint

Um Soulslike que é tão ambicioso como problemático.

Estou dividido. A minha experiência com Hellpoint, o novo título da Cradle Games, tem sido um misto de sentimentos desde a primeira hora. Se, por um lado, temos um mundo misterioso para explorar e um sistema de combate simples, mas suficientemente desafiante, por outro, temos uma estrutura demasiado linear e um desempenho que fica aquém do esperado. Não é fácil adaptar a fórmula Soulslike, ainda mais quando se trata de uma produção independente, e Hellpoint é mais uma das suas vítimas, mas há algo cativante na sua campanha – não consigo explicar o quê. Não é Nioh 2, mas também não é Immortal: Unchained: é algo entre os dois.

Sem chegar a um consenso, decidi falar sobre quatro boas e más sobre Hellpoint.

O Mundo

Apesar de não ser visualmente deslumbrante, há algo de misterioso em Irid Novo. Os seus corredores metálicos, as criaturas biomecânicas, os seus cultos, o cataclismo que se aproxima e os seus mistérios conseguem motivar-nos a contornar alguns dos seus problemas técnicos. Há tensão, medo e uma certa opressão perante um mundo que parece ser maior que é, com seres transcendentais e entidades incompreensíveis. Senti uma vontade genuína em criar um mundo coeso e uma narrativa empolgante, apesar de ser muito confusa.

A Linearidade

Infelizmente, Hellpoint é mais linear do que estava à espera e vi-me a percorrer cenários idênticos compostos por salas e corredores repetitivos. Existem alguns segredos para encontrar, alguns deles até desafiantes e muito bem escondidos, mas a campanha é maioritariamente segura. Quando não é segura e linear, é confusa, misturando zonas numa mescla de cinzentos e de salas metálicas que dificilmente conseguimos distinguir. Não é fácil percebermos onde estamos, especialmente nas primeiras zonas, devido a esta dificuldade na leitura dos cenários. É linear e confuso, ambicioso e seguro ao mesmo tempo.

Existe uma sensação de mistério neste mundo metálico, mas a sua aposta em cores neutras e em sombras acabam por condicionar a navegação pelos seus cenários.

A Exploração

Mas nos poucos momentos de exploração, Hellpoint é cativante e consegue demonstrar uma clara compreensão do level design desde subgénero. Estamos constantemente a encontrar novos itens e recompensas quando exploramos, e é comum vermos itens ao longe, escondidos por detrás de barras ou a uma distância supostamente impossível de encurtar. Isto leva-nos a investigar minuciosamente os cenários, a utilizar as plataformas – aqui existe um botão de salto e a Cradle Games soube usá-lo – e a verificar todos os recantos de Irid Novo. Existem níveis e atalhos que ficam disponíveis à medida que eliminamos os bosses, o que nos motiva a retroceder e a revisitar as zonas passadas. Há muito para encontrar aqui

Visualmente Aborrecido

O problema é que Hellpoint é desinteressante a nível visual e na direção de arte, focando-se numa estética metálica que nunca altera. O cinzento é um pesadelo constante neste mundo que se queria mais arriscado, mais surreal e biomecânico, mas que reserva muitos dos seus mistérios para o final da campanha. Até lá, são salas, corredores, elevadores, estações cinzentas e uma resolução baixa, onde é fácil perdermos a nossa noção espacial.

O Combate é Variado

Não é perfeito, mas Hellpoint oferece muitas opções de combate e personalização. O sistema de evolução é semelhante a Dark Souls e outros jogos do género, onde temos de reunir Axions, as almas deste jogo, para aumentarmos os parâmetros da personagem. Os tipos de armas são associados, como na série Souls, a determinados atributos e é necessário saber o que evoluir e a personagem que queremos construir. Felizmente, existe um leque interessante de armas, desde espadas a machados e pistolas, com habilidades únicas e a possibilidade de evoluirmos cada peça de equipamento. Há também um sistema de crafting, que nos permite criar e melhorar armas, algo que se torna incontornável à medida que avançamos na campanha.

IA Inconsistente

Surge, no entanto, outro problema. O jogo não é propriamente difícil. Existe um desafio, claro, e alguns inimigos são intimidantes, mas Hellpoint sofre de má IA e é fácil baralhar os inimigos ou prendê-los aos cenários, algo que devia ser melhorado num futuro patch. Os padrões também não são imaginativos e as hordas ora atacam desenfreadamente, como não atacam sequer. Morri poucas vezes em Hellpoint e 80% das vezes foram de quedas inesperadas devido ao design dos níveis e à sua aposta na escuridão – algo que me enervou profundamente. Mas e os bosses? A mesma coisa. Encontrei vários confrontos onde os bosses perdiam o interesse e paravam de atacar. Alguns confrontos foram resolvidos à primeira ou à segunda, simplesmente por explorar as suas limitações de movimentação e ataque. Um desperdício.

O design é intimidante, mas a dificuldade não é capaz de injetar algum desafio a estes confrontos.

Habilidades e Armaduras

Podemos alegar que o sistema de combate simplificado é um incentivo à exploração. Claro que isso seria desculpar os erros de IA, mas a verdade é que me senti mais aventureiro em Hellpoint e fiz questão de visitar todas as zonas. Isto foi motivado por uma ausência de perigo, mas também por apreciar o design quase Giger-esco das armas e armaduras, o que me levou a mudar constantemente a aparência da minha personagem. As armas são interessantes, diferentes, muito alienígenas, mas igualmente familiares e com um motor de jogo mais apurado, sinto que Hellpoint podia ser visualmente marcante e não apenas um misto de sensações.

Mau Desempenho

Este misto de sensações é exponenciado pelo mau desempenho e por bugs complicados de desculpar. As texturas péssimas, as quedas de framerate, os tempos de carregamento – uma panóplia de problemas. Claro que, e isto deve ser sublinhado, tudo isto pode ser resolvido com patches e o apoio da produtora ao longo dos próximos meses, mas é muito difícil recomendar um jogo onde já fiquei preso nos cenários ou vi tudo a desaparecer depois de um salto – literalmente. Algumas escolhas de design também são estranhas, como o posicionamento dos Axions quando morremos, que ficam literalmente no local onde morremos. Não ao lado, milímetros mais à frente ou atrás: é no local exato. Caímos num poço? Bem, esse poço tem um chão, logo, é aí que ficam. Espero que mudem isto.

E Hellpoint é assim: uma coisa boa, outra má. Mas será um jogo mediano? Bom? Mau? Ainda não consigo determinar e a única forma de chegar a um consenso é continuar em frente e desbravar caminho pelo jogo. Por agora, estou curioso e apreensivo com Hellpoint, e sinto que o jogo vai, a qualquer momento, quebrar a boa-fé que tenho e ensinar-me a não duvidar das minhas primeiras impressões. Mas até lá, Hellpoint é um Soulslike ideal para quem quer descobrir mais sobre o género e para quem já concluiu todos os melhores jogos deste estilo.

O código para análise (PS4) foi cedido pela tinyBuild Games.

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