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Deadly Premonition 2: A Blessing in Disguise | GLITCH REVIEW

Perdoa-lhe pai, que ele não sabe o que escreve. Nesta análise, o André desanca num jogo que não devia existir...

Lembram-se daqueles filmes dos anos 80 que começavam numa situação embaraçosa, a cena congelava com o ruído de um disco riscado e a personagem começava a narrar como havia chegado ali? E só depois é que o filme começava. Foi exactamente isso o que senti com este jogo. Querem saber como cheguei a este estado? Venham daí.

Deadly Premonition 2: A Blessing in Disguise, ou DP2, é dos piores jogos que já tive nas mãos e na televisão. E, por esta altura, já vi a minha quantidade de jogos maus e muito maus, mas DP2 bateu recordes. Desde ao desempenho às mecânicas, à premissa. Eu sei lá. Se vivêssemos no universo do Eternal Sunshine of the Spotless Mind, pedia para esquecer as minhas horas com ele.
O primeiro título, também disponível na Nintendo Switch, era “humilde”. Saiu numa altura estranha após ter estado preso num development hell, mudou o nome Rainy Woods para Deadly Premonition e acabou por não sair na PS2 para sair na nova geração de consolas. O resultado foi… digamos que entrou para o Guinness World Records por ter as classificações mais díspares, o jogo tanto foi dizimado como aplaudido pela crítica, mas a verdade é que tentou fazer algo novo; tentou seguir o seu rumo e contar a sua história, com as suas mecânicas e tiques. Teve imensos problemas técnicos, mas esses problemas tornaram-se feitios em vez de defeitos.
Mas uma sequela? Acho que ninguém sonhou com uma sequela depois do primeiro, mas aqui estamos.

Isto é uma intervenção…

Até que entendo as boas intenções de Swery (Hidetaka Suehiro). O senhor tinha uma história para contar, tinha o orçamento e a plataforma para tal, mas em vez de olhar para a prequela e melhorá-la, decidiu-se pelo contrário e tentar o mesmo feito, acabando com um jogo bem pior.
Pensem no The Room, do Tommy Wiseau. Tommy queria fazer um filme sério, um drama pesado com personagens trágicas, mas acabou com uma paródia de filme, uma comédia imprevista que se tornou num filme de culto, exibido por todo o mundo, em eventos interactivos e com uma legião de fãs enorme! Tommy começou por ser defensivo, mas lá abraçou o fenómeno, afinal, ele continuava a facturar com o filme!
Vai daí, em vez de olhar para o The Room e tentar algo diferente, quis apanhar um segundo relâmpago no frasco, parodiando-se, mas todos os filmes que saíram a seguir eram maus, mas não maus que até eram bons como o The Room. Eram embaraçosos. E é o que sinto com este DP2. Em vez de continuarem com uma sequela boa ou até normal, forçaram-se a criar um jogo igual ao primeiro, problemas e tudo, acabando por sair pior. Contaram uma anedota engraçada, mas agora só a estão a repetir e já não tem piada.

Havia uma razão para os gráficos de PS2 do primeiro! Era a consola original e para criarem um mundo aberto, teve de haver sacrifícios. Deadly Premonition conseguiu criar coisas boas: uma cidade para explorar; pessoas que a habitavam e tinham uma vida; várias actividades e mecânicas como a necessidade de comer e beber – café, muito café: entre outros; mecânicas de combate; um mistério para resolver e diálogos pejados de surrealismo que bebia inspiração de Twin Peaks.
Mas a segunda parte não tem desculpas para o estado miserável em que foi lançada. Temos a tecnologia e o conhecimento para desenvolver algo decente, mas o resultado foi um jogo que nem sequer corre bem sem se engasgar. É quase uma apresentação em PowerPoint. Os frames caem constantemente, mesmo ao virar a câmara, nem é preciso uma cena pesada. A personagem anda e o jogo trava ou crasha.

Não posso discordar.

Os gráficos. Não digo que os gráficos sejam datados porque há gráficos PS2 que ainda são vistosos, aqui só são maus. Se as personagens conseguem algum nível de detalhe, os cenários e o mundo estão péssimos, desfocados, pixelizados ou vazios porque o jogo não consegue mais. Ao mesmo tempo, a banda sonora arranha os ouvidos de tão deslocada que é e os diálogos quase que se safavam porque me remetiam para os tempos em que as dobragens eram cheesy e más, assim da altura da Playstation original.
O jogo tenta recuperar o charme do que se fazia na altura, mas já vi vários indies que queriam replicar o passado em vários géneros para acabarem com jogos forçados e sem alma, mas com boas intenções. Só que de boas intenções o inferno está cheio.

Gostei de alguma coisa em DP2? A história e o novo mistério prometiam, mas com tantos problemas e com a dificuldade que estava a ter a jogar, senti-me desmotivado a desfrutar da escrita e daquele mundo peculiar, constantemente interrompido por tiradas cinéfilas ou monólogos surreais. Nesta sequela terão dois casos para resolver, um que decorre no presente e introduz a inspectora Aaliyah Davis a interrogar uma personagem familiar e o segundo caso, em flasback, que decorre na cidade fictícia Le Carré com um Francis York Morgan mais novo.
É óbvio que os dois casos estão ligados e mesmo que o fim não seja original ou satisfatório, interessa a viagem e esta será atribulada!

Com dores de cabeça por falta de café.

A existência deste jogo é problemática porque a Nintendo Switch conseguia melhor e os jogadores também o mereciam! Um jogo a correr neste estado passa a imagem de que a consola não tem capacidade para mais; que será sempre inferior e a casa de ports e lançamentos às três pancadas quando temos um The Witcher 3 com melhor desempenho. Entretanto, já foi lançado um patch que melhorou alguns problemas, bem como o tratamento de uma personagem que gerou polémica. Ainda assim, DP2 não está num estado jogável e veio-me à cabeça o Pillars of Eternity que também demorou uma eternidade até ficar decente.
Blessing in Disguise será adorado por muitos, odiado por outros. É bem provável que se torne num jogo de culto, numa bizarria excêntrica e numa lição de humildade. Quanto a mim, não o posso considerar uma benção disfarçada, mas uma maldição à vista de todos.

Fui!
A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise foi cedido pela Nintendo Portugal.

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