REVIEWS

Outsider: Depois da Vida | GLITCH REVIEW

Um título que explora o universo sci-fi numa dança de simbolismos e metáforas, graças a uma narrativa inteligente.

Outsider: Depois da Vida chega aos dispositivos móveis para provar que a produção nacional está pronta para sair fora da caixa em direcção ao universo. Literalmente.
Uma aventura que une mistério e uma narrativa de ficção cientifica repleta de simbolismo, sob a forma de puzzles com um ADN muito próprio.

Depois de ter chamado à atenção nos PlayStation Talents de 2018 (nomeação para melhor jogo português) e, um ano depois, no Indie X 2019 (no qual foi vencedor do prémio de Melhor Jogo Português), Outsider: Depois da Vida chega finalmente às mãos dos jogadores, no Android e iOS. Neste jogo indie da Once a Bird, acompanhamos a história de  HUD-ini, um andróide que, ao que tudo indica, é a última esperança da humanidade – extinta há séculos, como consequência de uma catástrofe e da falha da iniciativa “Escape” (o derradeiro plano de sobrevivência que nunca chegou a ter sucesso).

Outsider é, na sua génese, um jogo de puzzles… muitos puzzles! Poderão contar com uma quantidade extensa de quebra-cabeças para resolver, naquela que é uma seleção de grande originalidade. As temáticas de cada puzzle são enquadradas na narrativa do jogo, variando ao longo da história, e o desafio e mecânicas correspondem ao momento da ação na qual se inserem. Além dos tradicionais puzzles de correspondência, há ainda quebra-cabeças diferenciados, como aqueles com componentes musicais, num equilíbrio saudável entre desafios mais complexos e outros mais simples. Trata-se de um jogo acessível, ainda que desafiante, que tira partido de um meio-termo de exigência coeso, implementado a um ritmo que deverá ser confortável para a maioria dos jogadores adultos.

Ainda assim, é importante mencionar que, por vezes, há uma sensação de desorientação na resolução dos puzzles. O jogo tem um sistema de explicação e dicas para resolver cada desafio (que podem ativar ou desativar), mas, nem assim, deixei de sentir que nem sempre as sequências lógicas de resolução são facilmente apreensíveis. Se em alguns puzzles a mecânica a seguir é clara, noutros acontece o oposto: é impossível perceber o que realmente se fez de diferente, em relação às tentativas anteriores, quando resolvemos o puzzle com sucesso. Apesar da muito ocasional sensação de confusão, em cerca de quatro horas de jogo (um valor que dependerá muito da vossa disponibilidade, assim como, da vossa capacidade mental) e de dezenas de puzzles, identifiquei apenas duas ou três situações em que me senti frustrada.

Apesar disso, tive sempre vontade de voltar para continuar a progredir na história. Fica a nota de que Outsider é, na minha opinião, uma experiência que deverá ser jogada de uma só vez. Não é que não seja possível voltar à história depois de um dia sem jogar, mas a narrativa será claramente apreendida de forma mais rica se completarem Outsider numa só sessão. Para esta análise, realizei duas “runs”: uma com pausas mais longas (incluindo diferença de dias) e, a outra, sem pausas. Não tenho quaisquer dúvidas sobre qual das duas preferi. Outsider não é, assim, um título causal para ser jogado em curtos períodos de tempo.

Isto acontece, em grande parte, devido ao peso da narrativa. A premissa é simples e explora uma temática comum no universo sci-fi: humanidade sob a ameaça da extinção, jogador que controla a última esperança da humanidade. Contudo, Outsider consegue refrescar este argumento quer através de alguns detalhes na narrativa – como, por exemplo, deixar abertas à interpretação questões relacionadas com a religião e o cosmos. Sem querer estragar a experiência com spoilers, Outsider explora, de forma penetrante e curiosa, temáticas como a relação “homem-máquina”, o peso das consequências das nossas escolhas e a forma como, tantas vezes, procuramos porquês para perguntas sem resposta. Leva-nos numa jornada de descoberta e questionamento acerca da existência de ciclos perpétuos de início e fim, nascimento e morte, e convida-nos a reflectir sobre os significados a estes ligados. Afinal, o que há “depois”? O que há “lá fora”?

Há reflexão, drama, humor e questionamento e é neste campo que Outsider se torna mais do que um simples jogo de puzzles. Pisca o olho a obras literárias e cinematográficas da cultura sci-fi, explorando a linha que separa (ou não) mecânico de orgânico, circuitos de um andróide do organismo de um ser vivo. No final, qual o valor da vida de cada um destes? Quem salvará quem? A componente emocional é, em grande parte, transmitida ao jogador via protagonista. HUD-ini já me tinha chamado a atenção no primeiro contacto que tive com Outsider e, nesta versão final, depois de o “controlar”, devo dizer que esta peça central da narrativa tem tanto de peculiar, como de doce.

Contudo, devo confessar algum descontentamento com o facto de a narrativa de Outsider não ter sido mais aprofundada – através de mais momentos de exploração ou mesmo com a adição de lore associado à história, por exemplo. Teria sido interessante encontrar mais vestígios do passado, em notas da equipa de investigação perdidas no laboratório, ou mesmo via flashbacks do próprio HUD-ini. Outsider é, assim, um jogo linear, com momentos pontuais que dão aos jogadores algum contexto sobre a forma como chegaram ao momento presente da história – deixando grande parte do enredo aberto à interpretação.

Neste sentido, em termos de replay value, Outsider, após ser completado, não oferece grande incentivo à sua repetição – à parte do desafio de repetir os puzzles ou da descoberta de alguns detalhes da narrativa que poderão ter passado despercebidos. No entanto, e devido à natureza do seu desfecho, considero que existe muito espaço para a continuidade desta aventura, através de atualizações que poderão chegar sob a forma de novos puzzles ou mesmo num formato de expansão da narrativa.

Como ponto positivo, a narrativa deste título tem momentos de humor que me fizeram soltar gargalhadas genuínas. É bom ver que a equipa quis expressar-se também neste campo, num jogo que, apesar de ser feito de influências, tem também uma dose enorme de originalidade – aliás, arrisco-me a dizer que tem o sistema de “convite à avaliação” mais original que já vi num jogo mobile.

Esta originalidade sente-se também ao nível daqueles que serão dois dos pontos mais fortes de Outsider: arte e banda sonora. A arte do jogo da Once a Bird é futurista, com uma estética forte, apostando em paletes que contrastam entre si para ampliar a dimensão da narrativa. A combinação de tons, cores e texturas criam cenários memoráveis com o design das animações e puzzles a captar a atenção do jogador de forma bem conseguida – algo que é resultado também do excelente trabalho de câmara. Dos interiores frios e repletos de tecnologia aos exteriores inóspitos, terrâneos e quentes, o trabalho da Once a Bird destaca-se no que diz respeito à direção artística. Destaque semelhante para a banda sonora do jogo, que combina ritmos melancólicos com melodias que vão buscar algo ao lo-fi para criar o casamento perfeito entre a sonoridade e a temática do título.

Neste ponto, apenas uma crítica: tanto a banda sonora como os efeitos de som deveriam ser mais proeminentes em determinados momentos do jogo. Notei esta questão, em particular, durante uma batalha com um boss. Tendo em conta o clímax que advém da interacção com este tipo de adversário, a sequência exigia um maior investimento a nível sonoro, algo capaz de acompanhar um confronto daquelas dimensões e peso na narrativa. A falta de dinamismo acabou por tornar a resolução desta sequência de puzzles em algo anti-climático.

Em termos de performance, Outsider chega-nos numa versão muito otimizada, sem bugs visuais ou quebras de frame rate. O jogo arranca e carrega com uma leveza notória nos dipositivos Android e o facto de a narrativa se desenrolar num único take contínuo faz de Outsider uma experiência imersiva que corre de forma suave, sem interrupções. A apontar apenas duas situações nas quais foi necessário reiniciar o jogo para que o puzzle pudesse ser completado – uma questão que, achamos, será facilmente resolvida numa futura atualização.

Por fim, vale a pena referir ainda que Outsider está legendado, também, em português.

Em suma, Outsider: Depois da Vida é uma criação nacional de grande qualidade e uma experiência mobile diferente, original e muito bem conseguida. Um título que explora o universo sci-fi numa dança de simbolismos e metáforas, graças a uma narrativa inteligente, com um final surpreendente, e puzzles únicos que nos divertem enquanto nos desafiam.

A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise foi cedido pela Once A Bird.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: