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PS5 | Para quando a next-gen?

A apresentação de uma nova consola tem o propósito de nos fazer querer comprar essa nova consola. Mas o que eu vi não foi next-gen.

A PlayStation é talvez a única marca com que tenho uma relação próxima. Em jeito de velho do Restelo, resisto a acreditar na imagem que as marcas tentam usar como máscara (não, Coca-Cola, não és o Natal nem felicidade engarrafada), mas, para mim, a PlayStation é diferente. É única série de consolas onde The Last Guardian seria possível depois de Ico e Shadow of the Colossus terem falhado comercialmente, e isto diz muito sobre a cultura da marca. Naturalmente, tendo em conta que estamos num salto de geração, queria que a apresentação tivesse explorado as novas capacidades da PS5 (rapidez de loading, fidelidade gráfica, som tridimensional) com jogos que tirassem partido das mesmas.

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“E com este salto tecnológico vamos poder continuar a jogar os mesmos jogos!”

Em vez disso, começámos com GTA 5, um jogo lançado há duas gerações. Seguiu-se um trailer de Spider-Man: Miles Morales da Insomniac, que aparentemente o estúdio não vê bem como uma sequela, mas como uma expansão. Houve um trailer longo de Gran Turismo 7 (ainda sem data), uma série de teasers de indies, um Resident Evil novo que me deixou confuso, um remake de Demon’s Souls , um ou dois jogos ainda com nome de código (o que não inspira confiança – lembram-se de Deep Down da Capcom?), um novo LittleBigPlanet (desta vez a competir directamente com Super Mario Odyssey?) e Horizon 2: Forbidden West.

Há uma regra de ouro em qualquer forma de narrativa: mostra, não contes. Uma apresentação de uma nova consola é uma narrativa com o propósito de nos fazer querer comprar essa nova consola. Mas o que eu vi não foi next-gen. Na maioria dos jogos não vimos gameplay, mas trailers cinemáticos com o motor de jogo. Quem diria que a Ubisoft agora era trendsetter? Mesmo os jogos que podem ser ditos como interessantes e originais não tiveram tempo para respirar, quanto mais brilhar. Devo ficar entusiasmado com algo que não faço ideia o que é suposto ser?

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O teaser de Stray mostra-nos tudo o que precisamos de saber para já: somos um gato num mundo de robôs. Mas o que raio é o Project Athia?

A nova geração de consolas vai a bom tempo de começar, mas ao olharmos para a forma como a Sony tem gerido a revelação ao longo do último ano, parece que não vai haver um salto, mas um simples passo. Já na última transição fiz a mesma pergunta: o que é que muda fundamentalmente nesta nova geração que ase aproxima? Gráficos? Tempos de carregamento? Foi anunciado um novo Ratchet & Clank que mantém o design original da era da PS2. Uma nova geração não pode ser exclusivamente um upgrade de hardware. Esse hardware deve existir (e tempos assim o foi) para permitir que as experiências também evoluam.

No início do artigo dei a obra de Fumito Ueda como exemplo do que só se pode encontrar na PlayStation, e o que tanto Ico como Shadow of the Colossus e The Last Guardian comprovam é que o hardware existe para potenciar o game design. À apresentação da PS5 faltou originalidade entre os grandes nomes. Mostraram-nos sequelas, continuação de histórias em suspenso, mas, no que toca a jogos, é fundamentalmente mais do mesmo. Algo está errado quando se sai de uma apresentação de uma nova consola da Sony e o que mais nos cativou foi um indie (Little Devil Inside) de uma produtora que nunca ouvimos falar (Neostream), e cujo financiamento foi garantido através de uma campanha no Kickstarter. Se ao menos fosse um exclusivo da Sony, talvez não soubesse a tão pouco.

Não tinha expectativas para o directo e ainda assim saí desapontado. Não sou adepto do look da PS5, mas sei que isso é apreciação pessoal. Também dizer o mesmo sobre os jogos que foram apresentados, mas a Sony não mostrou nada em concreto. É fácil sentirmo-nos entusiasmados com teasers e trailers de séries que conhecemos, mas não tínhamos qualquer referência para todos aqueles indies, e foram o grosso do directo. Sou adepto de indies, defensor de que estão na vanguarda criativa da indústria, mas uma consola de nova geração precisa de oferecer mais do que títulos multiplaformas de baixo orçamento.

Costumo sempre torcer o nariz a títulos de lançamento (uma e outra vez ficamos a saber que são mais para inglês ver, uma espécie de placeholder, do que projectos em que os produtores acreditam), mas mesmo assim esta geração parece pobre em comparação com as anteriores. Depois deste directo, não me espanta que a Sony tenha finalmente decidido ceder ao pedido dos jogadores para garantir retrocompatibilidade, ainda que só para os jogos da PS4. Com uma oferta tão pouco inspirada, fica mais fácil dar o salto para a nova geração sabendo que não tenho de deixar jogos para trás ou que tenho de ter mais do que uma consola ligada.

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A versão digital é uma proposta interessante, mas que não me inspira confiança dada a gestão da loja da PSN entre regiões e a política de devolução da PlayStation.

A maior surpresa do directo para mim foi a revelação da Digital Edition, uma opção sem leitor de discos, coisa que a Microsoft já oferece na geração corrente. É bom ver a Sony dar-nos esta hipótese, mas isto obriga-nos a pesar o universo digital e a compará-lo com o físico. Dadas as limitações ainda impostas pelo formato, acabam-se os jogos emprestados, as compras em segunda-mão e as retomas e os jogadores ficam reféns dos preços da loja da PSN que teima em não acompanhar as descidas de preço das lojas físicas. Sou um defensor do software digital – reduz o entulho em casa, a poluição no mundo e garante um maior conforto na gestão da nossa ludoteca –, mas há muito que fazer, muito que mudar para que esta opção seja a melhor para o consumidor.

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A experiência de lidar com o serviço de apoio ao cliente da Loja PlayStation.

 

Se tenho dúvidas de que a PS5 vai ter óptimos exclusivos? Nenhuma. A lista de estúdios internos da Sony é invejável e muitos não estiveram presentes no directo. Fica a vontade de saber o que a Naughty Dog trará à PS5, se o Santa Monica Studio tirará partido das capacidades da consola para a sequela de God of War, e o que a Sucker Punch fará depois de Ghost of Tsushima. Para já, não sinto qualquer pressa para apanhar a primeira vaga. Gosto muito da PlayStation, mas todas as gerações faço-me difícil e obrigo a Sony a conquistar-me de novo. Esta não é excepção.

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