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Those Who Remain | GLITCH REVIEW

A Camel 101 aposta novamente no terror psicológico e traz-nos aquele que é o seu melhor jogo.

Depois de Syndrome, a portuguesa Camel 101 está de regresso ao género de terror na primeira pessoa com Those Who Remain. O jogo, distribuído pela Wired Productions, promete ser um choque no panorama nacional, aproveitando o pré-lançamento e as inúmeras presenças em eventos e festivais para garantir uma popularidade inesperada para uma produção portuguesa. Felizmente, a Camel 101 não desilude com o seu novo projeto, demonstrando que há muito a descobrir nestas terras de Camões.

Algo aconteceu em Dormont. A pacata cidade foi transformada do dia para a noite num verdadeiro pesadelo. Os seus habitantes desapareceram misteriosamente e a escuridão, que agora cobre as suas ruas, esconde figuras estranhas que nos observam ao longe. Como Edward, perdido entre a realidade e o sonho, temos de enfrentar o nosso passado e descobrir o que se passou em Dormont, numa campanha repleta de terror psicológico e surrealismo.

Those Who Remain não esconde as suas inspirações e mune-se de uma narrativa pouco surpreendente, mas sólida, equilibrando elementos paranormais e de ocultismo com uma viagem pessoal centrada na culpa e no remorso. A Camel 101 demonstra, do princípio ao fim, um amor e carinho pelo género que dão ao jogo uma maior envolvência. Mesmo sem apresentar grandes surpresas, a campanha é empolgante e visualmente variada para nos motivar a ir em frente. A experiência não é longa, mas é, na minha opinião, focada e com a duração certa, equilibrando uma estrutura mais próxima de títulos como Amnesia: The Dark Descent, com momentos de puzzles e surrealismo.

A campanha leva-nos numa viagem por Dormont, desde a estação de serviço à esquadra de polícia, e não só, dividindo a ação entre quebra-cabeças – alguns muito eficazes e desafiantes – e a exploração. O horror está sempre próximo, com a escuridão a esconder figuras estranhas que nos observam ao longe. Rapidamente aprendemos que temos de evitar as sombras e manter-nos na luz, senão seremos mortos. A exploração é assim dividida entre a descoberta dos locais e a manutenção da luz – através de quebra-cabeças desafiantes, muito imaginativos e pouco frustrantes –, com as figuras a desaparecerem sempre que encontramos um novo foco de iluminação – à semelhança de Lights Out, curta realizada por David F. Sandberg. Com a presença destas sombras, Those Who Remain consegue criar um ambiente tenso, de dúvida, onde sentimos constantemente que estamos a ser observados e testados.

Apesar de não ser assustador do princípio ao fim, o jogo consegue utilizar as suas mais valias para criar um ambiente de insegurança e de estranheza, onde temos tanto receio de avançar, como curiosidade em descobrir o que se esconde nas sombras.

O segredo de Dormont é um dos focos do jogo, mas Edward também ganha destaque à medida que avançamos e descobrimos mais sobre o seu passado. Como Silent Hill, o título da Camel 101 divide assim o protagonismo entre Edward e a cidade, construindo um mundo onde nada é o que parece. A experiência culmina com a presença de um sistema de moral, onde somos obrigados a determinar a culpabilidade de uma personagem. Não posso, como podem imaginar, descrever como funcionam e quando surgem estas sequências, mas posso, isso sim, dizer que estão muito bem implementados na campanha. As decisões não são simples e existem nuances nas nossas escolhas que determinam o final que conseguimos (no total de três finais). Nada é tão simples como aparenta ser, existindo sempre uma segunda interpretação às situações que vamos julgar. Há muito para descobrir em Dormont e mesmo sentindo a falta de mais colecionáveis e detalhes sobre o passado da cidade, a Camel 101 conseguiu equilibrar a narrativa e a jogabilidade de forma a manter-nos investidos. Há sempre algo novo a acontecer nesta aventura e existe uma aposta na narrativa visual que deve ser elogiada.

Those Who Remain destaca-se pela sua aposta num ambiente surreal, apresentando cenários e momentos narrativos onde a realidade e o sonho se fundem. Estas sequências, que evoluem ao longo da campanha – tornando-se mais presentes e essenciais para a resolução de certos puzzles –, demonstram o cuidado da Camel 101 e a sua determinação em dar uma maior personalidade ao seu projeto. Cenários invertidos, salas que mudam de disposição à medida que avançamos, jogos de luz e sombra, corredores com braços que nos tentam agarrar e até homenagens a David Lynch e Twin Peaks; há um pouco de tudo em Dormont. Esta aposta cria também uma enorme sensação de mistério, motivando-nos a descobrir os segredos da cidade e dos seus habitantes. O que aconteceu em Dormont? O que está por detrás desta escuridão crescente? Torna-se empolgante saber o que a Camel 101 vai mostrar a seguir.

A combinação entre o surrealismo, os elementos psicológicos e os puzzles é o que torna Those Who Remain numa experiência tão sólida. Especialmente os puzzles, que são capazes de desafiar os jogadores sem se tornarem frustrantes.

Esta aposta no surrealismo é auxiliada por um bom trabalho de iluminação, com o uso das sombras a ser eficaz. As tonalidades frias, como o azul, ocupam grande parte da experiência e criam uma envolvência com os amarelos e vermelhos da luz, que servem tematicamente como faróis de segurança. A iluminação é importante em Those Who Remain e a sua utilização é refletida também nos puzzles, com a campanha a apostar sempre nesta relação entre luz e sombra.

No geral, a Camel 101 conseguiu fazer um bom trabalho no seu novo projeto, existindo efetivamente uma evolução desde Syndrome, mas tenho de apontar alguns problemas e defeitos incontornáveis. O primeiro, e mais presente, é a sua inconsistência visual. Se, por um lado, temos uma forte aposta no surrealismo, na criatividade visual e numa estética mais ponderada, mas também cliché do género, por outro, temos texturas pobres, muito básicas e que dão ao jogo um aspeto mais plástico. Pedia-se uma maior variedade de cenários, de elementos estéticos e decorativos – com os assets a repetirem-se muito ao longo da campanha –, e há uma clara diferença entre os momentos surreais e a realidade. Dormont, quando iluminada, perde muito da sua magia. O mesmo acontece com os modelos das personagens, que são muito desinteressantes e pouco imaginativos, com animações limitadas e robóticas, criando uma sensação de estranheza sempre que os vemos.

Ao longe, a direção de arte consegue esconder alguns dos maiores problemas do jogo, mas é impossível não reparar nos modelos desinteressantes quando estamos a resolver puzzles mais complexos.

Não é um jogo que chame a atenção pelos gráficos, mas sim por momentos curtos de beleza estética e de ideias, mas o desempenho, na versão PS4, não facilita. Existe um stuttering quase sempre presente no jogo e as quedas de frame rate são muito mais acentuadas em momentos específicos da campanha, como zonas mais extensas. Encontrei também alguns bugs, especialmente na banda sonora, com os sons a desaparecerem ou a serem cortados quando mudamos de sala, e um erro que me obrigou a reiniciar o jogo, transportando-me para um cenário sem luz. Não foram bugs que me condicionassem por completo a experiência do jogo e que poderão ser resolvidos com um patch para as consolas, mas é importante identificar que eles, até à data de escrita desta análise, ainda estão presentes. Já no PC, estes problemas não são tão presentes e o desempenho é muito mais sólido.

O meu maior problema com Those Who Remain não é, no entanto, o desempenho ou a sua falta de fidelidade visual, mas sim a sua aposta em momentos de perseguição. Tal como SOMA, o jogo da Camel 101 coloca um monstro indestrutível no nosso encalço, deixando-nos só com a opção de fugir. Estas criaturas surgem em momentos específicos da campanha, mas não adicionam nada ao ambiente e à estrutura do jogo. As perseguições não são tensas, quebram por completo a tensão natural do jogo e, a nível mecânico, não compreendemos como funcionam; se nos conseguem ver ou ouvir e a descoberta é, quase sempre, sinónimo de Game Over. No entanto, e aqui surge a contradição, são igualmente fáceis de evitar e seguem um padrão muito rígido, com a IA a revelar as suas limitações. Se mantivermos a distância, não corremos perigo. Este elemento podia ter sido mais equilibrado ou simplesmente retirado da campanha, ainda mais quando o design das criaturas é tão desinspirado e banal. É o único ponto negativo que posso identificar ao jogo, a não ser os seus problemas técnicos.

As portas dividem as várias sequências de ação do jogo e são a única salvação nos momentos mais intensos. Infelizmente, existem momentos em que a Camel 101 esconde demasiado a sua localização e torna a sua descoberta como um jogo de gato e rato frustrante.

Those Who Remain conseguiu manter-me agarrado do princípio ao fim, oferecendo uma experiência sólida e misteriosa o suficiente à medida que desvendava os segredos de Dormont e de Edward. Há muito para descobrir neste jogo português, mesmo com os seus problemas e falta de cuidado visual, e é com orgulho que vemos os nossos produtores a darem mais um passo em frente, enfrentando o risco. Que este seja mais uma etapa importante para a Camel 101 e que a equipa nos traga, em breve, mais um jogo de terror psicológico como este.

A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (PS4) foi cedido pela Wired Productions.

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