REVIEWS

Ion Fury | GLITCH REVIEW

Bombshell veio para partir cabeças e comer pastilhas elásticas, e ela já não tem mais pastilhas.

Há muito amor em Ion Fury. Há amor, violência, humor, entranhas e falas repletas de estilo e referências. É, acima de tudo, uma homenagem à época dourada dos títulos de ação na primeira pessoa, numa produção que recupera, inclusivamente, o clássico motor gráfico, Build Engine, que nos trouxe jogos como Duke Nukem 3D e Blood. Ion Fury não é, no entanto, apenas mais uma adaptação das mecânicas tradicionais do género, mas sim um verdadeiro regresso ao passado que consegue, em quase tudo, captar a magia dos originais e criar, ainda assim, a sua própria identidade.

Se são fãs do género, em especial de Shadow Warrior e dos clássicos DOOM, Ion Fury é absolutamente imperdível. Desde a utilização do já mencionado Build Engine, até às mecânicas focadas na ação e na exploração, a Voidpoint conseguiu criar uma experiência fidedigna aos títulos em que se inspirou. Não só é rápido, difícil e sangrento, como apresenta um design de níveis soberbo e um leque de armas variado e muito equilibrado. Para todos os sentidos, Ion Fury parece ter saído diretamente de 1996, como um jogo de culto perdido no tempo.

Como seria de esperar, Ion Fury está interessado em colocar-nos no centro da ação e das suas hordas de inimigos do que em contar uma estória. Regressámos à simplicidade, à época em que John Carmack dizia que as estórias num videojogo é como uma estória num filme pornográfico; Ion Fury mantém essa mentalidade e filosofia vivas. Existe, claro, um contexto, uma narrativa com princípio e fim, seguindo as aventuras de Shelly “Bombshell” Harrison contra o terrível Dr. Jadus Heskel, mas a Voidpoint retirou quaisquer excessos narrativos para se focar num elemento: as referências culturais. Tal como Duke Nukem 3D, Ion Fury não está preocupada em contar a sua estória ou em desenvolver as personagens, mas sim em debitar falas repletas de estilo, em one liners, que rapidamente ficarão datadas; tal como adoramos.

Em todos os sentidos, Ion Fury é clássico, familiar e tradicional. O design dos níveis é variado, conseguindo encontrar um equilíbrio entre a exploração e as arenas de combate – apetrechado de caminhos alternativos e de várias abordagens dentro e fora dos confrontos, juntamente com segredos e outros colecionáveis –, e manter uma leitura acessível dos cenários. Há uma direção e uma noção forte de design, que, mesmo com uma aposta em níveis mais extensos e labirínticos, nunca nos deixam perdidos ou confusos com o seu layout. São, acima de tudo, mapas desenhados à mão, de forma meticulosa e muito densos que revelam a dedicação e compreensão da Voidpoint do género e dos títulos em que se inspira.

As armas destrutivas, como as Uzi que deixam os inimigos em chamas, e é sempre divertido ver o dano causado pelos cenários.

Com o movimento rápido, quase frenético, de Bombshell, a jogabilidade foca-se no desafio e nos confrontos intensos, mas é sempre intuitiva. As mecânicas são simples, não indo além do disparo, do salto e da utilização de itens adicionais. A ação está equilibrada e Ion Fury foi pensado para nos manter em movimento, com os níveis a revelarem sempre pontos estratégicos essenciais para a nossa sobrevivência. Ion Fury não é injusto, mas também não tem quaisquer problemas em puxar por nós. Este equilíbrio entre risco e recompensa é conseguido através de um bom posicionamento de inimigos em campo e da sua variedade, com cada monstro cibernético a complementar-se perfeitamente. Existem, como em todos os jogos, alguns inimigos – como as aranhas mutantes – que acabam por quebrar um pouco o ritmo da ação, mas Ion Fury nunca perde o seu foco.

É impressionante reencontrar o Build Engine mais de 20 depois do seu desaparecimento. O motor, que nos trouxe, para além dos já mencionados, título como PowerSlave e Witchaven II, é uma bomba nostálgica, dando origem a um jogo que é, acima de tudo, rápido, implacável e com um sistema de sprites detalhados. Para além de alguns efeitos de luz, que parecem ser mais modernos, Ion Fury podia ser perfeitamente um jogo lançado em 1997, tal foi a dedicação da Voidpoint em recriar este estilo de FPS já perdido. E ao contrário de outras imitações e homenagens, Ion Fury não só se assemelha visualmente aos clássicos, como consegue emular a sua jogabilidade, banda sonora, direção de arte e design de níveis; tudo num só pacote.

Os inimigos cibernéticos são um dos destaques do jogo, juntamente com os seus bosses, mas tenho de sublinhar a importância do seu posicionamento dentro dos níveis e da forma como a Voidpoint conseguiu equilibrar a dificuldade da campanha: há sempre uma alternativa.

Ion Fury seria uma cápsula temporal se não tivesse, na minha opinião, a mecânica de carregamento das armas. Ao contrário dos jogos em que se inspira, o título da Voidpoint insiste em adicionar uma mecânica que quebra, muitas das vezes, o ritmo da ação. Com um sistema de combate tão frenético e próximo dos inimigos, ainda mais nos seus espaços fechados, o carregamento de armas, manual ou automático, não vem adicionar nada à sua jogabilidade, antes pelo contrário. Podemos contra-argumentar e dizer que é uma forma de adicionar mais estratégia aos confrontos, mas quando temos um design de níveis tão complexo, que apela à exploração e ao reposicionamento constante dos jogadores, não consigo ver esta adição como tal.

Outro problema é o mapeamento dos controlos e a consequente passagem do teclado e rato para o comando. Basta jogarmos Ion Fury durante cinco minutos para percebermos que é um jogo pensado para o PC e não para as consolas, com os movimentos da personagem e da câmara a não serem tão fluídos como deveriam ser. É mais difícil de apontar e manter uma mira estável com o comando, algo que é incontornável numa adaptação desta natureza. Apesar dos problemas, de onde destaco a escolha de armas através dos botões direcionais, não posso dizer que o mapeamento dos controlos fez-me parar de jogar, mas sublinho que existiu um período de habituação.

Mesmo com alguns problemas técnicos, a chegada de Ion Fury às consolas deve ser celebrada. A Voidpoint fez um excelente trabalho em adaptar e homenagear uma das épocas mais nostálgicas dos videojogos, e conseguiu, simultaneamente, criar uma experiência familiar e refrescante. Ion Fury não precisa de grandes narrativas, de sensibilidades cinematográficas ou de personagens profundas para agarrar os jogos, mas sim de um excelente armamento, de um design de níveis exímio e de alma, amor e até alguma infantilidade. É a década de 90 condensada num só jogo e eu não o poderia recomendar mais.

A escala utilizada é de 1 a 10

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: