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Os Tempos da Feira Popular

Um regresso à época dourada dos salões de jogos.

A minha história com os videojogos começou como um mero acaso. Num natal, não consigo especificar quando, recebi a minha primeira consola, a Atlantis – uma clone da NES, com vários jogos –, e dei por mim a entrar num estranho e fascinante mundo. Não me recordo de pedir uma consola ou de saber o que eram videojogos antes de receber a Atlantis, mas parece que estava destinado. De um momento para o outro, tinha um comando nas mãos, controlava as personagens, saltava, corria e atacava como elas. Super Mario, Link e Pac Man eram os meus novos amigos, e os videojogos a minha nova e crescente obsessão.

É como olhar para o espelho de um passado peculiar e cada vez mais distante.

Da Atlantis, passei para a Master System e, em pouco tempo, recebi a Mega Drive, a SEGA Saturn e a PlayStation. A minha história com os videojogos estava traçada. O meu amor pela indústria crescia de ano para ano e passei a estudar revistas, catálogos e lojas de brinquedos em busca de novidades. Queria saber e jogar mais. Mas a minha história não se ficou apenas pelas consolas domésticas. Havia todo um mundo novo que viria a descobrir e que moldaria para sempre o meu amor pelos videojogos; um mundo sujo, barulhento e muito mais assustador do que aquilo que os meus olhos de criança viam. Em 1995, descobri a Feira Popular de Lisboa e os seus enormes salões de jogos.

Já partilhei algumas estórias de infância com vocês, mas penso que nunca mencionei as minhas aventuras na Feira Popular de Lisboa. Não sei como, nem porquê, mas o meu pai, que nunca tinha gerido um restaurante, decidiu arriscar tudo e aceitar o desafio de explorar o Boca do Metro, o snack bar localizado numa das entradas da Feira. Durante dois anos, o meu pai fez parte da incrível e colorida equipa da Feira Popular, vivendo de tudo um pouco: festas, festivais, discussões, lutas, barulho, música. A aventura foi curta, até ao final da parceria, mas durante esses anos, passei vários dias na feira a descobrir um novo mundo.

A roda gigante, a montanha russa e o temível sobe e desce nunca serão esquecidos.

Nunca fui uma criança muito dada. Sou, e serei sempre, uma pessoa tímida, mas na Feira Popular, devido ao meu pai, era uma espécie de mascote. Todos me conheciam. Quando entrava na Feira, tinha acesso a todas as diversões, fossem montanhas russas, casas de terror ou outras das atividades espalhadas pelo recinto lisboeta. A minha idade, como podem imaginar, era a minha maior inimiga e recordo-me de ficar desapontado por não conseguir visitar a Casa del Terror, que tinha sido inaugurada há pouco tempo. Fora esta limitação, o mundo (Feira) era a minha ostra. Nada era impossível.

No meio de tanta oferta, que culminou na saturação de quem tinha acesso a tudo – de miúdo mimado pelas circunstâncias mais estranhas –, descobri os salões de videojogos. Estes salões, caso não se recordem, eram verdadeiras Mecas. As paredes estavam decoradas por cabines de jogos e por máquinas de pinball. No meio, cabines enormes, com várias motas e alguns clássicos já esquecidos. O som era ensurdecedor, uma cacofonia de músicas e efeitos sonoros que se confundiam com o som do snooker e dos discos que chocavam. O fumo era tão intenso, em alguns destes salões, que existia uma nuvem cinzenta permanente no teto. Um verdadeiro paraíso.

Existiam, se bem me lembro, cinco salões na Feira. Os dois primeiros, do mesmo dono, estavam posicionados numa das entradas, ao lado do Boca do Metro. Os restantes estavam espalhados pelo recinto, mas destaco o salão que ficava ao lado do Poço da Morte – estes nomes não se esquecem –, onde existia aquela cabine fantástica de After Burner, que se movia de acordo com o jogo. Estes cinco salões tinham alguns dos maiores clássicos e sucessos da época. Mortal Kombat, Super Street Fighter 2 – que tinha uma cabine com um ecrã enorme para dois jogadores –, Super Hang On, SEGA Rally, Pang, Lethal Enforcers e muito mais. Os meus olhos mal queriam acreditar no que estavam a ver. Não me recordo da minha primeira reação, mas lembro-me de passar horas a olhar para as máquinas, completamente boquiaberto, tentando escolher o que devia jogar.

A minha aparente popularidade não passava apenas por viagens gratuitas nas montanhas russas e por doces e outras iguarias. O meu grande segredo, e a razão que me levava a querer passar dias de verão na Feira Popular, era o acesso às cabines. Nem sempre conseguia, como podem imaginar, mas existia sempre um momento em que um dos donos, e amigo do meu pai, me dizia para escolher as cabines que queria. Escolhia o jogo, ele abria o painel elétrico e adicionava créditos gratuitos. A partir dali, a máquina era totalmente minha. Não consigo quantificar o número de jogos que experimentei durante aqueles anos, mas foram muitos. O meu truque de magia não me deu, como podem imaginar, acesso às cabines mais populares, que estavam sempre repletas de jogadores, mas foi no antro dos salões que descobri alguns dos maiores títulos de culto da época.

Os simuladores eram impressionantes e recordo-me de ter medo de cair das motas sempre que jogava.

Lembro-me perfeitamente de uma mão cheia desses jogos. Starblade era um deles, um título de ação espacial, que viria a aparecer como mini-jogo em vários títulos da Namco. Este On Rails Shooter era um poderio gráfico para a época e a cabine era, para mim, impressionante. Quando estava livre, era onde passava parte do meu tempo. Night Slashers era outro dos destaques, um beat’em up de terror e comédia que me assustava profundamente. Os zombies cuspiam sangue e ficavam despedaçados com os ataques mais poderosos, algo que nunca esqueci. Depois havia Splatterhouse, Robocop, T2: The Arcade Game e Snow Bros; todos eles imperdíveis. Joguei demasiado.

Dois anos depois, o meu pai deixou a Feira Popular de Lisboa. Para trás ficaram memórias, pessoas e costumes que já considerava meus. Recordo-me bem das aventuras, dos dias em que andavam entertainers espalhados pela Feira vestidos de Robocop, Batman ou com um robot teleguiado de Johnny Five, do filme Curto Circuito (John Badham, 1986). Havia muita vida naquela Feira. O meu olhar de criança talvez tenha adocicado todas as memórias que ainda tenho, até porque sei que existia algum perigo nas ruas do recinto, mas tenho saudades de visitar a Feira Popular, os salões e de reencontrar os protagonistas desta estranha parte da minha vida.

Havia muita magia no design das cabines.

Em 2002, pouco antes do encerramento, voltei à Feira. Estava no 10º ano e fui jantar com a minha turma a uns dos restaurantes. Não reconheci ninguém, todos tinham desaparecido. A Feira parecia estar mais vazia e despida, longe do que tinha visto há apenas cinco anos. Os salões estavam mais vazios, as cabines envelhecidas e recordo-me de não querer jogar nada. Agora tinha uma PlayStation 2, já não precisava de jogar clássicos perdidos em cabines mal-cheirosas. Pela primeira vez, tive medo de caminhar pela Feira, com medo de ser atacado ou assaltado. As mesmas ruas, que considerava minhas, eram agora negras, de sombras serradas, sujas, despidas de personalidade. O à vontade com que caminhava, ainda jovem, pela Feira tinha desaparecido. A magia tinha terminado.

Hoje em dia, a Feira Popular de Lisboa é um espaço abandonado, um terreno cheio de lixo e entulho. Supostamente, teremos o regresso do espaço algures entre 2021 e o infinito, mas nunca será a mesma coisa. Tenho saudades daqueles tempos, dos salões de videojogos e da antecipação e magia em encontrar títulos que pensei nunca ver nas consolas. Com o verão a chegar, e com o mundo ainda em isolamento devido à pandemia, vejo-me a recordar estes tempos de simplicidade, de aventura e de estórias impressionantes. E o que nos espera senão um mundo totalmente digital? Cada vez mais pertencemos a museus.

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