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Stranded Deep | GLITCH REVIEW

Sejam bem-vindos ao arquipélago mais mortífero de 2020.

A indústria dos videojogos tem, inconscientemente, revelado um enorme e mordaz sentido de humor nestes últimos dois meses. Em tempos de quarentena, de pandemia e de distanciamento social, vimos o lançamento de Resident Evil 3, Deliver Us the Moon, Memories of Mars, Gears Tactics e Moons of Madness, jogos que, direta ou indiretamente, nos transportam para cenários apocalípticos, de vírus mortais e de futuros incertos. A ironia é mais que clara e chega a ser cómica pelo acaso nesta sucessão de lançamentos, e agora começamos maio com Stranded Deep, um jogo de sobrevivência e ação que nos transporta para uma ilha deserta e em total isolamento. Sejam bem-vindos a 2020.

Lançado originalmente em 2015, em Early Access, Stranded Deep é um fragmento da era dourada dos jogos de sobrevivência, chegando ao PC com um conceito interessante e diferente da norma. Ao contrário de 7 Days to Die, The Forest, The Long Dark e Ark: Survival Evolved, a Beam Team Games abandonou os futuros incertos e depressivos para se focar num cenário mais realista, transportando-nos para uma ilha deserta, rodeada de quilómetros de mar selvagem, após um trágico acidente de avião, do qual somos o único sobrevivente. Agora sozinhos, a nossa missão é simples: aprender e sobreviver.

Stranded Deep não está interessado em revolucionar o género, mas sim em proporcionar uma experiência sólida, intensa, divertida e igualmente desafiante. Para tal, mune-se dos clichés mecânicos e narrativos dos títulos de sobrevivência, e cria a estrutura para uma aventura empolgante em torno de um arquipélago repleto de segredos por descobrir. A campanha foca-se, desta forma, na recolha de recursos, na manutenção das necessidades básicas da personagem (comer, dormir, beber água), na criação de ferramentas e armas essenciais, na construção de estruturas e jangadas, e na exploração minuciosa das ilhas. Se já jogaram Subnautica ou Green Hell, vão sentir-se em casa.

A construção de um mundo dividido por ilhas é aliciante. Apesar da aparente proximidade, cada ilha é um objetivo e um desafio, obrigando-nos a criar estratégias e a gerir recursos para que possamos criar meios de transportes que nos ajudem a alcançar novas terras. À medida que exploramos, temos acesso a novos recursos, que desbloqueiam mais e melhores ferramentas, e que, por sua vez, criam novas opções de proteção e habitação. Esta é a progressão do jogo, esta constante evolução, crescimento e procura por melhoramento pessoal que nos motiva a arriscar e a desbravar caminho num ambiente hostil e desconhecido.

Existem momentos de pura beleza e destaco ainda a presença de um ciclo de dia e noite, e de clima dinâmico.

Tem de existir, na minha opinião, alguma criatividade por parte do jogador e Stranded Deep deixa-nos sempre espaço para explorarmos as mecânicas ao nosso ritmo. A duração da campanha dependerá do vosso empenho e dedicação, mas também dos objetivos que traçam para a vossa aventura. Querem aprender a viver no arquipélago sem pensarem em escapar? Ou querem arranjar um meio de transporte que vos leve de volta à civilização? Esta escolha determina a longevidade de Stranded Deep, que poderá ter entre 20 a 70 horas, dependendo do que querem retirar do jogo. Com uma lista extensa de materiais para construírem e uma dificuldade sempre presente, mas justa, é um jogo que oferece muito conteúdo e que justifica perfeitamente o seu valor monetário.

A evolução da personagem é um dos destaques de Stranded Deep e o fator determinante na vossa relação com o mundo do jogo. A Beam Team Games quis injetar a sensação de crescimento pessoal na jogabilidade, a vontade de ultrapassar qualquer obstáculo e a luta contra as adversidades. Esta ideia de evolução é cimentada através da realização de tarefas básicas, como construir novas ferramentas ou caçar, pelo desbloqueio de novas opções de crafting e a nossa efetividade em campo. À medida que sobrevivemos e os dias passam, a nossa personagem fica mais forte, mais resistente e resiliente, melhorando a sua prestação em qualquer tarefa, diminuindo o seu tempo de espera e rapidez. Quanto mais nos habituamos às ilhas e à sua fauna e flora, mais nos sentimos à vontade e determinados, e Stranded Deep consegue construir a sua temática a nível mecânico. É simples, não existem dúvidas, mas é também um método eficaz para nos manter agarrados à campanha e ao seu mundo. É uma motivação para criarmos objetivos diários e é sempre reconfortante vermos os frutos do nosso trabalho; o acampamento que cresce, as armas que se fortalecem e a jangada que nos leva até mais longe.

E quanto mais avançamos, mais desafios encontramos, como os bosses enormes que se escondem no fundo do mar.

Existem, no entanto, algumas decisões que não apreciei ao longo das minhas horas. A primeira, e a mais pessoal, é o número limitado de inventário. Apesar de termos baús e um cinto de ferramentas à disposição, que podemos melhorar ao longo da campanha – e que nos dá acesso ao menu rápido para as ferramentas e armas –, nunca me senti confortável com o espaço que temos para a recolha de recursos. Quando um jogo se foca tanto na deslocação entre ilhas, torna-se monótono fazer tantas viagens para recolhermos tudo o que precisamos. A segunda é a recolha individual de itens, e não automática, também é desnecessária e um pouco aborrecida, mas é já um cliché do género que não prevejo que seja alguma vez alterado permanentemente.

Os problemas mais graves registam-se no desempenho e nos controlos. Como seria de esperar, a passagem para as consolas não foi suave e Stranded Deep apresenta alguns downgrades e uma performance pouco estável. Mesmo com alguns momentos de extrema beleza, muito devido à flora das ilhas, o jogo não consegue evitar a presença de bugs visuais, de queda de frame rate, de uma profundidade de campo fraca – que dá lugar a popins – e de texturas pouco convincentes. A movimentação também é muito pesada, especialmente no controlo da câmara, e é uma pena não termos a possibilidade de aumentarmos a sensibilidade dos analógicos. Estes problemas não condicionam por completo a experiência, mas relembram-nos constantemente de que Stranded Deep é, acima de tudo, um jogo para PC e não para consolas. O mesmo podemos dizer da UI e dos menus, que foram pensados para o teclado e rato; ainda que aqui não sejam muito intrusivos ou difíceis de navegar.

Podem personalizar a personagem e até a campanha em si, existindo várias opções que nos ajudam a determinar a dificuldade do jogo. Existe, por exemplo, a possibilidade de jogarmos com permadeath, mas a escolha é nossa.

O que esperar de Stranded Deep? Uma campanha de sobrevivência muito coesa, focada e variada que se banha nos clichés do género para nos dar uma experiência muito singular. A chegada às consolas é um marco para a Beam Team Games e chega-nos numa época perfeita para nos perdermos pelos oceanos infestados de tubarões. Mesmo com os seus problemas técnicos, é um jogo imperdível, na minha opinião, para os fãs de sobrevivência.

A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (Xbox One) foi cedido pela Beam Team Games.

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