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Predator: Hunting Grounds | GLITCH TAG-REVIEW

Sejam bem-vindos à selva neste novo título online inspirado na famosa série de ficção científica.

Os últimos dois meses viram a chegada de jogos cooperativos que nos têm deixado um gosto amargo na boca. Em março, tivemos a estranha aposta da Ninja Theory, com Bleeding Edge, um jogo de transição para a produtora, composta por menos de 20 membros, que aposta no trabalho de equipa em cenários competitivos. Abril começou com Resident Evil: Resistance, a porção multijogador de Resident Evil 3, que tinha tudo para ser um interessante stand-alone, mas parece ter sido abandonado, esquecido e colado ao título prioritário da Capcom. Agora na reta final de abril, temos a chegada de mais um jogo que parece não estar no ponto, mas que, apesar dos seus problemas, até se revela um pouco divertido. Falamos de Predator: Hunting Grounds, que acaba de chegar ao PC e PlayStation 4.

Para descobrirmos se a viagem às selvas quentes da América do Sul vale a pena, enviámos os nossos agentes secretos, o Canelo e o David, numa luta contra o maior caçador da galáxia.

Canelo: Quero começar por dizer que é, sem quaisquer dúvidas, o mais divertido dos três jogos lançados neste início de ano. Baseado na saga Predator, que chegou ao cinema em 1987, Hunting Grounds é um jogo de ação cooperativo com um formato assimétrico, dividindo a sua ação por duas equipas: uma, de até quatro membros, composta por mercenários; e outra, o grande destaque do jogo, pelo famoso caçador alienígena. Cada equipa tem a sua própria missão e se os mercenários têm de cumprir um número de objetivos e escapar ilesos, numa correria final para o helicóptero – que Schwarzenegger tanto adora -, já o Predador terá de os caçar, parar a sua fuga e recolher novos troféus para a sua coleção. Para um jogo cuja experiência é unicamente cooperativa e online, este parecia ser o modelo perfeito para um jogo inspirado na franquia, mas algo falhou. David, arrisco-me a dizer que é um jogo de emoções fugazes. Não concordas?

David: “Fugazes.” Aí está uma palavra que não esperava ler ou usar para descrever este jogo, mas tenho de concordar. Comentava contigo, antes de jogarmos juntos, e depois de algumas partidas e de ver como o jogo se comporta nesta build final, que este é “o pior jogo mais divertido de 2020” que joguei. E não digo isto em tom jocoso ou para denegrir o jogo, mas há de facto muita coisa má num jogo que é agradavelmente divertido, tenso e emocionante. Apesar deste misto de sentimentos e estranhos elogios, Hunting Grounds fez uma coisa rara numa das minhas primeiras sessões, que foi criar uma impressão “mágica” e quase inesquecível, que cumpre a promessa deste conceito de jogo, que foi a revelação de um predador durante um combate.

Na pele de um mercenário da Fireteam, foram-me dados vários objetivos para cumprir, nos quais fiquei tão concentrado que me esqueci que havia um Predador à solta. Por momentos, ignorando todos os problemas técnicos, senti-me imerso. E quando comecei a ouvir o icónico som do Predador e a sua presença camuflada, enquanto matava os meus colegas de equipa, foi algo de espetacular.

No papel dos Yautja, as partidas são mais intensas e há um equilíbrio interessante entre a sua furtividade e o poder de ataque da Fireteam.

Canelo: Hunting Grounds tenta recriar a experiência do primeiro filme e admiro isso. Como disseste, e muito bem, o jogo gira à volta de vários objetivos que a equipa de mercenários tem de concluir antes de terminar a partida. Estes objetivos podem ir desde a recolha de itens até à análise de químicos ou à eliminação de um número específico de soldados inimigos. No meio desta correria, sempre contra o relógio, estamos sobre o olhar atento do Predador, que nos caça lentamente ao longo da partida. 

Esta sensação de caça e de caçador é fantástica, e é mesmo muito tenso quando nos apercebemos que estamos na mira do alienígena. O mesmo acontece quando estamos no papel do caçador, com o Predador a estar munido do seu arsenal característico – como o disco cortador e o canhão de plasma – e escondido entre as árvores. Os seus movimentos são muito mais fluídos e rápidos, e é possível subir pelas árvores e caminhar pelos ramos facilmente. Se não fosse por alguns problemas gráficos, que iremos falar mais à frente, diria que é uma excelente adaptação da personagem.

No entanto, há a outra face da moeda. Se tiveste uma primeira impressão positiva e repleta de tensão, o mesmo não aconteceu comigo. Isto é um problema neste tipo de jogos, que dependem inteiramente do comportamento dos jogadores, e no meu caso, o Predador saltou logo para o meio do meu grupo e foi eliminado em menos de dois minutos, concluindo assim a partida. E num jogo tão pouco munido de conteúdos, desbloqueáveis ou nas partidas, a experiência acaba por ser demasiado seca e pouco duradoura.

David – Percebo o que queres dizer. À medida que fui jogando, também me apercebi que resulta bem apenas quando todos os jogadores se esforçam para jogar minimamente bem. No caso do Predador, é fácil perceber quando é um jogador a experimentar esse papel pela primeira vez ou quando é um já sabe como se mexer. O mesmo é válido para a Fireteam e compreendemos logo quando há jogadores que já sabem bem os objetivos e conhecem as indicações audiovisuais do posicionamento do Predador. É um jogo que requer alguma teatralidade das duas partes, como se fosse um role-play. 

Para além do seu armamento de peso, que podem desbloquear à medida que evoluem a personagem, o Predador tem acesso à visão térmica que, tal como nos filmes, pode ser contornada se cobrirem os mercenários com lama.

Isto porque, na minha honesta opinião, este não é um jogo competitivo e sinto que faz, ou tenta fazer, um bom equilíbrio de “poder”. Enquanto a Fireteam é um grupo de quatro soldados genéricos sem habilidades extra, o Predador é “muito extra”, mas tem limites, que podem ser esgotados numa decisão arriscada. Há partidas onde este morre no início, outras onde nunca aparece, mas (e voltando ao início desta conversa) se for um jogador cuidado e esperto, vai andar a sessão toda a infernizar a vida dos restantes jogadores.

Canelo – Daí sublinhar a importância dos jogadores nestas experiências assimétricas: nunca temos uma experiência totalmente sólida. Quando jogámos em conjunto, vimos de tudo: o Predador não apareceu, perdido algures no mapa; a nossa equipa decidiu não fazer os objetivos; e também encontrámos situações onde o Predador era tão poderoso que nos dizimou no início da partida. Mas há, como dizes, um equilíbrio entre as duas fações e nunca me senti em desvantagem ou injustiçado pelo jogo. Ao contrário de Battlemode, o multijogador de DOOM Eternal, onde o Slayer está claramente em desvantagem, em Hunting Grounds os poderes estão mais equilibrados. Mas relembro: existe um sistema por níveis e muitas armas para desbloquear. Será que o jogo conseguirá manter este equilíbrio daqui a duas semanas? Ou teremos partidas completamente quebradas?

E falando na evolução das personagens e das classes, posso adiantar-me e dizer que concordas comigo quando digo que são insatisfatórias. Não só temos de desbloquear novas classes, como as armas também estão fechadas por detrás deste sistema de progressão. A experiência tradicional de um modo online, sem dúvidas. O problema é que Hunting Grounds não tem conteúdos que justifiquem esta progressão. As armas são aborrecidas, os seus acessórios também e até os perks parecem não ter grande peso na experiência. Começamos com pouco e rapidamente perdemos o interesse. Qual é, então, a motivação para evoluir?

O jogo tenta apostar na personalização, mas os acessórios e novas opções são pouco empolgantes, e relegam-se a novas pinturas ou a alterações cosméticas muito básicas.

David – As duas questões que deixas vão muito ao encontro do que eu queria pegar a seguir, que passa pela longevidade a longo prazo deste jogo e como ele poderá sobreviver. O conceito é extremamente giro, não é o mais original, já tivemos jogos multijogador assimétricos no passado, mas se não houver uma componente GAAS bem estruturada, boas fundações técnicas ou motivações maiores para jogar, Hunting Grounds corre o risco de morrer na praia. E esses sinais estão um pouco por todo o lado.

A nível de conteúdo, não há muito a dizer: Hunting Ground é pobre. Vive apenas do seu elevator pitch, tem um modo, três mapas muito semelhantes e uma série de objetivos por sessão que perdem a novidade tão rapidamente como a “magia” que descrevia em cima. O que sobra? Progressão de personagem através de aquisição de experiência ao completar objetivos, que fazem as nossas personagens, os mercenários e Predadores, subirem de nível, escolher habilidades, armas e, claro, elementos cosméticos oferecidos via loot boxes desbloqueáveis.

Este progresso, que já é clássico, não é problema, é funcional, mas não oferece nada de novo. Não se destaca e muitas vezes os prémios, maioritariamente cosméticos, estão associados a itens a desbloquear em níveis de personagem mais avançados. A sensação de progressão é lenta, para não dizer inexistente, o que torna o jogo facilmente descartável.

Ao fim de algumas sessões comentava algo contigo que acho que vai ser o futuro deste jogo. Rapidamente começamos a jogar em modo automático, a tomar mais atenção à nossa conversa de balneário do que aos eventos do jogo. Conversa essa que era apenas interrompida por momentos como “Olha o Predador está ao pé de ti,” e continuávamos. Sinto que Hunting Grounds é aquele tipo de jogo para servir de sala de conversa num final de sexta-feira à noite, algo que muitos outros jogos já o fazem e de forma gratuita. Não consigo dizer que Hunting Grounds é um jogo cansativo ou repetitivo, simplesmente deixa de existir, mesmo estando dentro dele.

A UI também é um pouco invasiva e apresenta um estilo muito banal, como tantos outros jogos do mesmo género.

Canelo – É um jogo estranho, sem dúvidas, que acaba por ganhar mais pela sua data de lançamento, ainda mais com o atual panorama mundial, do que pelos seus pontos positivos. É um jogo perfeito, isso sim, para jogarmos com quatro amigos, ao final do dia, e termos uma experiência rápida e cooperativa; sem stresses ou pressão. Mas, ao mesmo tempo, isso é uma pena. A personagem é icónica, muito popular e com um arsenal de peso, mas o jogo parece não a acompanhar. Penso que Hunting Grounds precisa urgentemente de novos modos e de injetar mais objetivos nas missões, talvez até criar partidas mais longas e divididas por fases, um pouco à semelhança de Left 4 Dead. Qualquer coisa que lhe dê uma nova vida e que recupere a tensão que sentimos nas primeiras partidas.

Este estado inicial é uma pequena tragédia, no sentido em que conseguimos ver o potencial do jogo a ser condicionado por mecânicas clichés do género, desde a evolução das personagens à estrutura das partidas. Para piorar as coisas, temos ainda os tempos de espera entre partidas, especialmente se quisermos jogar como o Predador, algo que acaba por ser mesmo muito desmotivante. A equipa já lançou um patch que procura melhorar estes tempos de espera, mas a cada hora que jogámos, mais sentimos que Hunting Grounds merecia uns meses de produção adicionais ou adotado um modelo F2P; o que não seria mal pensado, já que também apostam em loot boxes.

David – Exatamente. Sinto a falta de uma variedade de modos, de mais mapas e até de maior variedade de personalização. Por um lado, parece-me que está aqui a fundação perfeita para um jogo completo interessante, mas muito pouco aproveitado, que, como dizes e bem, tem as qualidades de um jogo F2P num estado muito embrionário, de Early Access até. A juntar isto tudo, como já referiste, o matchmaking do jogo, que suporta crossplay com o PC, deixa muito a desejar, com tempos de procura muito longos, em particular se quisermos jogar com o Predador, que dada a esta assimetria, é três a quatro vezes mais longo. Alguns inícios de sessão demoram quase tanto ou mais do que uma sessão completa. 

Outro aspeto técnico que deixa muito a desejar é o desempenho do jogo na PlayStation 4, pelo menos na Slim, que é abaixo do ideal. É jogável, certo, mas o frame rate é assustador, instável e bem abaixo dos típicos 30FPS. Hunting Grounds também não é um jogo propriamente bonito, com uma qualidade de imagem difusa com arestas serrilhadas que afetam a experiência de jogo, especialmente quando queremos ver o Predador em cima dos ramos, que, por si só, já tem poderes de quase total invisibilidade. è frequente estarmos a jogar contra os aspetos técnicos do jogo, do que com os mecânicos.

Quando as partidas fluem perfeitamente, a tensão é alta e ver o Predador a aproximar-se é assustador.

Felizmente, eu tive a oportunidade de jogar no PC e as coisas são melhores. Surpreendentemente, o jogo é relativamente leve e produz imagens bem mais limpas e fluidas do que na consola. No entanto, jogar com um comando na PlayStation 4 é, ironicamente, a melhor solução. Diria que não há uma versão “ideal” para Hunting Grounds. Contudo, no meio de tanto problema técnico, conteúdo pobre e requerimento pessoal para vestir a pele das personagens, Hunting Grounds não me ofende e consigo encontrar aqui uma espécie de silver-lining, com um loop divertido, especialmente jogado com amigos.

Canelo – Há uma clara diferença entre a versão PC e PS4, algo que se torna ainda mais visível em combate. O cross-play, no entanto, funciona muito bem e não senti desvantagens em relação aos jogadores no PCs, especialmente nos controlos. A nível gráfico, já disseste tudo o que experienciámos ao longo do jogo, mas destaco ainda a dificuldade de leitura de certos cenários, ainda mais quando estamos a ser caçados pelo Predador. A definição e o frame rate são tão inconsistentes que a folhagem se mistura ao ponto de ser difícil de discernir algo à distância.

Mas sabes onde o jogo se destaca? Na banda sonora. Temos temas e efeitos sonoros inspirados nos filmes, e é absolutamente delicioso ouvirmos os ruídos do Predador à medida que avançamos pela selva. A localização sonora também é muito importante no jogo e o seu desenho 3D acaba por dar origem a uma experiência mais, arrisco-me a dizer, realista, sendo necessário seguir a direção dos sons para termos uma ideia da sua localização. 

Com esta aposta no som, com mais modos e um melhor desempenho gráfico, Hunting Grounds podia ser mesmo um jogo de destaque. Como está, é um jogo incompleto, mas, como dizes, divertido e perfeito para jogar com amigos. Espero que continue a evoluir.

David – Sim, esqueci-me de referir, mas o som é estranhamente delicioso. O tema do filme ocupa-nos o menu e é o suficiente. Mas é durante os combates que os efeitos sonoros acrescentam valor à experiência. Não é, no entanto, perfeito ou tão realista como dizes, na minha opinião, faz um ótimo trabalho a manter-nos imersos, com o Predador a projetar um som exagerado dos seus passos e saltos, com o seu icónico som de ataque. Mesmo o barulho da Fireteam é essencial para quem joga como Predador, pois terá noção da posição das suas presas.

Há tanto que pode resultar neste jogo que é, de facto, uma oportunidade perdida e uma estranha aposta ao aparecer neste formato. Com o suporte certo, não tenho dúvidas de que pode ser algo de especial, mas para já ainda não está no ponto. E este é o maior de todos os problemas, se não atrair os jogadores agora, a história já nos disse, vezes sem conta nesta geração, que nem equipas gigantes são capazes de motivar uma comunidade desiludida a regressar (Evolve, Fallout 76, Anthem). Mas há sempre exceções (No Man’s Sky, Star Wars: Battlefront 2), por isso, haja esperança.

A escala utilizada é de 1 a 10

Os códigos para análise (PC e PS4) foram cedidos pela PlayStation Portugal.

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