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Animal Crossing: New Horizons | GLITCH REVIEW

Não é que o André furou a quarentena para se isolar numa ilha deserta? Vejam como se está a safar.

Animal Crossing sempre foi especial para mim. Wild World foi o primeiro jogo que tive na DS Lite, oferecido pelo meu melhor amigo, e New Leaf foi um dos primeiros jogos que tive na 3DS, onde dividi uma cidade com a minha companheira. Agora estou com New Horizons e não podia estar mais apaixonado.

A série também conseguiu a proeza de me emocionar com uma carta da minha mãe virtual, desejando-me uma boa vida, apesar de não me ver há algum tempo. Tendo perdido a minha há poucos anos, ler aquelas palavras congelaram-me por segundos em frente ao pequeno ecrã. Por essa razão e tantas outras, Animal Crossing está no meu coração e dificilmente sairá.
New Horizons já saiu há alguns dias, mas quisemos demorar o nosso tempo para escrever uma boa análise, mas ainda assim, todo o tempo é curto para descobrir o que o jogo tem para oferecer porque não é algo que se comece e acabe passadas algumas horas; é um jogo interminável, é um jogo que demora meses e anos se for preciso, e é um presente que abrimos sempre que ligamos a consola. Com o mundo de quarentena entre quatro paredes, o jogo saiu na melhor, ou pior, altura, batendo recordes de vendas só nos primeiros dias e por várias e boas razões: é um escape perfeito para termos aventuras fora de casa numa ilha deserta e porque é um jogo magnífico.

Contem com a ajuda de todos, mesmo em dias de chuva!

Mas sobre o que é? O que pode esperar um novato deste ou de qualquer Animal Crossing? Duas coisas, Animal Crossing é um jogo para lá de aborrecido; Animal Crossing é um jogo viciante. Comecemos pela declaração mais polémica: há uns tempos li um artigo (não me recordo da fonte) que falava da importância de estarmos aborrecidos. Este estar aborrecido não é a ver a tinta a secar ou esperar na fila da Segurança Social, é estar longe de estímulos como notificações de redes sociais, chats ou outras distracções; é não sentir necessidade de tapar buracos com entretenimento para termos algo para fazer. É estar confortável na nossa mente, esvaziando-a de ruído e deixando o nada ou a criatividade fluir. Por exemplo, dou por mim nesse estado quando lavo a louça ou vou dar uma volta porque a repetição dos gestos limpa-me a cabeça e dou por mim a ter boas ideias para histórias ou para as nossas análises. E Animal Crossing é um jogo que me permite aborrecer e abstrair-me do mundo real; não há fins do mundo, vilões e profecias; não há urgências, apenas abrimos a porta, regamos as plantas, pescamos ou apanhamos insectos e interagimos com criaturas adoráveis. Podemos jogar dez minutos de cada vez ou estoirar logo seis horas por dia – somos nós a ditar o ritmo, e eu podia estar a vender peixe para mudar a minha casa de sítio, mas estou a escrever-vos esta análise ao som da sua relaxante banda sonora.
E é um jogo viciante porque se não tivermos cuidado, passamos mais horas na ilha do que na vida real. Oh, e este jogo sabe-la toda… Se os outros Animal Crossing já tinham muito que fazer como tratar de flores e árvores, pescar e apanhar insectos, doar bicharada e fósseis ao museu, apanhar e vender fruta para pagar o empréstimo para expandir e equipar a casa, entre muitas outras ocupações, este não foge muito à fórmula, e ainda fez os trabalhos de casa da versão mobile (Pocket Camp) porque um dos destaques desta sequela é um smartphone com várias apps úteis, onde destaco o sistema de milhas (Nook Miles) com objectivos a superar.
A conclusão destes objectivos recompensa o jogador com milhas que vão servir para trocar por serviços, funcionalidades e itens. Assim como na vida real ou como um sistema de conquistas/troféus, mas com mais utilidade. Esta mecânica é aditiva e torna-se difícil largar a consola ou porque falta um peixe para os cinco para termos 300 milhas; ou porque não falámos com todos e aquela mesa está bem barata ou porque queremos viajar para outras ilhas.
Estes são os estímulos que mencionei acima, mas que podem ser ignorados se o quisermos!, mas que são úteis, são…

Trabalha, malandro!

O poder está nas vossas mãos: ou jogam placidamente ou andam a correr a riscar tarefas da lista. Quanto a mim, jogo conforme posso sem me preocupar muito com o amanhã porque Animal Crossing também é saber esperar porque se temos gratificação instantânea também temos recompensas a demorar dias como novas infraestruturas em construção, vendedores que aparecem uma vez por semana, vizinhos em mudanças; ou ocasiões que acontecem em simultâneo com o mundo real como feriados ou aniversários porque o jogo usa o relógio/calendário da consola. É possível viajar no tempo para acelerar estes eventos, avançando as horas nas definições, mas acaba por saber melhor se tivermos paciência para apreciar o vagar do tempo.
E mesmo que só joguem uns minutos por dia para conseguirem as milhas diárias, ainda terão aquele prazer de ver a cidade a crescer, de ver as coisas a acontecer pelas vossas mãos, demore uma semana, um mês ou um ano. Não há certo ou errado, há apenas vocês e a ilha.
Não há enredo, mas também não é preciso. Só precisam de saber que a vossa personagem (completamente personalizável) comprou um pacote de férias para uma ilha deserta. À chegada, conhecemos o Tom Nook, sobrinhos e outros infelizes habitantes que terão de partilhar a ilha com o único humano com uma obsessão compulsiva por abanar todas as árvores. Depois, o mundo, ou a ilha, é uma ostra: podemos pensar só em nós, amealhando quantias exorbitantes de bells (dinheiro) para roupa, futilidades, mobilar a casa e expandi-la para uma mansão luxuosa ou investir na ilha, construindo infraestruturas, estradas, pontes, parques etc para se tornar num sítio onde outros queiram viver felizes. Ou um misto dos dois? Com tempo faz-se tudo.

Ah, ganda Muntije! A melhor cidade da Margem Sul!

Pegando no melhor de várias prequelas, New Horizons permite aos jogadores construirem as suas ferramentas, mobiliário e o que quiserem para preencher a ilha (Pocket Camp). Para tal, é preciso apanhar materiais como madeira e galhos, rochas e outros minerais, folhas etc – peguem nesses machados e pás e mãos à obra! Eu não sou fã desse género de jogos e odiei Atelier Ryza por isso, mas aqui dei por mim a bater em todas as árvores e pedras ou a receber visitantes para trocar recursos para construir aquela mesinha que me faltava. Era… terapêutico, sabem? E a outra mecânica que me diz muito mais é a de decoração de interiores (Happy Home Designer). Aqui não atiramos os móveis para o chão e empurramos até estarem mais ou menos, agora acedemos a um menu próprio onde colocamos cada peça individualmente, decidimos a superfície, a altura e se colocamos outros objectos por cima, dando um toque mais pessoal a cada lar.
A outra funcionalidade é a de terraforming ou a opção de moldar terra e água à nossa vontade, alterando a paisagem inicial radicalmente se o pretendermos. Se em New Leaf éramos o Mayor, ou o Presidente da Junta, aqui somos uma espécie de deus em forma de líder da associação de moradores com poder para colocar casas de banho em qualquer parte da ilha – o sonho…

Com isto, o nível de detalhe deste Animal Crossing é elevado, desde as peças de mobiliário ao vestuário, e se não estivermos satisfeitos, podemos personalizar cada peça ao mais ínfimo detalhe. E o museu que agora está maior do que nunca? Ou a brisa a dar nas folhas de cada árvore que dançam à sua passagem, as gotas de chuva que escorrem para o chão, as nuvens a passarem languidamente, deixando as suas sombras atrás e os reflexos nos lagos e rios. As pequenas interacções transformam-se em grandes suspiros e sorrisos quando encontramos os nossos vizinhos a passear à chuva, a lanchar à sombra de uma árvore, a dormitar ou a cantar de felicidade e juntamo-nos a eles porque eu já tenho uma ocarina! E depois aparece algo assustador e eles ficam congelados de medo e de expectativas à espera que façamos algo.
E quero destacar a equipa de localização que tem um trabalho penoso nestes jogos com tanto por localizar, desde os diálogos de tudo e todos aos trocadilhos que já são tradicionais do jogo. Ovações para vocês!

Os gráficos são lindíssimos e adoráveis, jogar em modo portátil não retira nenhum mérito aos visuais da ilha e jogar numa televisão é um festim para os olhos com tudo o que têm para absorver, as cores são vivas e quentes, mas isso deve-se ao facto de o jogo estar a entrar na Primavera; os habitantes parecem bonequinhos de feltro e dão vontade de apertar com tanta fofura quando os vejo com as suas roupitas nos seus afazeres diários. Cada um com a sua personalidade que pode encaixar com a nossa ou criar alguns atritos, mas se tal acontecer, é mandá-los embora! E só para dizer que tenho uma ovelha, a Frita, que adora cantar e é fofa e é minha amiga!

Eu.

Mas esta atenção aos pequenos detalhes deixa-me receoso pelos grandes detalhes porque sinto a ausência de algumas coisas. Em comparação com os jogos das portáteis, falta-lhe imenso conteúdo! Se forem novatos na série, provavelmente não darão pela falta e até é provável que o adicionem em eventos especiais para manter o jogo e a comunidade viva, mas não consigo não pensar no pior se tivermos outros jogos da Nintendo como exemplo… Ainda assim, quero ser optimista. Depois, temos a interface que não é muito intuitiva; requer algum hábito para deixar de ligar a estes soluços, mas o facto de haver botões por usar é estranho…?; podia haver uma melhor gestão de inventário para alguns itens (fruta e recursos agrupam, mas peixes e insectos não?); o tempo que perdemos entre menus, opções e animações podia ser melhorado; e o que se passou com a Nintendo nesta geração que ganhou uma panca com itens a partir? Nada contra, mas se o meu machado bom partiu porque raio tenho de construir um mau para depois construir outro bom, gastando o dobro dos recursos e do meu tempo? Não daria para, sei lá, gastar logo esses recursos ou tirar-me mais dinheiro?
Irónico quando falo em ter paciência e depois implico com isto, não é? Enfim, agora vou falar de outra coisa boa: a banda sonora.
Enquanto escrevia esta análise, tive de meter alguma música e nada melhor que a banda sonora do jogo em questão com melodias simples e calmas que nos embalam nas nossas tarefas. Cada tema é especial e varia consoante a hora ou a situação; se chove; se estamos num determinado edifício ou ocasião e um jogo agraciado pela grande estrela musical K.K. Slider tem de ter boa música e missão cumprida! Para além dos seus concertos, ainda podemos comprar os seus álbuns e meter a tocar em casa ou na ilha, mas tenham respeito pelos vizinhos! E já disse que tenho uma ocarina ou que podem mudar a melodia da cidade?
Depois, as vozes das personagens que podiam ser irritantes noutro contexto, mas que são para além de adoráveis, principalmente a da Isabelle que nunca me canso de a ouvir! Se deixarem rádios espalhados na rua, podem deparar-se com alguém a cantar o que ouviram. Os restantes efeitos sonoros do jogo como as cigarras, o vento ou a chuva, o peixe a morder o isco ou os passinhos dos vizinhos nas suas voltas são mais peças de roupa que vestem este jogo de uma vida imensa.

Corações, corações!

Acabo com boas notícias e com um dissabor. Se por um lado não tive problemas técnicos ou outras chatices, o que é óptimo, sinto-me arreliado com certas práticas da Nintendo: primeiro, uma ilha por consola, os restantes perfis terão de jogar e viver de acordo com quem criou a ilha originalmente, mas ei, dá para ter até 8 jogadores. Depois, é necessário o NSO para desfrutarmos de outras funcionalidades como o modo cooperativo ou a app companheira para comunicar com amigos ou importar padrões de personalização… Por último, cloud saves… um processo básico que existe há anos, mas que a Nintendo tem receio de usar por medo de um bicho papão qualquer, mas permitirá (eventualmente) recuperar o save caso percam ou fiquem sem consola…
Dito tudo, ou quase tudo, porque não há palavras ou tempo que façam jus a Animal Crossing: New Horizons, quero recomendá-lo a novatos e a veteranos. Há um pouco de tudo para todos e nos tempos que correm, fugir para uma ilha deserta ainda é permitido. E se o corpo não pode ir, vai a cabeça.
Uns minutos por dia a regar as flores ou horas a vender peixe para ganhar trinta mil bells para mudar a casa de sítio (não digo que sou eu, mas sou eu) é o suficiente para desligar um pouco e deixar a adrenalina para outros jogos; a ansiedade fica de fora e as poucas preocupações são as vespas que caem das árvores ou os preços baixos dos nabos.
Este jogo é melhor jogado do que lido. Façam um favor, optem pela versão digital se não puderem sair e partam nesta aventura.
Lembrem-se: estes maus tempos são apenas tempos que são maus (por Katrina, no AC: New Leaf).

Isolamento social! Dois metros!
A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise foi cedido pela Nintendo Portugal.

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