Dreams | GLITCH REVIEW

A Media Molecule parece estar determinada em quebrar a noção do que é um videojogo. Depois de surpreender o mundo com Little Big Planet e o seu editor de níveis, a equipa inglesa regressa com aquela que promete ser a sua obra-prima. Dreams não é apenas um videojogo ou uma ferramenta de criação, é o culminar de mais de dez anos de evolução e uma ode à criatividade e imaginação como nunca vimos antes.

Neste momento, Dreams é um dos exclusivos mais importantes desta geração e aquele que proporciona uma experiência inigualável, até mesmo pelos seus semelhantes. É uma evolução tão acentuada que é impossível voltar atrás. Dreams é um mundo de possibilidades onde o único limite é a imaginação dos seus utilizadores. É uma caixa de ferramentas acessível, ainda que ocasionalmente pouco intuitiva, que irá dar vida, quem sabe, a futuros criadores de videojogos. Este é, presumo, o sonho da Media Molecule e é a mensagem que Dreams acaba por nos transmitir: tudo é possível, nunca desistam.

Dreams divide-se em dois modos distintos: Dream Surfing e Dream Shaping. O primeiro, e aquele que irão certamente utilizar mais, centra-se na partilha e descoberta das criações dos jogadores. É um centro de reconhecimento onde poderão encontrar facilmente vários níveis dos mais variados géneros. Desde jogos na primeira pessoa até experiências sensoriais e projetos mais cinematográficos, irão encontrar de tudo. Isto porque Dreams não se foca unicamente nos videojogos, dando aos seus utilizadores a possibilidade de criarem o que quiserem, desde o mais fácil até ao mais complexo, sendo possível manipular os terrenos, criar modelos, animar personagens e objetos, e iluminar tudo à nossa vontade. É um choque entre criação de videojogos e as sensibilidades cinematográficas e musicais, tudo num só.

É impressionante visitar este modo e descobrir as criações dos restantes utilizadores, existindo sempre uma sensação de entusiasmo e descoberta que não sentia desde Super Mario Maker 2. Em Dreams, essa sensação é exponenciada por novos géneros, estilos e sensibilidades que se refletem nas criações que descobrimos. Felizmente, os menus são acessíveis, rápidos e de fácil navegação, existindo sempre uma secção dedicada às novidades e aos mais votados pela comunidade. É impossível não descobrirem um jogo, ou criador, favorito e à medida que exploram e conhecem mais sobre este universo criativo, irão ver todas as potencialidades do modo de criação.

Os menus estão à distância de um clique e são de fácil leitura, não existindo confusão sobre a sua funcionalidade dentro do modo de criação.

Dream Surfing é a minha segunda casa. Não me vejo a abandoná-lo tão depressa, especialmente com a chegada da versão final às lojas. Se a versão Early Access trouxe-nos criações tão surpreendentes, só posso concluir que o melhor ainda está por chegar. Em poucos minutos, vi-me a jogar Silent Hills, uma versão de Darius e um jogo de ação furtiva – tudo isto apenas no menu principal, sem pesquisa. Ainda há tanto para descobrir e com uma comunidade tão dedicada, Dreams tem tudo para ser a experiência mais marcante deste ano. Esperemos que se mantenha a hipótese de um eventual lançamento na PS5.

Dreams não se foca, no entanto, numa experiência solitária, mas sim na construção de uma comunidade presente e ativa. Há uma vontade palpável em unir os criadores e em incentivar a colaboração entre si, ao ponto de ser possível utilizar modelos e criações dos outros jogadores. Se criarem uma personagem, imaginemos que Solid Snake, e um jogador adorar o vosso modelo, ele terá a possibilidade de o utilizar no seu próprio jogo. O vosso nome estará, claro, nos créditos e terão a possibilidade de mostrar o vosso trabalho a mais pessoas. Isto significa que todos terão a oportunidade de brilhar em Dreams, até mesmo aqueles que se focarão na modelação de cenários, assets ou personagens. Há espaço para todos e através da colaboração, os jogadores terão a hipótese de melhorar as suas criações e dar vida a jogos ainda mais impressionantes. A simplicidade e o foco com que a Media Molecule teceu esta ideia de comunidade em Dreams são deliciosos, e espero que continue presente durante muito tempo.

Ao explorarem o catálogo de Dreams, irão encontrar de tudo, desde modelos ultrarrealistas de comida até a pinturas ou sequências inspiradas em filmes e séries de televisão. Uma das minhas primeiras descobertas foi a de um nível que retrata o Black Lodge, da série Twin Peaks.

Esta ideia de partilha está também presente na forma como a Media Molecule dá liberdade aos jogadores de atualizarem e melhorarem os seus níveis mesmo depois de publicados. Há, inclusivamente, a possibilidade de verificarmos as várias versões de cada nível e observarmos as diferenças entre si, dando-nos uma noção clara sobre a evolução do projeto desde a sua publicação. Não há a imposição de uma versão final, o que cria a ilusão de que estamos, na verdade, num microcosmo da indústria dos videojogos. A colaboração entre jogadores alimenta esta ideia de “produto em desenvolvimento” e cria uma sensação de união onde é possível trabalhar para um fim comum – algo que, espero, que nunca desapareça de Dreams.

Mas antes de explorarem o catálogo de Dreams, aconselho-vos vivamente a jogar Art’s Dream. Esta pequena experiência, criada pela Media Molecule, é o resumo perfeito de tudo o que irão encontrar em Dreams. Através da história emocional de Art, um músico que duvida do seu próprio talento, a produtora inglesa leva-nos numa viagem repleta de sentimentos, onde conhecemos a vida e desejos desta personagem atormentada. Art’s Dream é quase como uma longa-metragem de animação, mas com interatividade, relembrando, nos seus momentos mais humanos, o trabalho da Pixar, nomeadamente na criatividade das situações narrativas que encontramos. Como um jogo, é um conjunto de mecânicas, géneros e estilos visuais, passando de uma experiência point and click com opções de diálogo para um jogo de plataformas e puzzles, culminando num shoot’em up frenético. Como introdução, Art’s Dream é perfeito e quando paramos para pensar que foi totalmente criado através das ferramentas de Dreams – ferramentas essas que estão à nossa disposição – percebemos como este é um produto inigualável no que toca à sua ambição. Se Art’s Dream é possível, imaginem só o que poderão criar com alguma dedicação e paciência.

Claro que nada disto seria possível sem o segundo modo: Dream Shaping. Este modo de criação dá vida às ferramentas criadas pela Media Molecule, onde se concilia a profundidade e potencialidade do seu motor de jogo com controlos acessíveis e de rápida utilização. O modo de criação é, à primeira vista, intimidante devido ao número de opções que apresenta, mas com alguma experiência, irão dominar todas as vertentes deste modo. E quando digo que tudo é possível, quero sublinhar que é verdade. Dreams não é apenas uma ferramenta de modelação, de corta e cola, mas sim algo mais profundo e detalhado. A Media Molecule não nos quis dar a experiência destilada, mas sim a possibilidade de controlarmos todos os parâmetros da nossa criação. É possível criarmos animações, influenciarmos a iluminação, a elevação do terreno, criarmos os nossos próprios modelos e definir como as várias ferramentas interagem entre si. Há uma aposta no controlo e é impressionante verificar como tudo funciona com um simples clicar do botão e com menus tão acessíveis e sempre visíveis.

Dreams não espera que dominem as suas ferramentas à primeira, mas há uma aposta constante na experimentação e no risco. Claro que se torna intimidante quando temos tantas mecânicas e ferramentas para conciliar, mas existe um trabalho de introdução que é de louvar. Dreams é acompanhado por vários tutoriais e masterclasses acessíveis e muito descritivas que explicam o funcionamento deste modo de criação, desde o movimento em campo até à elaboração de objetos e personagens. Há um acompanhamento constante e se quiserem saber mais sobre um determinado tópico, basta visitarem a Workshop para ficarem a par.

Os tutoriais estão divididos por categorias e por grau de exigência, perfeitos para aqueles que querem aprender um tópico em específico.

Dreams é intimidante quando começamos e nos apercebemos do quanto tem para oferecer, mas é, simultaneamente, um produto pensado para as várias gerações de jogadores – dos mais novos aos mais velhos. É um misto de filosofias de design e é uma ode à criatividade, mas não consigo ignorar os problemas associados aos controlos. Talvez seja uma falha pessoal e uma inabilidade em utilizar comandos por movimento, mas Dreams, mesmo com controlos simplificados, é igualmente confuso. As combinações de botões, a alteração de perspetivas e o controlo por movimento não funcionam tão bem como esperava, e é fácil de perder a noção do espaço e posicionar incorretamente os objetos nos cenários. É também problemático efetuar movimentos mais precisos e que envolvem alguma perícia, nomeadamente nas animações e na modelação das personagens, e pode-se tornar frustrante quando o cursor foge do nosso controlo.

Reforço que poderá ser um problema meu e que, muito possivelmente, não encontrarão os mesmos entraves, mas foi difícil habituar-me ao esquema de controlos. Apesar de existirem três opções de comandos – com os analógicos, por movimento e com os comandos Move –, sinto que Dreams ganharia muito com a possibilidade de utilizarmos o rate e teclado ou, quem sabe, um tablet para desenho. Penso que é algo que a Media Molecule precisa de ponderar para um lançamento futuro ou para o seu próximo projeto, ainda que se tenha esforçado e feito um bom trabalho na tarefa hercúlea de transformar o DualShock 4 numa ferramenta de criação sem necessitar de periféricos adicionais. Mesmo com os seus problemas, é de louvar.

Até nas animações é possível controlar todos os parâmetros dos nossos objetos e personagens, como a velocidade e dimensão.

Dreams é, por vezes, indescritível. É uma experiência como nunca vi antes e a concretização de um projeto tão ambicioso, como fascinante. O seu equilíbrio entre criação e descoberta é fenomenal e espero que os jogadores continuem a dar vida à comunidade, de modo a termos jogos cada vez mais impressionantes. O que me surpreende é o grau de criatividade dos utilizadores, as suas sensibilidades cinematográficas, musicais, culturais e, claro, de game design que jorram dos jogos que partilham. Dreams não é um mundo, mas sim um universo e sinto-me grato por ter a oportunidade de o descobrir.

A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise foi cedido pela PlayStation Portugal.

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