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Into a Dream | PREVIEW

Jogámos a demo de Into a Dream e embarcámos numa viagem emocional e simbólica, num jogo indie português que vale a pena conhecer.

E se, de repente, acordássemos na mente de alguém que perdeu a esperança? E se a nossa missão fosse desvendar a sua história e esticar-lhe a mão, de forma metafórica, para que consiga dar o primeiro passo para recuperar a sua vida? Into a Dream é assim.

O jogo indie de Filipe F. Thomaz, recebe agora uma demo que permite um novo olhar acerca do estado de desenvolvimento, caminho da narrativa e rumo que a criação nacional está a tomar. De forma sucinta, e antes da nossa antevisão, em Into a Dream vestimos a pele de John Stevens, alguém que acorda dentro da mente e/ou sonhos de Luke Williams, um homem num estado de depressão profunda.

A demo de Into a Dream oferece entre 40 minutos a 1 hora de jogo (menos se forem mais rápidos ou um pouco mais se ficarem presos) e apresenta-nos algumas das mecânicas deste jogo 2D, fortemente centrado na narrativa e em puzzles. No que diz respeito à primeira, poderão esperar vários diálogos, assim como, notas espalhadas pelo mapa que dão contexto acerca do local, situação ou história mais global. Menção positiva para o facto de podermos escolher, durante os diálogos, entre várias opções de resposta que, como de costume, originam reações diferentes por parte dos NPC.

Prevê-se que a versão final ofereça a possibilidade de jogar em português e inglês, contudo, por enquanto e depois de algumas tentativas, infelizmente só conseguimos jogar neste último idioma. Neste campo, a narração é percetível e aceitável, contudo, por vezes, desequilibrada em termos de realismo e emoção – não sei se pelo facto de os intervenientes na narração serem portugueses a falar inglês, ou não. Seja como for, fiquei muito mais curiosa para ouvir a versão em idioma nacional (também por se tratar de um jogo português, naturalmente). Adicionalmente, neste campo, deparámo-nos com um “bug” recorrente que faz com que o jogador fique preso no jogo, caso passe os diálogos demasiado rápido durante uma conversação. Um pequeno problema que certamente será resolvido no futuro – até lá, não carreguem no “C” muito rápido!

Já no que diz respeito aos puzzles, esta demo oferece desafios acessíveis e bem posicionados ao longo da narrativa. Como é de esperar de um trabalho em desenvolvimento, deparámo-nos com alguns momentos em que ficámos presos, mas graças à funcionalidade de recomeçar o nível que o título oferece, o problema foi facilmente contornado. Num curto espaço de tempo, foi possível descobrir o rumo que Thomaz pretende com a jogabilidade e mecânicas, com o jogo a unir quebra-cabeças a elementos do género plataformas e outros do género narrativo. A mistura é interessante e as várias inspirações e géneros fundem-se de forma coesa, sem se atropelarem uns aos outros.

A demo faz um excelente trabalho a dar-nos o contexto necessário, começando com um breve resumo da história e do nosso papel neste mundo misterioso. Guiando-nos depois ao longo de alguns “níveis”, com várias personagens e desafios, e deixando ainda tempo para momentos de exploração e investigação. Na demo, temos apenas um pequeno “preview” destes dois últimos, quando entramos numa casa e nos deparamos com a possibilidade de vasculhar tudo. É, neste momento, que encontramos uma nota com uma mensagem que, tudo indica, servirá um propósito mais à frente na narrativa. Pessoalmente, foi dos momentos da demo que mais gostei e espero que o produto final inclua outras sequências de exploração.

A demo termina num tom leve, com um toque de humor, via um bloco de texto que nos dá a indicação de que chegámos ao fim, enquanto nos convida a voltar um pouco atrás para descobrir algo que ficou ainda por desvendar. Uma decisão de desenvolvimento interessante, que evita aquela sensação abrupta que temos sempre que uma demo acaba. Ah! E vale a pena voltar atrás, acreditem.

Apesar de todos estes elementos, para mim, o ponto mais alto deste primeiro contacto com Into A Dream são os elementos visuais, sonoros e a simbologia que compõe o jogo indie português. Into A Dream brinda-nos com uma representação interessante daquilo que pode ser a depressão: um misto de luz e sombras, aqui representado, por exemplo, por momentos nos quais ficamos a apreciar um arco-íris e, outros, em que nos deslocamos sob uma densa floresta, pintada a uma paleta de cores indistinta de cinzentos. Fá-lo também no que diz respeito ao ritmo do jogo, utilizando a passagem de tempo para espelhar a dimensão deste estado psicológico: o tempo que, por vezes, se assemelha a um limbo e, noutros momentos, é veloz e implacável – Into a Dream faz isto propositadamente, com uma narrativa não linear que mistura passado e futuro. Elogios ainda para a banda sonora que é soberba e encaixa perfeitamente na temática, tom e ambiente de Into a Dream.

Há qualquer coisa de simbólico em assumir o papel de interveniente no processo de depressão de alguém. Afinal, em muitos casos, este diagnóstico é solitário, escondido e fechado sobre si mesmo. Mas, Into A Dream abre-nos a porta para a mente, coloca-nos no centro da discussão metafórica deste problema e, sem medos, cria uma representação de um conceito que, na maior parte dos casos, ocorre somente dentro da cabeça de quem lida com este problema. No fundo, coloca-nos no centro de uma discussão metafórica sobre saúde mental, depressão, e sobre a possibilidade ou impossibilidade de ajudar alguém. Afinal, quantos de nós lidam ou conhecem alguém que lida com este problema? Quantos de nós tentam ajudar tal como John Stevens fará nesta história?

Numa altura em que o estigma associado a doenças mentais é cada vez mais deitado por terra e na qual se começam a ter discussões saudáveis acerca da importância da terapia, procura de ajuda ou a necessidade do “self-care” e de conhecer sinais relacionados com a depressão e ansiedade, o jogo indie de Thomaz chega para dor força, voz e interatividade a esta conversação necessária.

É ainda cedo para decretar como vai ser o produto final, contudo, espero sinceramente que esta criação chegue a bom porto e possa ser utilizada como uma ferramenta para melhor compreender a depressão – seja em contexto educacional ou como uma forma de mostrar a algum jogador, algures no mundo, que aquilo que sente não é anormal, que não está sozinho e que, mais uma vez, os videojogos servem para ajudar, não destruir, quem os joga.

A demo de Into a Dream oferece um primeiro contacto coeso e interessante com o jogo indie, permitindo ficar a conhecer a génese e rumo que a criação de Filipe F. Thomaz pretende tomar. Um título a manter debaixo de olho que tem potencial para se tornar numa experiência interativa com um cariz de intervenção social poderosíssimo.

Demo Into a Dream: https://bit.ly/2UIblsB
Página do jogo na Steam: https://bit.ly/2SF4j5i

Linha SOS Bullying – 808 962 006 – 2ª a 6ª feira das 11-12h30 e das 18h30-20h

SOS Estudante (Apoio emocional e prevenção do suicídio) – 96 955 45 45 ou 808 200 204 – das 20h à 1h

Linha Informativa de Informação sobre orientação sexual e identidade de género – 96 878 18 41

Associação ILGA Portugal (Apoio sobre Homossexualidade) – 21 887 61 16 – 6ª feiras, das 21h às 24h

SOS Voz Amiga
213 544 545 – 912 802 669 – 963 524 660 – diariamente das 16h às 24h

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