O Regresso à Xbox 360

Vivem-se tempos estranhos, de transição. Ainda custa acreditar que já estamos em 2020, numa nova década e a entrar agora no seu segundo mês. Para trás ficou o perigo de uma guerra mundial, o surto de um novo vírus e a saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Tudo isto em 31 dias, nem mais nem menos. Parece-me ser o momento certo para falar sobre a Xbox 360.

Decidi terminar assim janeiro, com um regresso ao passado. Ainda estou a habituar- me ao facto de ter uma Xbox One S com retrocompatibilidade, mas, gradualmente, começo a aproveitar o tempo perdido e a descobrir os videojogos que ficaram para trás. Até ao presente, foquei-me apenas no catálogo do Xbox Game Pass para alimentar o meu saudosismo, mas há duas semanas tomei uma decisão: ir mais longe – aliás, mais atrás. Decidi comprar Condemned: Criminal Origins, Alan Wake, Splinter Cell: Double Agent e Splinter Cell: Conviction.

O catálogo é extenso, mas espero que a Microsoft continue a sua aposta nesta união em gerações de consolas.

Se me vissem em 2006, não iriam reconhecer-me . Talvez esteja a exagerar. O cabelo era parecido, uma imagem de marca já presente na altura, mas era uma pessoa diferente. Muito sonhador, mas igualmente devoto a marcas e a ideologias, e ainda novo para compreender como as duas são tão desnecessárias. Há 14 anos, era fã da Sony. Por consequência, odiava a Xbox 360, quase por necessidade, e aproveitava quaisquer motivos para expelir a raiva concentrada que sentia pela marca. O ódio era forte, infantil e focado. No entanto, havia algo dentro de mim que sabia que isso era inveja. Olhando para o catálogo da Xbox 360, em comparação com o que iria chegar à PS3, era impossível não sentir inveja, mesmo com a raiva acumulada. E em 2006, mordia os lábios por antecipação a Condemned: Criminal Origins.

É estranho voltar atrás e reencontrar o início da sétima geração. Ao contrário das gerações anteriores, há algo de diferente nestes primeiros dois anos. Há uma mudança de paradigma, de estilos e de mentalidades, algo que se refletia nos lançamentos mais populares. Condemned é, na minha opinião, um dos maiores espelhos para esta época atribulada, desde o seu foco num tom mais narrativo, até aos gráficos mais realistas e carregados de cores esbatidas e de sombras fortes. É uma verdadeira cápsula do tempo, dando-me a sensação de estar perante um jogo com 20 anos e não com 14.

Sejam bem-vindos à era do sangue e dos cenários castanhos.

Tem sido duro habituar-me aos gráficos e à utilização desnivelada da escuridão, que torna a navegação um pouco confusa – no entanto, poderá ser um efeito negativo da retrocompatibilidade –, mas, no geral, tem sido interessante descobrir este clássico. O sistema de combate tornou-se arcaico graças à passagem do tempo, mas vejo as bases para o que alguns jogos recentes continuam a utilizar, sendo de louvar o seu foco nos combates corpo a corpo. Apesar de se focar demasiado em sustos fáceis, Condemned é um jogo tenso e claustrofóbico, utilizando muito bem a sua linearidade para criar alguns momentos de pânico. Ainda não terminei a campanha, mas a história tem sido suficientemente intrigante para continuar em frente. É, no entanto, tão curioso ver como a maioria dos jogos da época se focavam neste olhar mais realista e sério, cheios de sangue e violência, com personagens sem carisma e de voz rouca.

Se Condemned foi a minha primeira paixão à distância, Alan Wake foi o amor perdido. É difícil pensar que vai fazer 10 anos desde que foi lançado na Xbox 360, um dos maiores exclusivos da consola da Microsoft, e que me fugiu sempre ao longo desta década que passou. Mesmo com um portátil novo, nunca joguei Alan Wake e este ano, depois de ter terminado Control, decidi colocar um ponto final a este amor não correspondido e comprá-lo de uma vez por todas. Não podia estar mais feliz com a decisão.

Ainda não o terminei, mas consigo ver o ADN da Remedy Entertainment a funcionar a 100%, com uma direção estilizada, uma história intrigante e a inspiração muito merecida a Twin Peaks e à obra de David Lynch. A Remedy tem o dom de criar jogos à frente do seu tempo e Alan Wake é mais um exemplo. A história do escritor que vive dentro da sua própria história jorra ambição e fico a pensar no que teria acontecido se Alan Wake fosse criado na geração atual e não na Xbox 360. Esperemos que uma sequela resolva esta minha dúvida.

Uma coisa é certa, a Remedy irá sempre surpreender-nos pela positiva.

Apesar de estar a adorar o meu tempo com Alan Wake, não posso deixar de mencionar os meus receios. Não me posso esquecer de que estou a falar de um jogo com quase 10 anos, mas a jogabilidade parece ser o seu ponto fraco. Joguei duas horas e já sinto alguma repetição nos confrontos, que se baseiam na combinação entre a lanterna e as armas, mas também nos puzzles e no próprio design dos níveis – que são, maioritariamente, lineares. Penso muitas vezes se Alan Wake não ganharia se largasse o combate por completo e se focasse na investigação e no mistério por detrás do livro de Wake, intercalado com momentos mais focados no horror e nas criaturas da escuridão. Eu sei que estou a pedir demasiado, até porque a Remedy sempre apostou na ação, mas Alan Wake é forte no ambiente e na história, e em pouco mais. Veremos o que acontece até ao final da campanha.

Voltemos a 2006. Sou novamente o rapaz de cabelo volumoso e sem forma que quer ser realizador de cinema – e que mais tarde descobriu que a realização não era, de todo, o seu forte. Em 2006, era incapaz de jogar Splinter Cell. Sinto alguma vergonha em admitir isto, mas é a verdade. Eu era tão fã de Metal Gear Solid que não conseguia jogar qualquer título da série da Ubisoft. Sam Fischer irritava-me, a jogabilidade parecia ser monótona e eu era incapaz de admitir que Splinter Cell era mais realista e focado na furtividade do que Metal Gear Solid. Incapaz de admitir, reparem, que Metal Gear Solid era tudo menos realista. Era, o que se diz na gíria, um “puto irritante”. Como vingança, Canelo de 2006, acabei de comprar dois Splinter Cell.

A Ubisoft decidiu criar várias versões do jogo e até hoje não sei qual é a melhor.

Devido à minha infantilidade, não segui a série e mal sei o que se passa na sua história ou reconheço as diferenças entre os vários jogos – à exceção de Conviction, por motivos óbvios. Caí, portanto, desamparado em Double Agent e rapidamente aprendi uma lição de humildade. Este jogo odeia-me. E odeia-me como nunca nenhum jogo odiou antes. Estou constantemente a morrer, a ser descoberto ou a falhar tiros que, à primeira vista, pareciam ser certeiros. Este jogo quer que eu falhe em tudo o que faço e ainda estou para perceber como cheguei à missão 6 sem dar em maluco. Mas será apenas culpa minha? Desculpem, fãs, mas não. Double Agent é envolvente e adoro que seja difícil e exigente, mas os controlos envelheceram mal e são tão rígidos que parece que estamos a controlar um camião cisterna e não um agente secreto treinado.

Estou, no entanto, determinado a chegar ao fim. Quero poder dizer que já terminei um Splinter Cell. Não importa que não seja o melhor. Quero redimir os erros do passado e deixar a porta aberta a uma série que devia ter seguido desde o seu início. Double Agent está repleto de boas ideias que adorava ter descoberto em 2006, mas fui vítima da idade. Hoje, é um jogo cheio de reumatismo, vítima do tempo – nada a fazer. Ainda não comecei a jogar Conviction, mas sei que é o jogo das execuções rápidas e das mensagens espalhadas pelos cenários, e parece ser tudo menos um Splinter Cell. Se calhar tenho de aproveitar a retrocompatibilidade e ir ainda mais atrás, até aos clássicos da Xbox.

Fischer nunca se esquece do que vai comprar ao supermercado.

O regresso ao catálogo da Xbox 360 tem sido purificante. Estou a descobrir uma realidade que sempre me escapou e que via ao longe, com a inveja que nunca quis admitir. Todos erramos e crescemos e felizmente hoje posso dizer que não sou fã acérrimo de consolas há muitos anos. Devíamos ser todos assim. Tenho pena que a Microsoft tenha parado, por agora, o lançamento de mais títulos compatíveis com as novas consolas. Há muito para descobrir na Xbox e Xbox 360 e adorava poder fazê-lo na minha Xbox One S.

Acima de tudo, estes jogos são uma lembrança preciosa para uma época marcada pela chegada do online, dos jogos lineares, das cores esbatidas e acinzentadas, e de uma cultura rendida à violência e ao entretenimento gratuito. Com a próxima geração a chegar no final deste ano, é bom olharmos para trás e vermos como evoluímos nestes 15 anos. E enquanto os grandes lançamentos do ano não chegam , é isso que irei continuar a fazer. A olhar para o passado, a aprender e a crescer com ele.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.