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Journey to the Savage Planet | GLITCH REVIEW

Digam olá ao primeiro grande jogo de 2020.

Depois do anúncio em 2018, que aconteceu durante a cerimónia dos The Game Awards, a Typhoon Studios parecia ter desaparecido da atenção dos críticos e jogadores, com Journey to the Savage Planet, que acaba de chegar ao PC e consolas, a não ser mais que uma mera memória coletiva. O trailer de revelação pouco, ou nada, antevia o que nos esperava, seja pelo género ou pela sua jogabilidade, e agora que já é, finalmente, uma realidade, rompe com todas as expetativas e torna-se naquele que é, para mim, o primeiro grande jogo desta década.

A competição é, por agora, pouco fervorosa, mas a Typhoon Studios destaca-se neste início de ano ao dar-nos um jogo de exploração e aventura capaz de condensar o melhor do género numa das campanhas mais empolgantes que encontrarão no PC e consolas. A sua curta duração, que poderá rondar entre as 6 e as 10 horas, é a prova de que um mundo fechado, mas bem estruturado, irá sempre ultrapassar a necessidade de adicionar mais conteúdos para aumentar artificialmente a duração de um jogo. Aqui, tudo faz sentido. As mecânicas complementam-se, o design dos níveis eleva as habilidades da nossa personagem e nunca sentimos que estamos a perder tempo com atividades desnecessárias. Este é um jogo que nos deixa saudades.

Afinal, o que é Journey to the Savage Planet? A resposta é simples e complexa ao mesmo tempo. No seu cerne, é um jogo de exploração e aventura na primeira pessoa que nos coloca sob o controlo de um astronauta/cientista da empresa Kindred Aerospace, a quarta maior empresa de exploração especial – denominação que usam com todo o orgulho -, cuja missão é a de explorar um planeta alienígena e determinar se é viável para a humanidade. Para tal, teremos de nos aventurar pelo planeta selvagem e catalogar a sua fauna e flora, determinar possíveis perigos e descobrir tudo o que se esconde neste novo e admirável mundo.

A história, que mantém sempre um tom mais leve e humorístico – que é enaltecido por trechos publicitários e mensagens, em live action, da equipa da Kindred, juntamente com a IA que nos acompanha na viagem -, é simples e muito funcional, mas mantendo um fio condutor muito estrito e controlado que nos leva através de uma narrativa tradicional e algo previsível – como a presença de uma raça alienígena inteligente, cujas ruínas teremos de explorar -, que nunca perde o seu charme ou familiaridade. É um clássico perdido da ficção científica, com o seu estilo visual a relembrar-nos as capas das obras de Isaac Asimov, Stanisław Lem ou Philip K. Dick.

Como seria de esperar, o planeta é povoado por várias criaturas e tecnologia alienígena que nos irá auxiliar ao longo da campanha.

A exploração na primeira pessoa é exponenciada por uma estrutura muito próxima do género metroidvania. Para além da recolha de recursos, que nos dão acesso a equipamentos e acessórios para o nosso fato espacial, temos de encontrar tecnologia alienígena que nos permite avançar na história. Sem estas habilidades, não conseguimos progredir, o que nos obriga a explorar novas zonas do planeta em busca de soluções. Apesar de a campanha ser, na sua maioria, linear, existem estas missões adicionais que nos permitem ver outro lado do planeta e descobrir, aos poucos, todos os segredos que esconde, desde novas raças alienígenas até às centenas de colecionáveis disponíveis no jogo.

Journey to the Savage Planet é muito consistente do princípio ao fim e mantém esta aposta na exploração, na descoberta de novas habilidades e na recolha de recursos de forma exímia. O controlo e movimentação da personagem são tão fluídos que nos compelem a verificar todos os recantos do planeta, com as habilidades a desbloquearem novas opções de deslocação que dão ao jogo um ritmo mais acentuado. Sentimos que estamos sempre a descobrir algo novo, a ver algo inesperado e a sentir que estamos, efetivamente, a desbravar um planeta que é nosso.

Existem várias habilidades e melhorias à nossa disposição, entre elas o jetpack, que nos permite dar um segundo salto, e um gancho eléctrico, que podemos usar para baloiçar entre furúnculos.

Esta sensação de progressão é conseguida através do excelente e cuidado design das várias zonas do planeta. Estas zonas, que funcionam como biomas – cada uma com a sua fauna, flora e elemento natural próprios -, são curtas, mas totalmente pensadas e desenhadas em prol deste ritmo frenético, oferendo-nos plataformas por onde podemos saltar, cavernas escuras e estruturas megalíticas com missões por completar. Cada zona é um mundo por si só, onde sentimos que vivemos uma aventura com princípio, meio e fim; onde a ideia de microcosmo está tão presente que rapidamente conseguimos delinear o seu mapa sem precisarmos de auxílio exterior. O facto de estarmos perante um mundo interligado e interdependente, onde cada habilidade influencia a forma como interagimos com cada zona, dá-nos uma maior ligação a este planeta estranho e selvagem. Em poucas horas, sentimos que é uma segunda casa e que sabemos onde estamos em qualquer momento, sendo um dos cenários mais familiares e de fácil leitura que encontrei neste género.

Nada disto seria possível sem uma direção de arte apurada e a Typhoon Studios esforçou-se na conceção deste planeta alienígena. As cores são fortes, muito presentes, ricas e quentes, com cada zona a apresentar novos elementos visuais que se complementam à medida que exploramos locais mais exóticos. É possível encontrar cavernas assustadoras, mas também planícies geladas, selvas espessas e estruturas rochosas imponentes, que somos regularmente convidados a explorar devido à sua estranheza. O mesmo se verifica no design das criaturas, ainda que um pouco mais caraterísticas do género de ficção científica, mas destaco que nem todas são agressivas.

O planeta está dividido por várias zonas, algumas delas cheias de ilhas que preenchem os céus. É um mundo que merece ser explorado e que esconde segredos que nos motivam a continuar em frente, com alguns puzzles presentes a desafiarem os mais astutos.

A performance sólida, ainda que com alguns bugs visuais – pelo menos na versão Xbox One -, ajuda a criar uma maior imersão neste mundo peculiar e colorido, ao ponto de sentir que não necessitávamos de um sistema de fast travel. Aconselho-vos a explorar, a procurar por novos colecionáveis e a melhorar a vossa personagem sempre que possam. É um mundo tão bem desenhado que vale a pena evitar os portais para conhecer todos os segredos que esconde.

Mesmo com esta mistura de géneros e estilos, Journey to the Savage Planet nunca deixa de ser um jogo simples e direto. Para além da sua curta duração, da sua aposta em mecânicas de sobrevivência – onde podemos recuperar os recursos que perdemos quando morremos – e em elementos RPG, como a possibilidade de melhorarmos os parâmetros da nossa personagem, o jogo nunca perde o seu foco e mantém-se forte até ao final. Há um respeito pelo nosso tempo que aprecio e louvo. A sensação de estarmos constantemente a progredir, onde todas as mecânicas são relegadas a um botão e a uma ação intuitiva, é perfeita para qualquer jogador. Até os mais impacientes terão muito para adorar neste jogo.

Existem, no entanto, alguns problemas. O primeiro é incontornável e é o reflexo do próprio género. Ao estar mais próximo de um metroidvania, no sentido em que as habilidades determinam a progressão da campanha, Journey to the Savage Planet acaba por se tornar repetitivo, obrigando-nos a parar a missão principal para procurarmos pela tecnologia necessária para avançarmos. Isto acontece em todos os momentos da campanha. Apesar de adorar a forma improvisada com que descobrimos estas habilidades, com a equipa da Kindred a elaborar novos planos para o nosso cientista, a verdade é que estamos sempre a seguir a mesma ordem de acontecimentos – nova zona interdita, habilidade por descobrir, desvio e, por fim, progresso. O jogo nunca se desvia desta trajetória, mesmo com a sua curta duração. Existem tentativas em dinamizar a campanha, como a presença de bosses e de zonas secundárias, mas nunca há uma rutura eficaz. Este é um jogo que sabe o que é, o que deve fazer e como fazê-lo – quer queiramos ou não. Apesar de ver esta repetição como um ponto potencialmente negativo, não posso deixar de respeitar a determinação do estúdio.

A simplificação das mecânicas não deve ser visto como um ponto negativo, antes pelo contrário. Seja na recolha de recursos, na catalogação das criaturas ou na utilização das habilidades, este é um jogo que sabe ser intuitivo e que percebe que tem de o ser para manter o jogador investido. Quanto mais simples, mais vontade dará aos utilizadores de explorar ou de repetir a sua campanha.

O segundo problema é mais pessoal e prende-se ao modo cooperativo. Journey to the Savage Planet pode ser jogado com um amigo, algo que irá entusiasmar a maioria dos jogadores, mas que é, para mim, um pouco desnecessário. Há algo de mágico na exploração a solo, na descoberta de novas zonas e na sensação de estarmos a descobrir algo que é nosso. Como um explorador a subir o Monte Evereste pela primeira vez, temos o prazer de deixar a nossa marca neste planeta alienígena, algo que não acontece quando dividimos a campanha com outra pessoa. Eu sei, este poderá não ser um problema para vocês, mas acho que é a única gordura a mais num jogo que está limado para dar a experiência mais focada e direta deste início de ano.

Fui apanhado de surpresa. Journey to the Savage Planet é um jogo cheio de charme que veio dar-me uma experiência que eu não sabia que queria. É um pacote completo, curto e direto, onde a exploração é aliada ao sentido de humor e a uma progressão eficaz – ainda que vítima de alguma repetição. É a prova de que uma campanha curta é capaz de nos dar uma experiência empolgante sem precisar de perder tempo com conteúdos adicionais desnecessários. Tudo funciona, tal como devia. Pode não ser um jogo para todos, mas é um jogo que tem um pouco de tudo para todos. Que 2020 seja sempre assim.

A escala utilizada é de 1 a 10

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