Na Minha Cama com Ela – #7

A dois artigos de terminar esta rubrica, decidi voltar quase ao início: a Death Stranding. Se a minha primeira aventura foi espalhafatosa e curta, esta já foi mais decente e duradoura. E, como já podia sair da cama para habituar o corpo a novas posições que não a de falecido, sentar-me no sofá à Jabba The Hutt parecia ser a melhor posição para terminar um jogo que é todo ele sobre movimento.

Foto real da minha pessoa a jogar Death Stranding

Contemplei recomeçar, mas o save de nove de novembro tinha o seu quê de simbólico, portanto abri-o e fui encontrar o Sam no seu quarto privado, à minha espera. Em intervalos de duas a três horas, fui brincando às entregas e se não entendia o conceito do jogo ou chateava o João com as minhas teorias e descobertas, pouco a pouco fui caindo em mim. Um desses momentos surgiu quando descobri a primeira grande cidade e os Low Roar começaram a cantar; a câmara afastou-se para revelar todo aquele cenário desolado num plano cinematográfico belíssimo e eu ali, a andar.
Estava apaixonado.

Caminhei e caminhei; por rios e ribeiros; montes e vales; neve; relva; estradas e ruínas. Deparei-me com obstáculos naturais; inimigos humanos e fantasmas e em momento algum achei que estava aborrecido. Pontualmente, os Low Roar ou os Silent Poets acompanhavam-me e eu caía mais um bocadinho – às vezes, literalmente porque podem contar comigo para estragar o ambiente solene da coisa. Eyes open, asshole, o Sam queixava-se. E a história avançava comigo curioso.

Não bebo mais nada hoje.

Não sou fã de jogos online, preferindo uma experiência mais solitária, mas Death Stranding deu-me uma experiência a meio termo: eu estava sozinho, mas a jogar com imensa gente. Quando encontrava sinais, escadas ou cordas de outros jogadores, sentia-me tão grato pela ajuda e triste por não poder agradecer; quando via postos de construção, fazia os possíveis para ajudar a terminar estradas ou abrigos, sabendo que outros iriam usar, mesmo já tendo acabado o jogo. E quando desbravava terreno, andava feliz a construir teleféricos por zonas perigosas e ganhava um sorriso nos lábios quando recebia as notificações de que estavam a ser usados. Sofri para que outros pudessem atravessar o mapa em paz.

De certa forma, senti-me como no final de Nier: Automata, quando (SPOILER) todos os jogadores me vieram ajudar. Admito que chorei que nem uma esponja cheia de água nos dois. Estava sozinho no meio de tantos.

Chorar nos créditos? Quem nunca…

Relendo os parágrafos acima, parece que descrevi um jogo maravilhoso, onírico e arte no seu expoente máximo. Na verdade, o jogo é razoável. Enredo? Lindo. Jogabilidade? Já vimos melhor.

O Kojima é a pessoa que nos habituou a um certo nível de qualidade nos seus jogos, mas este Death Stranding falha em alguns aspectos, apesar da liberdade que ainda nos dá. Mas é um motor novo!, exclamam. Certo, mas é o motor do Horizon e esse jogava-se melhor. As mecânicas que envolviam a caminhada estavam no ponto, mas o combate era péssimo, e vindo de um homem que namorou o belicismo em vários jogos. Às tantas, eu já fugia dos confrontos e escolhia os caminhos mais longos.

Death Stranding não tinha dificuldade em puxar-me para os cenários islandeses (Sim, sim!) e imergir-me no seu mundo, mas caramba que também tinha imensa palha! Havia cutscenes para as coisas mais banais que se repetiam infinitamente: urinar, tomar banho, entregar embrulhos, reciclar etc e sempre as mesmas! Vá lá, que as podíamos saltar. E depois, os ecrãs de estatísticas que tinha de passar em automático e que comiam mais minutos das horas de jogo. Muitos menus, muitos documentos e entrevistas para ler; histórias paralelas que expandiam o mundo. Para o bem e para o mal, havia muito para explorar em Death Stranding.

No final, o saldo foi positivo.
Tive medo porque odiei o Phantom Pain, mas quis dar-lhe uma oportunidade que acabou por valer a pena. Este jogo é uma experiência contemplativa e muito Kojima, mas não ah ah, é tão Kojima, tolo e excêntrico. Quando digo que o jogo é muito Kojima, é porque tem tanto de bom como de mau. O enredo é bom, as personagens são interessantes, mas certas mecânicas precisavam de ser melhoradas e o homem tem de ter uma mão pesada porque aponta para todo o lado e deixa coisas a meio. Aborrecimento ou deslumbramento, o certo é que este Death Stranding já saiu e é nosso. Agora resta-nos um dois mil e vinte repleto de outros lançamentos demorados.

E que o senhor Kojima continue a ser produtivo porque estarei lá. Voltou a conquistar-me. Todas as pessoas merecem segundas chances e se amamos, conseguimos trabalhar o bom e o mau para amar o todo.
Keep on, keeping on!

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