Shenmue III | GLITCH REVIEW

Shenmue III chega para nos lembrar que o revivalismo é mágico. Uma nova entrada na série que é pura nostalgia, mantendo-se fiel às origens e ao esperado pelos fãs. Contudo, é também um paradoxo que deixa no ar o sabor agridoce da dúvida: terá Shenume III lugar nesta geração? Ou assume-se somente como um lançamento que deveria ter sido realizado há muitos anos atrás?

Na sua génese, Shenmue III é fiel à série, fiel às origens e fiel ao que se poderia esperar da base de uma terceira entrada nesta jornada épica de Ryo. Não desaponta neste sentido, e, por isso, os fãs podem esperar uma viagem no tempo que os levará de forma direta e fiel à aventura que tinham deixado pendente há quase duas décadas. Está tudo lá, o ambiente, as máquinas de venda, o tom dos diálogos, o ritmo da narrativa. É uma envolvente mágica que nos relembra outros tempos e nos convida a entrar num quase processo de meditação.

Curiosamente, este é o primeiro paradoxo de Shenmue III: enquanto nos convida a abrandar e a entrar num processo de “mindfulness” – no qual damos por nós a cortar lenha sob o céu estrelado ou a parar para ver uma árvore de flores de cerejeira – também nos frustra com o ritmo lento da ação, o constante “grind” necessário para progredir e os diálogos que se repetem, tantas vezes despojados de inspiração ou sentimento.

Tudo elementos centrais da série, mas, aqui, apresentados, regularmente, desprovidos de charme ou da envolvente da narrativa, criando um distanciamento da ação. Considero que Shenmue III teria ganho mais se existisse um maior contexto ou interligação de ações em momentos narrativos. Um exemplo: são inúmeras as vezes em que a narrativa principal fica suspensa, para que Ryo possa ir treinar ao “dojo” e, assim, aumentar as suas probabilidades de ganhar o próximo combate. Em momento algum dos diálogos existe um acompanhamento desta ação.

É como se tivéssemos que juntar peças de um puzzle que, apesar de terem um resultado final, parecem não querer funcionar em harmonia ou continuidade. Parece ter havido muito pouco cuidado neste sentido, assim como, no desenvolvimento de diálogos e narração. Os fãs que me desculpem, mas poupo-vos já a desilusão: se jogarem o jogo em inglês, ouvirão uma adaptação de Lan Di que fica, em tudo, longe daquilo a que seria de esperar, tendo em conta os jogos anteriores e o tom muito particular da voz desta personagem tão relevante para a narrativa. Joguem em japonês, a sério.

Quem disser que esta não foi a primeira coisa que fez assim que jogou Shenmue III tá a mentir. Verdadeiros fãs entenderão.

Apesar desta realidade, a narrativa de Shenmue III assume-se como interessante, inspirando-se em enigmas, mistérios e simbologias para criar um ambiente de dúvida, curiosidade e segredo que apetece desvendar. A história desenvolve-se em torno de um segredo milenar que envolve um enigma misterioso. Como peças do puzzle, há ainda a amável e carinhosa Shenhua, amiga de Ryo, entre outras personagens, tanto novas como outras já bem conhecidas dos fãs.

Há piscares de olho a eventos do passado e à história de Ryo que dão a Shenmue III uma linha de continuidade coesa e bem desenvolvida – na segunda localização da narrativa (o título tem três) Ryo pode inclusivamente fazer chamadas para o Japão para falar com personagens dos jogos anteriores. Contudo, fica no ar a sensação de que Shenmue III se assume com um enorme “filler” na narrativa da série, com a história principal a progredir muito pouco durante a totalidade deste novo título – é quase como se fosse um episódio extra e não uma nova temporada.

Fica ainda o aviso de que a progressão inicial é lenta e, por isso, esperem algumas horas iniciais nas quais a ação parece desenvolver-se a um ritmo moroso. Sem querer “spoilar“, mas talvez já o fazendo, Shenmue III deixa em aberto a continuidade da série o que, pessoalmente, muito me surpreendeu. A minha expectativa era a que Yu Suzuki utilizasse este lançamento, fruto do financiamento dos fãs, como uma forma simbólica de terminar a série. Sinceramente, e apesar deste final aberto, tenho sérias dúvidas que exista outro lançamento na história de Shenmue – os anos estão a passar, os fãs e criador a ficarem velhos e a série merece ser eternizada no tempo, ao invés de a sua presença ser forçada para o futuro.

Uma das novidades de Shenmue III é o sistema de “stamina” e saúde, com a alimentação de Ryo a ter um papel imprescindível na jogabilidade.

Adicionalmente, Shenmue III traz algumas novidades à série e à jogabilidade. Aquela que é talvez a mais predominante, diz respeito à stamina e saúde de Ryo e a forma como a mesma é afectada e reposta. Se no passado os alimentos tinham um papel pouco relevante na jogabilidade, em Shenmue III é essencial que Ryo se alimente – fome prolongada leva ao gasto total dos recursos de “stamina” e, em último caso, à impossibilidade de correr. Adicionalmente, a saúde de Ryo já não é reposta após os combates. Para mim, toda esta questão foi frustrante, com o gasto de “stamina” a tornar-se um obstáculo à exploração livre e à progressão mais imediata nas primeiras horas de jogo. Recomendo que ganhem, desde logo, algum dinheiro para que possam comprar alimentos e, assim, evitar moverem-se pelo mapa a um ritmo caracol, enquanto Ryo diz vezes sem conta “preciso de comer alguma coisa”.

Infelizmente, esta foi mais uma das mecânicas a afetar a imersão, fazendo parte de uma lista algo extensa. Refiro-me, por exemplo, a situações nas quais o diálogo se repete, praticamente inalterado, cada vez que Ryo sai de casa ou em momentos chave para a narrativa, nos quais a acção é interrompida por um aviso que nos diz que ficou tarde e está na altura de voltar para casa – spoiler: se não voltarem, o jogo trata disso por vocês. No fundo, é como se Shenmue III impusesse ao jogador uma forma de jogar que parece datada, o que se nota também em momentos de exploração: por exemplo, para abrir uma gaveta é necessário clicar três vezes no mesmo botão, o que é completamente incompreensível, se torna aborrecido e prejudica o tom do tipo de ação.

Ryo continua a lutar com estilo e com um penso na cara. Chamemos-lhe uma versão karaté do Nelly. Sim, aquele do “Hot in Here”.

Apesar de tudo, Shenmue III é um “trowback” com elementos muito positivos: dos cenários à narrativa, da atenção ao detalhe ao simbolismo da história, há algo de especial neste jogo. A narrativa passa-se em três localizações principais, bastante diferenciadas entre si e serão, desde logo, convidados a descobrir paisagens naturais incríveis, nas quais os tons se misturam para compor cenários que vos fazem parar e olhar. A banda sonora que os enquadra é igualmente soberba, numa mistura que cria um ambiente acolhedor e que dará aos fãs a sensação de voltar a casa. O mapa estende-se ao longo de vários pontos de interesse, povoados pelas habituais personagens que vos ajudarão ao longo do caminho – elogio à personalidade curiosa de alguns deles que, ainda que de forma subtil, foi capaz de me arrancar alguns sorrisos.

Outro dos pontos altos é, sem duvida e como se havia de esperar, o karaté. Esta é uma das temáticas centrais da série e, em Shenmue III, continua a ser um dos pilares da jogabilidade. Como é habitual, terão à vossa disposição vários tipos de ataque, que poderão ser combinados para a utilização de combos. As capacidades podem ir sendo melhoradas ao longo do tempo, seja através do combate com outros praticantes, como com alguns exercícios de treino – sim, os famosos murros ao tronco estão cá. A vossa capacidade de combate divide-se em três grandes categorias – karaté, ataque e “stamina” – e terão de as melhorar às três para conseguir vencer as várias batalhas que vos esperam.

Neste sentido, a progressão é coesa, com o jogador a sentir que o treino que realizou realmente faz a diferença em momentos de luta – é, portanto, impossível vencer perante oponentes sem antes passar por um processo de aprendizagem. Sim, o “grind” é real em Shenmue III. Adicionalmente, têm à disposição momentos de treino no qual poderão fazer “spar” e aumentar a eficácia dos vossos ataques. O jogo recorre a ainda aos quick time events para expandir a dinâmica neste tipo de momentos.

Shenmue III vai para o top das análises mais difíceis que já escrevi. Foi difícil distanciar-me e ainda mais difícil perceber que, na minha opinião, esta nova entrada na série não faz sentido nesta geração. Pelo menos, desta forma tão inalterada, sem uma aposta real em atualizar algumas mecânicas. Desengane-se quem achar que não fiquei contente com o facto de o ADN da série ter sido mantido, contudo, penso que se pedia mais deste lançamento. É como se a série tivesse ficado parada no tempo e nós, os fãs, tivéssemos que viajar até ela, para sentir que voltar a pegar no comando faz sentido. Acho que, acima de tudo, a minha maior problemática foram as mecânicas – génese de Shenmue, mas já a precisar de um polimento para um lançamento de 2019.

Sou fã da série há muitos anos, joguei os primeiros dois jogos na DreamCast e só eu sei o quentinho que senti aquando do anúncio do terceiro jogo. Voltar a esta série assumia-se como um privilégio e um momento de enorme antecipação. Contudo, o resultado final deixa-me com mixed feelings. Compreendo que seja um serviço aos fãs, contudo, a opinião que tenho é a de que preferia não ter jogado este terceiro capítulo. Acho que é isto que acontece quando voltamos, anos mais tarde, a alguns jogos dos quais temos boas memórias e a magia simplesmente se dissipa. Eu não sou a mesma jogadora, tendo evoluído como fruto da experiência com tantos outros títulos, e os tempos são também outros.

Ainda assim, e voltando a uma perspectiva mais distanciada, para os fãs de Shenmue, Shenmue III parece-me ser um título obrigatório. Se não gostarem do mesmo que eu não gostei, considerem, pelo menos, o facto de a vossa compra ter retribuído o carinho de Yu em nos ter levado de volta, quase 20 anos depois, a este mundo mágico. Mesmo que, agora mais maduros, possamos ver tudo com outros olhos, Shenmue III é fiel às suas origens, respeitando um legado que é incontornável na história dos videojogos.

Shenmue III preserva, de forma inalterada, o espírito da série, assumindo-se como um título obrigatório para os fãs da série. Um lançamento que trouxe a 2019 toda a magia da criação de Yu Suzuki. Apesar de, por vezes, nos parecer datado e desprovido de iniciativa para arriscar ou inovar, não deixa de ser um título incontornável na história da série. Para alguns, será uma verdadeira viagem agridoce, para outros um voltar a casa inesquecível.

A escala utilizada é de 1 a 10

A cópia para análise (PS4) foi cedida pela Ecoplay.

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