Nunca joguei um jogo do Kojima – e agora quero?

Nota 1: este artigo contém SPOILERS de Death Stranding
Nota 2: este artigo não inclui qualquer tipo de imagens ou vídeos de Death Stranding porque eu quis evitar spoilers.

Nunca joguei um jogo do Kojima. E, até Death Stranding, para dizer a verdade, nunca sequer me interessei em saber mais sobre um jogo do Kojima. Não é que não reconheça o seu talento ou relevância na indústria dos videojogos, ou que ache piada à forma como se posiciona na mesma, simplesmente, nunca me tocou o coração ao ponto de me fazer querer saber mais sobre um Metal Gear, por exemplo.

Assisti ao processo de criação e lançamento de Death Stranding nas linhas laterais, enquanto observava, de forma atenta, as reações do David e do Canelo. Foi toda uma jornada épica – sei, agora, que isto é deliciosamente perfeito, tendo em conta o teor do jogo – com altos e baixos, com silêncios impostos por NDA’s, com emoções à flor da pele e com conflitos internos entre o fã e o crítico de videojogos. Só por estes momentos, esta aventura já teria valido a pena. Mas, ali a certo ponto, houve algo que me despertou a curiosidade. De repente, o Kojima tinha-me piscado o olho, lá de longe e eu, inocente, comecei a querer piscar de volta. Fiz perguntas ao Canelo e ao David, li atentamente sobre o seu progresso na história e dei por mim a pensar que talvez, e só talvez, Death Stranding fosse um jogo para mim.

Não vi qualquer stream, não li qualquer artigo ou assisti a vídeos de jogabilidade de Death Stranding durante este processo de sedução que se deu de fiininho. É que, na verdade, esta entrada no universo de Kojima estava a ser feita pela mão de dois amigos meus, de dois fãs dedicados. Fazendo uma retrospetiva toda a história é curiosamente simbólica: afinal, ambos criaram pontos (bridges) entre mim e Death Stranding. Por isso mesmo, pedi ao David que fosse o meu guia, qual Yoda, e lá fomos nós para a imensidão do título que provocou meio mundo nesta reta final de lançamentos de 2019.

Repito, nunca joguei um jogo de Kojima. E, por isso, sinto agora que o primeiro impacto, para alguém que nunca experienciou uma criação dele, é no mínimo, único. Se antes me piscava o olho de longe, de repente estava ali a presentear-me, ainda que indiretamente (era o David a jogar), com uma sensação que acho que nunca senti num videojogo: das animações aos detalhes, das perguntas sem resposta à descoberta de um universo que, mesmo ao juntar uma dezena de inspirações, se assumia como único. Uma mixórdia de temas, outra de mecânicas de jogabilidade e uma quantidade absurda de simbolismos. E eu deixei-me ir.

“Mas de quem é este bebé? Este bebé é, na verdade, o jogador?”

“Mas as pessoas não se veem umas às outras? Porquê?”


“O bebé está a chorar? O bebé está a rir? O bebé está contente? Oh meu deus, este bebé é a melhor cena do jogo”.


“Espera, ficaste com a marca dos espetros no corpo?”


“Wooow, olha aquela cascata! Ele nada?!” (os mais OG perceberão a referência)
“Se este bebé é de uma mãe que foi colocada em estado de coma somente para ele se manter vivo… isto é moralmente errado…”


“Quê? Podes cantar para o bebé? Oh meu deus, ele deita-se a descansar e agarra o recipiente do bebé”

Claramente, o bebé foi das minhas coisas preferidas nesta primeira abordagem ao jogo. E estas foram somente algumas das questões que coloquei, enquanto o David levantava apenas uma pontinha do véu daquilo que Kojima entregou ao mundo. Experienciei a solidão (mesmo estando numa party de voz), a pequenez perante uma montanha, o desequilíbrio perante o terreno acidentado, a dicotomia entre a impossibilidade de relações humanas e a tarefa de entregar algo tão pessoal quanto uma encomenda. O paradoxo que é não se poder tocar noutro ser humano, mas carregar-se um bebé que, como sabemos, precisa de atenção e cuidados 24/7.

Pedi ao David que me contasse o final. Ele recusou. Neste momento, tenho, a meu pedido e na minha caixa de mensagens, vários links que me explicarão a história toda se eu assim quiser. Acreditem ou não, não os abri e não sei se o irei fazer. O Kojima piscou-me o olho e eu não consigo ignorar isso.

Será que lhe pisco o olho de volta?

2 pensamentos sobre “Nunca joguei um jogo do Kojima – e agora quero?

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